29.9.10

Lições de um pequeno repórter...

O grupo de alunos grafitava uma parede quando eu me aproximei. Disse que fazia uma reportagem sobre a escola e que gostaria de entrevistar um estudante. Os maiores, no auge da adolescência, não se entusiasmaram. Já previa dificuldades para conseguir atingir meus objetivos quando senti uma mão pequena na minha cintura. Era José:
- Tio, tio! Eu quero falar!
José tinha aquela cara marota de criaça levada, feliz. No rosto, pintinhas azuis, provas de sua participação na oficina de grafite. Percebi logo que o garoto era desinibido e brinquei, perguntando se ele estava se transformando num avatar - azul, como os personagens do filme. Ele riu, esperto.
Não sei explicar a razão, mas o brilho no olhar daquele menino me cativou. Vi nele um filho que já foi mais constante em meus sonhos e projetos de futuro. E resolvi entregar-lhe o microfone e pedir que ele fizesse as vezes de repórter, olhando para a câmera e contando pra todos os que estivessem assistindo como era a sua escola. Ele pareceu um pouco tímido - já que a gurizada toda tinha se juntado para acompanhar a gravação. Mas em momento nenhum deu alguma pista de que pretendia desistir do nosso trato.
Quando eu dei o sinal, José se apresentou. José Rafael, 11 anos. E falou de como a escola era importante na sua vida, de como gostava de frequentar as aulas. Citou as atividades esportivas e artísticas as quais tinha acesso no contraturno escolar e falou de tudo isso com um brilho nos olhos de quem realmente sente do jeito que diz.
Eu fiquei impressionado com tanta simpatia. E, assim que ele terminou, apertei aquela mão pequenininha e agradeci pela parceria. Foi quando me virei para a equipe e notei duas companheiras emocionadas. Preocupado, perguntei de que se tratava. E elas me contaram: o pai do meu repórter-mirim tinha morrido, vítima de câncer, na última noite. E, no meio daquele momento de dor, o menino tinha pedido à irmã para que o levasse à escola. José agora era órfão de pai e mãe - ela tinha morrido dois anos antes.
Fiquei com os olhos cheios de lágrimas. Penalizado com o destino daquele garotinho tão esperto, tão inteligente, tão jovem e tão marcado pelas perdas da vida. Tentei pensar em seu futuro e pedi a Deus que o proteja sempre, que o livre de todo o mal e que faça com que todo esse amor pela escola cresça e faça de José Rafael um cara de bem, com uma vida tranquila e bem encaminhada. E que muita felicidade aguarde por ele nessa caminhada.
Durante toda a tarde, o menino não saiu da minha cabeça. Ele nem faz ideia, mas me fez pensar muito desde então. Em como reclamamos da vida à toa, no quanto desperdiçamos momentos felizes por conta de coisas pequenas e desimportantes. E, mais do que isso, pensei na importância da escola e da educação na vida de crianças como o José.
É...quem disse que a vida de repórter é fácil?
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