14.8.07

'Gente estúpida! Gente hipócrita!' *

Gianecchini e Richarlyson: foco da mídia e da opinião pública parece estar, agora, na sexualidade dos dois. Será que está faltando assunto num país como o Brasil?

E agora a bola da vez é o Reynaldo Gianecchini. Cismaram de perseguir o cara e de querer saber quem é que ele tá "panhando", como se diz na periferia da periferia carioca. E não basta saber de quem se trata; o povo da mídia agora parece interessado em saber o sexo da nova companhia do galã.
Li na semana passado, na coluna da Mônica Bergamo, um trecho de uma entrevista do ator na Revista TPM desse mês. E concordo exatamente com o que ele disse lá. Esse papo de querer saber quem "fulano está comendo" é cafona demais! E tão cafona quanto é essa curiosidade doentia por saber se fulano tá comendo homem ou mulher. Aí, vem alguém e diz que "os fãs" querem saber esse tipo de coisa. Pera lá! "Faiz favoire", como diriam os patrícios (aliás, um abraço aos portugueses que sempre passam por aqui). Fã que é fã tem que se contentar em saber que seu ídolo está feliz, tem que curtir o trabalho que ele faz. Isso basta! Isso é ser fã! Passando desse ponto, o que se tem é bisbilhotice boba, gratuita e dispensável!
Mais importante do que essa futricagem boboca é a indignação que todos nós - seres humanos - deveríamos sentir diante da tal sentença do juiz (?) da 9ª Vara Criminal de São Paulo, Manoel Maximiano Junqueira Filho, que resolveu arquivar o processo movido pelo jogador Richarlyson, do São Paulo, contra um dirigente do Palmeiras que, em um programa de televisão, insinuou que o atleta era homossexual. O caso, que eu já tinha julgado absurdo antes, agora passa a ganhar elementos típicos do surrealismo.
Um juiz proferir uma sentença afirmando que "não poderia jamais sonhar em vivenciar um homossexual jogando futebol", em pleno século 21, merece que tipo de reprimenda? Aliás, quais os critérios utilizados para tornar esse cidadão um juiz? É gente desse tipo que faz a justiça andar em nosso país? Se for, boa parte dos problemas com esse Poder estão mais claras pra mim...
O despacho do tal magistrado é o maior contra-exemplo que já vi quando o assunto é o respeito às diferenças! Ou, traduzindo: é uma aula de preconceito e homofobia! E, se não bastasse, esse senhor equivocado ainda fez uso da toga para aconselhar o Richarlyson, dizendo que, se fosse homossexual, seria mesmo melhor que o jogador deixasse os gramados. Peraí...assim não pode, assim não dá!
A sexualidade do atleta, assim como a do Reynaldo Gianecchini e a de qualquer reles mortal desse mundão de meu Deus não interessa a ninguém! E não é impeditivo algum para que qualquer cidadão, bi, tri, hetero, homo, pan, penta ou seja lá de qual orientação sexual seja desempenhar qualquer atividade profissional. O que é impeditivo, quando pensamos na evolução de nossa sociedade, de nossos conceitos, é saber que decisões importantes estão nas mãos de mentes atrasadas e cheias de preconceitos como a desse juiz.
Domingo, no Fantástico, o Richarlyson disse que não é gay. E se dissesse o contrário? Fico me perguntando o que aconteceria. Como a nossa sociedade reagiria? E qual o preço de uma revelação desse tipo na vida de um indivíduo publicamente conhecido? Não sei, mas suponho que seja (ainda) um alto preço. Porque aqui, no Brasil, há muita gente que pauta a conduta moral das pessoas pelo que julga certo e errado na hora da cama (um dos poucos momentos em que não há certo e errado, não é, minha gente?). E é essa gente atrasada que olha pro rabo dos outros e esquece de vigiar o seu próprio, como naquele provérbio dos macaquinhos. É essa gente atrasada que perde tempo lendo fofoca de artistas em vez de se informar sobre o que seria certo ou errado para o nosso país, para o país que queremos deixar aos nossos filhos. É essa gente atrasada, enfim, que, com atitudes como a desse infeliz juiz, contribui para que mais e mais crimes de intolerância continuem a matar gays ao redor de todo o planeta...


* Se você achou o título familiar, tem mesmo razão. Ele é parte do refrão de 'Nos Barracos da Cidade', canção de Gilberto Gil e Liminha.
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