4.6.08

Nós, os negligentes...

O inadmissível episódio do seqüestro de uma equipe do jornal O Dia por integrantes de uma milícia que atua numa favela da Zona Oeste do Rio foi tema de um acalorado debate na redação hoje. E, agora que a poeira baixou e os fatos já estão mais claros, resolvi escrever sobre o assunto.
Primeiro, acho muito infeliz a idéia de deixar uma equipe "morando" na favela, registrando as atividades de uma organização que, embora formada por policiais, é criminosa. O risco de operações como essa é enorme e vidas estão em jogo. E nunca há garantias de que o final será feliz. Como não foi dessa vez...
No debate, uma amiga me alertou que, uma vez paralizados diante dessa realidade - de assumirmos que não podemos cumprir pautas dessa natureza - estamos, todos, admitindo a falência do sistema de segurança pública. Admitindo, aliás, em caráter oficial, a partir do momento em que os gestores da segurança falam publicamente dos riscos envolvidos em coberturas dessa natureza, praticamente desaconselhando-as.
Concordo com ela.
Em parte.
Em parte porque faz tempo que nós, cidadãos e jornalistas, sabemos do quão arriscado é cobrir situações desse tipo. Essa falência da segurança pública do Rio de Janeiro vem de longa data, está longe de ser novidade. Basta olhar pra trás e ver que, há seis anos, Tim Lopes foi brutalmente assassinado ao tentar denunciar as barbaridades cometidas pelo tráfico de drogas numa outra favela da cidade.
Agora, no entanto, é diferente. Não se trata de tráfico. Trata-se das milícias, formadas por maus policiais, que exploram serviçoes e impõem "ordem" nas comunidades em que se infiltram. Uma realidade que não fazia parte do noticiário quando Tim foi morto.
Agora é diferente. É pior, mais grave! É vergonhoso notar que, em menos de uma década, esses grupos de bandidos fardados tomaram de assalto regiões que o Estado continuou a negligenciar. E é vergonhoso não apenas para o(s) governo(s), mas também para toda a sociedade. Porque esse novo estado de coisas nos mostra que nesses seis anos pressionamos menos do que devíamos ter pressionado para que essas comunidades recebessem a atenção e os investimentos que merecem. Pressionamos pouco porque só nos lembramos de fazê-lo quando nós, da classe média, acabamos vitimados. Quando a coisa é só com os "locais", ficamos chocados. Mas não tarda para que o reconfortante esquecimento bata e a gente siga na nossa vidinha "normal", de carros com película escura nos vidros, grades nas janelas e medo de errarmos caminhos e acabarmos dentro de uma favela numa noite qualquer dessas.
Assim, com essa mentalidade medíocre, deixamos a situação piorar tanto em apenas seis anos. Seis anos para "assumirmos oficialmente" uma realidade dura, triste e inaceitável, já velha conhecida por todos os que moram em periferias. E agora, além das três facções que brigam pelos pontos de venda de drogas, temos de enfrentar as milícias.
E agora? O que faremos para impedir que os próximos seis anos façam surgir mais um inimigo?
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