18.7.07

Seria cômico se não fosse...

Era uma vez um rapaz sensível e distraído. E de boa memória...
Era uma vez uma moça, prima do rapaz, que andava tristonha porque havia perdido uma filha...
Era uma vez outra moça, também prima dele, irmã da outra. Era afobada, afetuosa e econômica nas palavras...
Era uma vez uma festa a qual os três primos compareceram.
A prima tristonha, claro, preferiu o isolamento. Chegou, sentou-se à uma das mesas e ficou por lá, ora conversando com um, ora com outro. Tentando se distrair e, assim, espantar um pouco da tristeza. Não viu o primo.
Já a prima afobada, mais comunicativa, comportou-se de modo bem diferente da irmã: circulou por toda a festa, distribuindo sorrisos, abraços e beijos. Também buscava, com isso, espantar um pouco da sua tristeza. Até que encontrou o primo:
- Nossa, primo! Quanto tempo! Como você está? - disse ela, abraçando o rapaz sensível, distraído e de boa memória.
- Estou bem, prima! E você?
- Ah, estou levando... - respondeu a moça, já com as feições um pouco acabrunhadas.
O rapaz teve um insight: lembrou que moça tinha passado por uma barra pesada, com a perda da sobrinha. Adotou um tom afetuoso:
- É, mais a vida é assim, prima! Vai passar...
Com um ar enfático, então, a prima respondeu:
- Mas ela tá aí!
O rapaz não entendeu. Ela? Quem? A sobrinha? Mas ela tinha morrido há meses...! Apostando numa desconhecida faceta "sobrenatural" da prima, o rapaz respondeu de forma evasiva:
- Com certeza!
A resposta pareceu dar mais força à prima:
- Está lá, sentada perto da parede!
Um calafrio tomou conta da espinha do rapaz. "Jesus", pensou, "Ela está vendo coisas". "O que vou fazer?", indagava-se, naquela fração de segundos em que ficamos sem saber o que fazer com a cara numa dessas situções. Deixou-se levar pelo senso comum e achou melhor não contrariar a prima-com-um-quê-de-médium...
- É verdade! - devolveu.
Já buscava uma forma de sair dali quando a prima, decidida e, num tom de quase intimação, disparou, já pegando em seu braço:
- Vamos até lá falar com ela!
O sangue sumiu da face do rapaz. "Ela está louca, meu Deus". "O que vou fazer? Ela quer que eu fale com um fantasma que eu nem vejo!". Acuado, resolveu representar: fingiu sentir a vibração do telefone celular, fingiu que o atendia e, à francesa, afastou-se da prima para não mais voltar a se aproximar durante toda a festa.
Ele só não sabia que ela se referia, claro, à irmã - a outra prima dele - que estava quietinha em sua mesa, pertinho da parede e vendo a festa passar...
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