13.11.12

E Maria Rita redescobriu Elis Regina...

Baixei a versão digital de "Redescobrir" na ITunes Store, nos primeiros minutos do aguardado dia seis de novembro. Sim, esse foi, realmente, um disco muito esperado por mim. Primeiro, claro, por conhecer o repertório de belas canções, tesouro maior deixado por Elis Regina. Depois, e não menos importante que isso, pela curiosidade de ouvir como elas soariam na voz da herdeira da Pimentinha. Como não tive a oportunidade de ver nenhuma das apresentações do show aqui no Rio, só me restava conferir a gravação.
Baixei as músicas e ouvi três vezes seguidas. Embaladas em arranjos mais enxutos - em muitos casos, atualizados - as canções de Elis seguem arrebatadoras. Mas, no disco, esse arrebatamento se limita à força do repertório. Maria Rita, grande cantora, dona de momentos consagradores em sua carreira de uma década, enfrenta com altivez o desafio de reler a obra da mãe, mas é impossível evitar a comparação entre elas. E não é apenas a filha de Elis quem sai em desvantagem: toda e qualquer cantora brasileira sairia na mesma situação diante desse desafio.
Elis era magistral. E segue assim: mestra de todas as intérpretes da MPB. Ia do grave ao agudo mais agudo sem titubear, intensa, num fôlego só. Brincava com a melodia, desafiava os músicos, parecia sempre na corda bamba, prestes a cair em cada verso. Nunca caiu! E segue no topo ainda hoje, passados 30 anos de sua morte.
Mas eu quis mais do que ouvir e, no último domingo, comprei o dvd do espetáculo. Achei a edição preguiçosa, e é flagrante que houve pressa no lançamento: há correções de câmera, perdas de foco e outros pequenos detalhes que jamais iriam para a versão final caso houvesse maior cuidado. Maria Rita está leve - apesar do barrigão - e soa um bocado careteira em algumas músicas, mas, apesar de suas interpretações sempre corretas e bem executadas, dosando bem emoção e técnica, fica longe do que a mãe fez em cena.
Há até um momento muito delicado no dvd: quando, em Arrastão, Maria Rita faz uma menção ao movimento frenético dos braços que Elis Regina executou no Festival da Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, em 1965. É delicado porque ali, naquele movimentar de braços, a filha assume o risco de ser comparada à mãe e, mais que isso, se expõe diante dos que pensam que esse projeto é uma tentativa de reeditar, com Maria Rita, o fenômeno Elis. Não creio nisso. Creio, mesmo, na sutileza de uma bonita homenagem à maior cantora que o Brasil já viu. E ouviu...
A grande filha de Elis tem alguns belos momentos. Fascinação, Essa Mulher, Vou deitar e rolar, Águas de Março (número em que parece fazer um cover descarado do improviso final gravado por Elis no disco com Tom Jobim), Onze Tiros, Romaria e Redescobrir estão - até o momento - entre as minhas prediletas. Me Deixas Louca é outro grande momento. Pontos altos de um show que é, sim, memorável. 
Ainda no dvd, vale salientar como são belas as palavras que a cantora dedica à mãe na contracapa do disco e no encerramento do show. Aliás, cabe uma ressalva: o espetáculo soa mais frio do que deve ter sido, uma vez que os momentos em que a artista se direciona ao público foram suprimidos na edição.
Enfim, esse é um projeto arriscado. Para Maria Rita, para a gravadora e para o público: para as duas primeiras, pela comparação inevitável e pelo risco de uma rejeição dos mais puristas. Acho que esses riscos foram superados. Para o público, o risco é não se permitir embarcar na bela voz de Maria Rita e, assim, deixar de aproveitar a grandeza de repertório que o álbum oferece. Sigo firme, vendo e ouvindo de novo, em busca de superar o desafio que me cabe...
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