25.6.06

Grão

Fechou os olhos e lembrou da criança na praia. Sol fraquinho batendo nos cachos que o vento soprava. E as mãos, pequenas e cheias de dobrinhas, tentando impedir que os grãos de areia escapassem por entre os dedos. Em vão. Aos poucos, um a um, todos escapuliam, rumo ao monte que já se formava na beira d'água. Afobadas, as mãos se apressavam, buscavam de novo os grãos. Até que o mar vinha e mostrava, mais uma vez, que era o dono de tudo por ali.
Quando abriu de novo os olhos, sabia que aquela lembrança - tão vaga - era um recado. Por mais que quisesse, não poderia segurar aqueles grãos de areia por muito tempo. Não poderia impedí-los de seguir o caminho natural; como também não se pode conter o encontro dos rios com o mar. Não poderia ir contra os rumos das coisas.
A conclusão era difícil e dolorida. Tanto tempo, tanta coisa que já tinha acontecido; tanto que achou que poderia vir a acontecer. Agora, sabia, não viria. Não mais. E talvez fosse melhor assim.
Fechou os olhos novamente. Notou algo familiar entre seus dedos. Sem acender a luz, percebeu o que era. Abriu lentamente a mão e deixou que o grão de areia caísse no chão...
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