10.2.08

'Cada um com seus Pobrema': show de talento e de humor inteligente...

Marcelo Médici lota teatro e faz o público morrer de rir em espetáculo cheio de sacadas que estão longe de reverenciar o humor rasteiro...

Ouço elogios ao talento do Marcelo Médici há um tempão! Lembro do cara no início da carreira televisiva, na "Praça é nossa", interpretando o Sanderson, um corintiano cheio de marra que rendeu ao ator o Prêmio Multishow de Humor, há dez anos. Achava o personagem meio boboca, mas eram inegáveis o carisma e a capacidade de convencimento que Marcelo emprestava à sua criação toda vez em que sentava no banco da praça, ao lado do Carlos Alberto.
O tempo passou, o ator foi parar na TV Globo e a mudança lhe fez muito bem. Embora a emissora esteja longe de aproveitar bem todo seu potencial, pelo menos tem dado mais visibilidade ao espetáculo que, desde 2004, Marcelo Médici encena com sucesso impressionante: "Cada um com seus Pobrema", sobre o qual ouço, leio e vejo elogios desde a estréia. E também desde a estréia guardei uma grande vontade de conferir, ao vivo, a performance do criador do Sanderson.
Sábado, lá fui eu ao Teatro Leblon. E como valeu a pena! De cara, entra em cena uma empregada doméstica, Cleuza, que arranca gargalhadas homéricas da platéia ao narrar todo o seu sofrimento de portadora de TOC - o tal Transtorno Obsessivo Compulsivo. Cleuza, que faz piada até com uma suposta falta de talento do astro do espetáculo, debocha dos seus irmãos de infortúnio: "Pobre vive dizendo que não tem nada, aí, quando vem a enchente, diz que perdeu tudo!". Não há quem não ria!
Sanderson também tem sua vez e, se nas TV o vendedor de "chicrete" parecia boboca, ganha força e projeção no palco, contando as peripércias da namorada que queria se suicidar por ter um cabelo "to-nho-nhóin". Risadas e mais risadas que crescem em volume e freqüência quando surge na boca de cena a versão decadente criada por Médici para a "Smurfete". Com a cara pintada de azul e a voz aguda e doce da duendezinha, o ator conta, com ar infantil, que a pobre personagem foi violentada até pelo Papai Smurf. Drogada e prostituída, tal Cristiane F., a Smurfete da peça acaba virando convidada de programa popularesco da TV e, por fim, passa a vender iogurte de porta em porta.
Quando minhas bochechas já davam claros sinais de exaustão - sim, rir cansa! - surge Tia Penha, a apresentadora infantil que detona o politicamente correto, tão em voga ultimamente. "Tinha Penha fuma e não vai parar", anuncia; despejando sobre o imaginário público infantil uma saraivada de impropérios deliciosos: "Papai Noel não existe", revela, debochando da inocência dos pequenos. Creiam: Tia Penha, por si só, já valeria o ingresso...
Jonson - assim mesmo, aportuguesado - é o surfista-modelo-e-ator-de-cabeça-vazia. Aparece com uma risada típica de quem tem a cabeça arejada (vazia???) e faz o público explodir no riso ao explicar sua técnica para encarar a passarela. Aliás, mais uma ótima sacada de Marcelo Médici, também responsável pelo texto do espetáculo.
Texto inspiradíssimo, que se torna ainda mais brilhante quando chega a vez de Jatira - uma mistura de astróloga, taróloga e podóloga - ganhar o palco. E a platéia, já que o número é permeado por vários improvisos com o público. "Trago a pessoa amada em três dias, se ela morar aqui na Zona Sul", anuncia a picareta de voz esquisita e olhar, digamos, místico e penetrante. Outro grande momento no qual o talento do ator para o improviso se torna incontestável.
No fim, o já célebre Mico-Leão-Dourado que tem a árdua missão de acasalar para evitar a extinção da espécie. Um banho de interpretação onde tudo é meticulosamente pensado: até o jeito do ator vestir a peruca que lhe faz ganhar uma vasta juba.
Saí do teatro rindo muito, brincando de repetir com a turma de amigos as frases da peça e reverenciando o talento desse grande ator. A dica, meus caros, é mesmo imperdível: "Cada um com seus Pobrema" segue em cartaz no Teatro Leblon até o próximo dia 24.
Se bobear, ainda vou de novo...
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