21.5.07

Etéreo...

Era tarde. O escuro começou a tomar conta de seus olhos e, ali, caído na beira do mar, pensou ter visto um rosto de anjo. Tinha os mesmos olhos melancólicos de sempre e, também como sempre, a voz soava musical demais.
Quando pensou que seria bom morrer naquela companhia angelical, sentiu suavemente a mão do anjo cobrir-lhe os lábios. E viu quando os olhos claros ficaram marejados. Ouço o que pensas, contou-lhe a figura diáfana, deixando escapar uma lágrima que lhe caiu sobre a testa.
A revelação trouxe desconforto. Não queria ferir o anjo pensando em coisas que o fizessem chorar. Mas em que poderia pensar ali, em seus braços? Sem dizer palavra que fosse, contou tudo...
Contou que se sentia triste por ver que todo o amor que trazia no peito nunca teve resposta. Contou que sempre tivera medo de falar desse sentimento que, a tantas e tantas pessoas, sempre traz orgulho e felicidade. Não fora seu caso. Sempre que se esforçara para demonstrar seu querer bem, tinha como resposta o silêncio.
Contou que, há tempos, vivia apenas de lembranças felizes, que já desbotavam, como nas antigas fotos que todos guardamos nas velhas caixas de papelão. Contou que as músicas rondavam sua mente há tempos, trazendo memórias de um tempo que nunca gostaria que tivesse passado. Mas que passou...
O anjo pôs-se, então, a chorar. Um choro contido, de quem sabe ter falhado na missão. Dolorido, diante daquele corpo fragilizado e já quase inerte. Passou-lhe a mão pelos cabelos como que num pedido de desculpas. Filho, creia que ninguém vem ao mundo para sofrer; disse-lhe a figura celeste, novamente, pelos olhos. E seus olhos, mais para fechados que para abertos, responderam: Pois leva-me, então. Se só o que faço é sofrer, creio que não devo ser desse mundo...
Foi quando uma luz muito forte os envolveu. Do clarão, que tinha vontade própria e rodeava seu corpo, saía um brilho intenso, acompanhado de um perfume de rosas. Não conseguia mais enxergar o anjo, mas ouviu quando ele disse: Você é como eu. Por isso não entende as coisas daqui. Pois, encha de ar o teu peito e vem comigo.
Obedeceu e, quando abriu os olhos, estava longe dali...
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