21.4.08

Caso Isabella dá novo fôlego ao filão policialesco na TV

José Luiz Datena, da Band, e Geraldo Luis, da Record: no comando de atrações que usam e abusam de reportagens policiais, os dois têm até o mesmo jeito de falar e de emitir opiniões contundentes. Mas Datena chegou primeiro...


Feriado em casa, uma excelente oportunidade para conferir o que anda bombando na TV aberta. E, na hora do almoço, resolvi sintonizar o "Balanço Geral", da Rede Record. Antes, um esclarecimento: graças a operadora de TV paga, recebo em casa o sinal paulista da Record e, por isso, vi o programa comandado por Geraldo Luis e não a versão carioca, comandada pelo não menos polêmico Wagner Montes.
Pra quem não conhece, serei breve na descrição: o "Balanço Geral" nada mais é do que uma nova versão do velho "Cidade Alerta", que a mesma Record extinguiu alegando que não traduzia mais a filosofia do departamento de jornalismo da rede. Até o apresentador, meus caros, tem ares de clone de José Luiz Datena. Mas, como toda cópia, Geraldo - que até fala alto e gesticula como o Datena original - já sai atrás na corrida pelo posto de "mais polêmico apresentador da televisão brasileira".
Hoje, boa parte do programa - se não todo ele, já que troquei de canal antes do fim - foi dedicado ao caso Isabella. E pelo discurso, ficou claro que a Record não engoliu bem o fato de ter perdido a corrida por uma entrevista exclusiva com o casal indiciado pelo crime. Furada pela concorrência, a emissora foi defendida pelo apresentador do "Balanço Geral": "Nós, do jornalismo da Record, estamos do lado da Record, da verdade e da Isabella". Pouco depois, disparou: "Aquela entrevista, a meu ver, foi um depoimento de defesa", dando clara demonstração de que a tática é desmerecer o trabalho levado ao ar pelo "Fantástico" na noite de ontem, que rendeu 42 pontos de pico de audiência para o programa global.
Ao mesmo tempo em que tentava desqualificar o trabalho da concorrência, Geraldo agradecia "ao Brasil e a São Paulo pela confiança e pela audiência". O agradecimento é pertinente: o "Balanço Geral" tem brigado feio pela liderança no Ibope da capital paulista. Hoje, com uma promotora de justiça comentando, no estúdio, os rumos da investigação, a audiência deve ter mesmo ficado lá em cima.
Esse tipo de jornalismo não me agrada. E achei que não agradasse mais ao público também. Mas, infelizmente, além de chocar o país, o caso da menina Isabella também contribui para dar força a um gênero que parecia cada vez mais enfraquecido. Agora, enquanto escrevo esse post, a TV está sintonizada no "Brasil Urgente" e Datena anuncia uma enquete via SMS sobre a entrevista exibida no "Fantástico" de ontem e reprisada há pouco, no próprio programa da Band. E já são mais de 50.000 torpedos enviados por pessoas que querem opinar sobre a sinceridade do casal durante a conversa com o repórter global Valmir Salaro. Impressionante!
Já que o post acabou indo além do "Balanço Geral", vale uma ressalva: muita gente se queixando, nas ruas, na TV e na Internet, da falta de "aperto" do repórter do "Fantástico" durante a entrevista com Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. Eu, que prefiro a prudência, pergunto: será que as perguntas mais contundentes fizeram falta? Ou a natureza das declarações dos dois já falam por si só?
Como jornalista, claro que o ímpeto é o de perguntar sobre os pontos mais fundamentais da investigação, sobre as conclusões da perícia que, até aqui, têm derrubado a tese defendida pelo casal. Mas, num caso como esse, ouvir o discurso dos dois indiciados - ainda que em declarações superficiais - é um passo importantíssimo e sinal de que a mídia busca cumprir o papel de levar a conhecimento público os dois lados da história. Por mais que, como estejamos notando até aqui, polícia e público já demonstrem ter encontrado o lado mais próximo do que, de fato, parece ter acontecido...
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