18.5.09

Domingo de cinema: Anjos, demônios e Simonal...

Cinema é a maior diversão! Certo disso e precisando espairecer depois de mais uma semana de muita correria, zarpei no início da tarde de ontem para um multiplex decidido a conferir duas das novidades da semana: "Anjos e Demônios", baseado na saga criada por Dan Brown; e "Simonal", documentário sobre a vida do cantor que teve a carreira arruinada depois da suspeita de ser colaborador do regime militar.
Como faria Jack, sigamos por partes...
"Anjos e Demônios" leva para as telas o suspense sobre uma conspiração no Vaticano. Abalada pela morte de um Papa, a cúpula da Igreja Católica precisa lidar com as ameaças contra os quatro cardeais favoritos para a sucessão do pontífice. Por trás do terror, uma sociedade secreta, munida com uma arma de alto poder de destruição, criada num dos mais modernos laboratórios do mundo.
Quem leu o livro sabe que é eletrizante. Eu, particularmente, acho ainda mais instigante que o propalado "Código da Vinci". E, se errou a mão na adaptação do mega-best-seller de Dan Brown, o diretor Ron Howard, que também assina a direção de "Anjos e Demônios", consegue se redimir. O filme tem ação pra dar e vender! O clima frenético do livro foi bem traduzido pelas sequências de perseguições rodadas nas ruas de Roma e o elenco colabora, e muito, para convencer o público de que a conspiração imaginada pelo escritor é verossímil. Os destaques são Tom Hanks - que, felizmente, viu seu Robert Langdon ganhar um corte de cabelo; e Ewan McGregor, convincente no papel do Camerlengo. Sem falar na bela Ayelet Zurer, que vive a sensual e esperta Vittoria Vetra.
Os cenários são de impressionar - principalmente as tomadas que reproduzem os interiores da Capela Sistina, local ao qual a equipe teve o acesso negado pelo Vaticano. A música também ajuda a criar o clima de aflição necessário à narrativa e o roteiro dá aos leitores da história a sensação de que o crème-de-la-crème do livro foi levado para a telona.
A Igreja implicou, óbvio. Seus interesses e a manipulação em torno da opinião pública são mostrados às claras. Mas, por outro lado, a beleza de seus rituais mais fundamentais - como o conclave - também está lá, traduzida em imagens nunca antes imaginadas por boa parte do público. Sem falar que a tomada final é de emocionar até o mais descrente dos seres humanos.
É um filme bem bacana! E eu recomendo!

Da ficção mais fantasiosa para a realidade. Realidade, que, aliás, pode ser mais devastadora que a antimatéria do filme baseado em Dan Brown. Na vida de Wilson Simonal, não houve antimatéria. Mas a destruição de sua imagem - e o consequente naufrágio de sua carreira - foram tão devastadores quanto a mais poderosa das armas químicas.
Um dos cantores mais populares do Brasil na década de 60, chegando a rivalizar com Roberto Carlos, primeiro negro a fazer sucesso sem cantar samba, Simonal foi dos píncaros da glória ao abismo do mais profundo ostracismo. Tudo por conta de uma suposta - e jamais comprovada - atuação como delator de colegas artistas ao regime militar.
Rico e com vocação para a ostentação, Simonal meteu os pés pelas mãos e cometeu um erro que lhe custou tudo o que tinha conquistado até então. Esquecido, depois de vinte anos ignorado pela mídia, morreu, reduzido a uma pálida sombra do que tinha chegado a ser.
O filme é simples, sem grandes arroubos narrativos ou invencionices estilísticas. Os videografismos estão dentro do contexto da vida de um homem que fez o povo sambar como Sá Marina, e mostrou ter orgulho de viver num Pa tropi.
Dirigido por Cláudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer, o documentário agrupa bons depoimentos de personalidades que dão a dimensão do fenômeno que Simonal representou para a MPB durante a fase áurea de sua carreira. Chico Anysio, Arthur da Távola e Nelson Motta, donos de inegáveis carismas, defendem o artista; buscam fazer justiça e apagar a mácula que fez o castelo de Simonal desmoronar. Jaguar e Ziraldo, do Pasquim, dão suas versões para o tratamento que todo o episódio mereceu do periódico idealizado pela turma da canhota, como Simonal tratava os esquerdistas. E os depoimentos de Tony Tornado, Castrinho e Miéle contribuem para explicar o tamanho do estrago que um passo em falso gerou na carreira - e, pior - na vida de Wilson Simonal.
Fiquei especialmente incomodado com os depoimentos do Jaguar, que ri ao narrar passagens duras, como se desconsiderasse todo o sofrimento que elas causaram. Pode parecer piegas, mas achei que faltou um pouquinho de humanismo ali...
Os filhos, Max e Simoninha, dão depoimentos afetivos e, mais que isso, uma certa lição de sabedoria. Parecem ter aprendido com os erros do pai. E estão dispostos a resgatar o talento e a contribuição de Simonal para a história da MPB. Uma luta louvável, diga-se de passagem.
As imagens coletadas são impressionantes e revelam a importância da televisão para a memória de um país. Sim, porque só vendo o Maracanãzinho lotado cantando sob a regência de Simonal alguém da minha faixa etária pode entender o vulcão que era esse artista. E pode associá-lo às gerações posteriores de entertainers. Todos devem render homenagens à esse grande cantor.
No mais, "Simonal: ninguém sabe o duro que dei" ainda faz brotar um salutar debate sobre o poder da mídia. Faz pensar sobre a responsabilidade de uma imprensa que, já desde o início dos anos 70, confunde os papéis e, por vezes, julga e condena em vez de noticiar. Aliás, esse é o tema de uma das falas mais interessantes do filme, do falecido senador Arthur da Távola.
Gostei do filme. E saí do cinema lamentando que um erro tenha demolido toda a história de luta construída pelo Simonal. Recomendo o documentário a todos os amantes de música. E de História!
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