11.4.08

Dor no templo das delícias...

Na rua da TV há uma loja de doces daquelas de fazer enlouquecer a mais contida das crianças. E os amantes de guloseimas de todas as idades, como eu. É uma loja antiga, com vitrines e balcões antigos contrastando com os modernos frezzers responsáveis pela conservação dos sorvetes que tanto adoro.
Dentro das vitrines, delícias de várias épocas, sabores e preços. Do doce de amendoim da minha infância ao mais caro, calórico e delicioso dos chocolates, passando por uma infinidade de balas, pirulitos e chicletes.
Na porta, uma linda gatinha branca e cinza, sempre cheia de preguiça, sempre deitada num dos degraus, como que guardando e protegendo aquele simpático templo da gula...
Atrás do balcão, um velho casal de portugueses. Ela, uma senhora comunicativa, brincalhona, sempre a perguntar sobre o trabalho excessivo, sempre a dizer que "sim, você pode comer um docinho; estás em forma"; e sempre carinhosa na hora de dizer o "até amanhã" que soa mais como um convite afetuoso do que como uma artificial estratégia de marketing.
Ele, o marido da simpática vendedora de doces, é mais contido. De sotaque mais carregado, faz o tipo lápis-atrás-da-orelha e sempre parece disposto a fazer contas. Fala menos aos rapazes, mas, quando estes trazem consigo uma bela moça, desmancha-se em elogios e gracejos. Sutil, arranca grandes gargalhadas nesses momentos de galanteador.
A loja, nesses quase oito anos de TV, virou quase uma parada obrigatória pra mim, na hora de voltar do almoço ou do lanche da tarde. Parada obrigatória e satisfatória...
Desde segunda, o templo das delícias traz as portas fechadas. Os doces estão escondidos, sumidos da paisagem. Da gata cinza e branca, nem sinal. O mesmo podia dizer do simpático casal de portugueses até que hoje, infelizmente, recebi a notícia de que o velhinho morreu. Foi mais uma vítima da vergonhosa epidemia de dengue que assola a Cidade Maravilhosa.
Um fim amargo para quem dedicou tanto tempo da vida a levar a doçura para os outros...
Que descanse em paz!
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