23.2.15

Cenas tristes e marcantes de um carnaval...

Em Salvador, miséria dos cordeiros e descaso com a limpeza da cidade destoam do clima contagiante da capital da Axé Music...

Assumo: em matéria de carnaval, sou bígamo: amante dos festejos cariocas e apaixonado pela farra baiana. E me divido doloridamente entre essas duas cidades - não por acaso, as duas de que mais gosto no país. Passo o pré-carnaval no Rio e o carnaval oficial na capital baiana. Na Cidade Maravilhosa, vou de bloco em bloco pra aproveitar a alegria de um carnaval de rua que a cada ano se torna mais pujante; mais frenético, mais festivo. E em Salvador, vou atrás dos trios de Ivete, Claudinha e Daniela, pulando como se não houvesse amanhã; como se as pernas não me fossem enviar a conta no dia seguinte. Afinal, no dia seguinte, lá vou eu pro circuito novamente, percorrer os seis quilômetros de felicidade e êxtase que separam a Barra de Ondina. Sem contar as noites em que a farra ainda se estende aos camarotes...
Foi assim em 2015: dividi meu amor, minha energia e minha alegria entre essas duas cidades. Mas o prazer de poder me divertir em mais um carnaval não ofuscou o choque ao perceber a miséria impressa nos rostos, nos olhos e nos pés descalços de muitos dos cordeiros dos blocos das cantoras baianas. Pra quem não sabe, cordeiros são os homens e mulheres - das mais variadas idades - que carregam a corda responsável por separar quem pagou pelos abadás do público que não pagou, a chamada pipoca. É deles a responsabilidade de impedir que o bloco seja invadido por quem não pagou para estar ali, perto do trio elétrico. De alguns deles ouvi que sua função é "nos proteger". "Estou aqui pra cuidar de você, brother", me disse um, provavelmente sem se dar conta de que há quem cuide dele. Dentro dos blocos de Salvador, os cordeiros expressam o maior contingente de negros, o que me faz lembrar que, sim, infelizmente a pobreza brasileira ainda tem cor. Negros de abadá? Poucos, muito poucos...
Não falo da miséria dos cordeiros por ter ficado assustado ao vê-la; como muitos representantes da tal classe média tantas vezes ficam. Não acho que a miséria deva ser escondida. Falo porque me assombro que ela exista numa festa que movimenta tantos milhões de reais. É um deboche com a sensibilidade de qualquer pessoa que se preocupe minimamente com o próximo perceber que há gente faturando alto que sequer se importa se a cordeira está descalça caminhando sob o asfalto quente por seis quilômetros. E mais aviltante ainda é saber que ela vai receber apenas alguns trocados por um sacrifício tão grande...
Numa festa feita por baianos para turistas, um outro momento ficou gravado na minha memória. Foi na segunda-feira de carnaval, quando o circuito ficou engarrafado e o atraso no percurso impediu que os foliões chegassem à área com banheiros químicos - em número tão insuficiente em Salvador como no Rio. Fomos para o Morro do Gato e a cena era terrível: num barranco lamacento, homens e mulheres urinavam, produzindo um barro fedido, eu escorria morro abaixo, encharcando tênis, sandálias, sapatos, meias. Sem pudor. Sem repressão. Sem drama de consciência. Éramos selvagens emporcalhando a cidade sem a menor culpa, simplesmente porque aquela era a única alternativa possível. Certamente esse detalhe sanitário foi esquecido por ACM Neto, prefeito que vem sendo muito elogiado pelos baianos por moralizar alguns serviços públicos e cuidar de obras importantes para a cidade. Não dá para uma cidade linda como Salvador se submeter a um ritual tão sujo, insustentável e indigno de uma das maiores festas do mundo! Não dá pra naturalizarmos um comportamento tão primário em 2015. Não dá pra acharmos natural que o espaço da avenida continue a ser loteado por camarotes impedindo, assim, que mais banheiros químicos sejam disponibilizados para a população e para os turistas. A festa é bonita demais pra permitir erros tão grotescos.
E também não dá - por mais que muitos se divirtam - para que os blocos continuem a cobrar tão caro pelos abadás e sigam tratando os cordeiros de forma tão aviltante e desumana. A seguir assim, a festa popular mais tradicional da Bahia - e uma das mais tradicionais do Brasil - vai caminhar a passos largos para se tornar cada vez menos...popular. E justamente por desprezar tanto a parcela mais genuinamente popular da folia...

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