22.3.09

Sim, eu fui ao show do Ricky Vallen...

Ex-calouro na TV, cantor é fenômeno no subúrbio do Rio. Em seus shows, esbanja voz e celebra a união com as donas de casa, o público mais fiel que um artista pode encontrar...

Quando minha mãe me chamou para ir ao show do Ricky Vallen, já o fez de forma descrente. Fã do cantor, revelado no programa de calouros do Raul Gil, ela sabe que aquele não é o meu estilo favorito de música.
Por isso, ela se surpreendeu quando disse que, sim, topava conferir uma apresentação do artista.
E lá fomos nós...
Chegando ao clube, avistei um monte de senhoras, todas vestindo roupas de festa. Todas alegres e ansiosas. E comecei a entender a origem do fenômeno Ricky Vallen...
Aqui, uma explicação: em bairros do subúrbio carioca, Ricky é pule de dez entre os cantores mais populares. Seus shows são sempre lotados e o público, fiel, faz questão de seguir o artista em lonas culturais, clubes e teatros de pequeno e médio porte. É esse público que fez o primeiro cd do cantor ficar por vários meses na lista dos mais vendidos no país, perdendo apenas para o furacão Ivete Sangalo que, no mesmo ano de 2007, lançou o arrasa-quarteirão Multishow Ao Vivo no Maracanã. Ou seja: sim, Ricky Vallen é um fenômeno!
De volta ao show. Os gritos quase abafaram os primeiros acordes da banda quando o cantor entrou no palco, vestindo uma calça jeans e uma camiseta preta; bem diferentes dos figurinos extravagantes e pouco usuais que já são uma marca do artista. Simples na roupa, Ricky parece ter guardado toda a exuberância para as interpretações da noite. Dono de uma voz que parece não conhecer limites, o cantor enfileirou um repertório eclético, que foi de Ângela Maria a Daniela Mercury, passando por Lenine, Vander Lee e Elis Regina.
O amor é tema dominante no show e favorece as firulas que o intérprete parece gostar de fazer quando canta. É inegável que Ricky Vallen se empenha para deixar a sua marca em cada uma das canções que canta. Inventivo, quer deixar a sua identidade estampada em cada uma das músicas que interpreta.
E aí é que está: pra mim, Ricky vai por um caminho complicado. Caminho que, em muitos momentos, esbarra no exagero. Se fôssemos amigos, diria a ele que suas interpretações ficam muito mais bonitas quando o canto é mais contido e quando os arroubos da garganta não têm tanto espaço.
Mas não é isso que a plateia espera dele. E, esperto, o cantor sabe disso! A cada nota mais alta, a cada agudo impressionantemente alternado com um grave, os aplausos explodem e coroam um tipo de canto sem igual nas rádios e na TV atualmente. Diferente de tudo o que se vê e ouve por aí, Ricky Vallen cunha sua identidade de costas para todos os críticos de seu estilo. Preferiu dar as mãos ao público, com quem aproveitou para celebrar o seu primeiro grande sucesso, Vidro Fumê, música que vem ocupando os primeiros lugares nas FMs populares desde o último mês de novembro e foi incluída na última turnê de Adriana Calcanhotto.
Quase no fim do show, quando eu já estava certo de que aquele não era mesmo o meu lugar, Ricky juntou Milagres do Povo, Pérola Negra e Maria, Maria. Um medley improvável e, surpreendentemente, perfeito! Desceu do palco e percorreu todos os cantos do clube, nos braços da plateia. Colocou todas aquelas senhoras para dançar, de mãos para o alto, batendo palmas e sorrindo junto com ele. Ganhou e distribuiu abraços, beijos e acenos.
Distante da minha mãe, que estava numa mesa lá na fila do gargarejo, olhei e vi uma menina feliz, sorrindo, dançando e cantando; seguindo com os olhos o caminho que o artista fazia pelo clube enquanto ele passava lá no fundo do ginásio, bem na minha frente.
Nessa hora, revi meu prognóstico e entendi esse fenômeno popular que é Ricky Vallen. Casado com o mais fiel e conservador dos públicos, aquele composto pelas donas de casa, Ricky esbanja carisma e sabe acarinhar a multidão de tias, mães e avós que são o motor maior de seu sucesso.
E se antes eu cheguei a pensar que nunca mais veria um show dele, deixei o clube de mãos dadas com minha mãe, certo de que, pra vê-la novamente tão feliz, faria isso muitas vezes mais.
Quanto ao Ricky, não tenho dúvida de que é um grande artista. Resta saber se terá força para seguir em frente com seu estilo próprio, diante de uma indústria que sempre busca homogeneizar para vender mais...
E digo mais: adoraria entrevistar esse cara! Quem sabe um dia?
Postar um comentário