9.2.15

Meu encontro com a intolerância em forma de mulher...

Não sei em que momento a classe média brasileira optou por ser a classe medíocre; cheia de discursos preconceituosos, repleta de ódio e pautada pela intolerância...


Meus amigos mais próximos sabem que costumo ser um cara ponderado. Muito ponderado, inclusive. Penso bastante antes de tomar decisões, penso no quê e em como falar, penso, penso, penso. Peso os prós e contras do que digo e do que faço. Não é algo calculado; nunca foi: é da minha essência. Poderia atribuir isso à tal balança, ícone do meu signo - libra - mas gosto mais de pensar que essa busca por equilíbrio é o caminho que venho trilhando, a cada dia, para ser um alguém melhor. Melhor para o mundo, para as outras pessoas e pra mim mesmo.
Raramente discuto. Raramente bato boca com alguém. Ontem, no entanto, a ponderação e essa busca pelo equilíbrio não foram suficientes para evitar que isso acontecesse. Foi no condomínio em que moro; na piscina aquecida - cujas águas, aliás, diante do calor desse verão, nem têm precisado ser artificialmente aquecidas.
Entrei na piscina e uma senhora - que também não estava aquecida e, sim, esquentadinha demais - gritava com o guardião. Ela se queixava aos berros do fato de uma jovem visitante estar dentro d'água usando um short; o que é vedado pelo regimento do condomínio. Eram pérolas como: "Eu pago isso aqui e cumpro as regras, por que uma visitante não tem que cumprir?" e "É o seu papel mandar ela (sic) tirar, você que é o 'piscineiro', eu sou moradora, não tenho que ficar me indispondo", esbravejava, como se fosse uma senhora feudal e o funcionário do condomínio, um seu escravo.
Respirei fundo quando a menina, de uns 16, 17 anos, tirou o short e continuou na água. Estava claro que não havia nenhuma intenção de desrespeitar o regimento: ela apenas não tinha sido comunicada sobre as regras para frequentadores da piscina. A moradora - que, durante a palestra, fazia questão de frisar sua condição de moradora, numa tentativa vã de menosprezar a jovem visitante - seguiu fazendo seus exercícios de hidroginástica e achei que a tarde de domingo voltaria ao curso normal...
Estava errado. O guardião da piscina precisou ir ao banheiro e um outro veio substituí-lo.  Esse outro guardião a moradora fez questão de tratar com uma certa simpatia; como se agora fosse a senhora de engenho a lidar com um capataz de confiança. E iniciou a ladainha, aos gritos, para voltar a constranger as jovens e a infernizar minhas pretensões de um fim de tarde relaxante. Foi quando se deu o seguinte diálogo:
- Mas por que você não está na piscina externa?
- Porque ela foi interditada agorinha.
- E por quê? - quis saber a mulher.
- Porque um morador fez as necessidades dentro.
- Foi aquele doente de novo?
Aí meu estômago embrulhou. O "doente" é um morador com deficiência. Eu tinha ficado sabendo do incidente pouco antes, quando decidi, então, usar a piscina aquecida. O jovem, com uns vinte e poucos anos, não tem controle sobre os músculos. Vai à piscina acompanhado da mãe. E, por conta dessa limitação, acabou sujando a água.
Ignorando completamente toda essa situação e todo e qualquer sentimento semelhante ao de compreensão, a mulher prosseguiu:
- Às vezes eu tô aqui, fazendo a minha aula de hidro, e ela traz ele pra cá! Bota dentro da piscina! E acha que tá certa! Diz que tem uma lei que garante o direito dele! Um absurdo! Ele tem quase trinta anos, sabe? Ele tem direito? Então ela tem é que levar uma multa quando isso acontecer! Prejudica todo mundo que paga pra ter acesso à piscina!
À essa altura eu já estava fora da piscina. Não suportei testemunhar esse ataque extremo do que há de mais abjeto no ser humano. Não suportei ver ali, diante do meu nariz, uma espécie de materialização daquelas colunas idiotas e cheias de preconceitos que andaram povoando as páginas dos sites e dos jornais dias atrás. Não suportei tanto desrespeito, tanto desamor, tanta grosseria. Não suportei ver que, em 2015, há gente parecendo mais desumana que qualquer homem das cavernas. Já vestido, fora da piscina, olhei pra ela e disse, no tom mais baixo que consegui utilizar (e era alto!):
- Quando a senhora quiser reclamar, por favor, procure a administração do condomínio.
Cega e idiota, como costumam ser todos os que compactuam com pensamentos tão tacanhos, ela achou que eu estava concordando com seu discurso:
- Pois é, meu amigo. É que não tem adiantado.
- Mas é lá que a senhora deve ir. Porque o seu direito de reclamar termina onde começa o meu direito de vir pra cá aproveitar uma tarde relaxante na piscina. E aqui, gritando desse jeito, a senhora estragou a tarde de todo mundo. Tá sendo desagradável...
- Você é morador? - ela devolveu, também tentando me desqualificar.
- Sou e tenho o direito de frequentar isso aqui sem ouvir ninguém fazendo escândalo. Falando do rapaz deficiente como você falou, com um discurso cheio de preconceito babaca!
Dei as costas, já de saída.
- Você é um mal educado! Falou palavrão!
Voltei:
- Mal educada e preconceituosa é você! Babaca não é palavrão, mas todo preconceito é babaca sim!
Saí a tempo de ver o guardião da piscina piscar o olho e sorrir pra mim; aliviado por se sentir defendido. Também houve tempo de escutar as palmas das meninas que estavam sendo metralhadas verbalmente por aquele patético exemplar de uma elite que recrimina e discrimina as diferenças; de uma elite velha e imoral, que acha que seu dinheiro paga tudo e que, por isso, deve ter todos os privilégios de que sempre pode usufruir. Aquela mulher, achando-se uma espécie de socialite da Lapa, enfurnada no seu "Condomínio Club" diz muito do Brasil. Diz muito do que vemos na TV, lemos nos jornais e na internet. Diz, também, muito sobre quem se acha melhor pelo que tem e não pelo que é. Humilhando as meninas, o guardião da piscina, o jovem deficiente e sua mãe - que sequer estavam lá para que pudessem se defender - aquela mulher jogou na minha cara o que há de pior e mais triste na nossa sociedade; jogou na minha cara que parte considerável da classe média brasileira optou por ser, na verdade, uma classe medíocre.
Saí da piscina nervoso, boca seca. Mas estava bem cinco minutos depois, cercado de amigos e rindo. 
Leve, como sou e como acho que a vida deve ser. E aprendi que não dá pra tolerar intolerância. E que todos que pensam num mundo mais plural, comprometido com um ideal de sociedade mais justa e menos desigual não podem se calar diante dessas manifestações torpes do que pode haver de mais desumano. Não fiz isso apenas pelas meninas, pelo guardião da piscina ou pelo menino com deficiência; fiz por mim. Vê-los humilhados me fez mal. E acho que só assim, sentindo uns as dores dos outros, poderemos, unidos, materializar uma outra forma de existir em sociedade.
Meu domingo seguiu. Ela, quando a deixei, continuava só na piscina. Sozinha e amarga, destilando ódio e rancor. A continuar assim, vai acabar se afogando na própria desumanidade...

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