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12.1.15

Sobre "Abraçar e agradecer", o show de 50 anos de carreira de MariaBethânia...


Quando chegaram ao fim os versos de "O que é, O que é", de Gozaguinha, eu me senti agradecido. Não pelo fim do show ou da música, mas por haver testemunhado um show tão comovente, tão delicado e poético. Mérito do talento e da trajetória de 50 anos - ora justamente celebrada - de Maria Bethânia, a maior intérprete desse nosso país de cantoras. Não quero dar detalhes, não quero estragar surpresas. Mas quero registrar aqui a lindeza desse espetáculo e a alegria de ver Bethânia em cena, senhora de si e dos palcos; menina que brinca e baila sobre o LED moderna com a desconfiança de quem ainda traz no peito, na alma e na voz o cheiro de mato e a poeira das estradas e das entranhas do Brasil sertanejo, baiano, tupiniquim. Brasil que dialoga com os orixás da África, com a canção de Piaf e com Clarice e Fernando Pessoa. Bethânia já era global antes de inventarem a globalização, porque nunca perdeu o laço que sempre a manteve unida a Santo Amaro da Purificação. Fala de todo o mundo, suas dores e amores, falando das coisas de sua aldeia. Voou alto esse carcará! E que siga voando e nos fazendo olhar sempre pro alto. Voando e nos levando. Voando e nos elevando. Salve Maria Bethânia, a mais brilhante das estrelas dos céus do Brasil!!! 

1.2.14

Sobre aquele beijo de Niko e Félix...

Sinal dos tempos: dois homens se beijaram em horário nobre pela primeira vez no Brasil ontem
Walcyr Carrasco é um grande autor. Em seu currículo estão sucessos como "Xica da Silva", "O Cravo e a Rosa", "Chocolate com Pimenta", "Alma Gêmea" e "Caras e Bocas". Êxitos que o credenciaram a entrar no rol seleto dos autores que escrevem para o principal horário de novelas da Globo. A estreia foi morna. Não fosse pelo absoluto acerto na construção de Félix e pelo estupendo desempenho de Mateus Solano na defesa do personagem, talvez a novela tivesse se perdido num mar de tramas um tanto quanto frágeis. Mateus Solano levou a novela e deixou na história da TV brasileira um grande tipo, uma criação que será lembrada por muito tempo.
Com 221 episódios, depois de esticada em quase dois meses - o usual é que as novelas das nove tenham 180 capítulos - "Amor à Vida" conseguiu o improvável: promover a conversão de um vilão em protagonista! Detestável ao longo de 80, 85% da trama, Félix se arrependeu dos seus pecados e se tornou ainda mais querido pelo público. Ganhou um amor e, outrora conservadora, a audiência comprou a ideia e passou a torcer pelo happy end do ex-vilão. A pergunta que pairava no ar, no entanto, era: haverá beijo gay?
Horas antes da exibição do último capítulo de "Amor à Vida", ontem, críticos de televisão já especulavam sobre a exibição da cena envolvendo os personagens de Mateus Solano e Thiago Fragoso. Mais que isso: alguns apontavam que a direção da TV Globo estava decidida a romper esse paradigma, derrubando o tabu que ganhou força desde 2005, quando uma cena de beijo da novela "América", entre os personagens de Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro foi surprimida por ordens dos executivos do canal horas antes da transmissão do episódio, frustrando a autora, Gloria Perez, e os demais envolvidos na produção.
Ontem, o Brasil viu um beijo gay em horário nobre. De casa, ouvi gritos de uma torcida anônima, da qual sequer poderia imaginar a existência. Postei isso no twitter e recebi mensagens relatando episódios idênticos em várias partes do Rio, do Brasil. Por telefone, minha mãe contou que foi assim também perto da casa dela. Vejam vocês! Em tempos de tanto preconceito, em tempos cheios de crimes de ódio, há um Brasil que torce pelo amor! E que não se importa se ele une pessoas do mesmo sexo ou não.
Mais do que um desfecho coerente para uma história bem construída entre dois personagens carismáticos, o beijo tem um relevante papel social: ele naturaliza a expressão de uma outra forma de amor, de uma outra possibilidade de ser, de existir e de amar. Há um Brasil que já sabia de tudo isso. Há um Brasil que fingia não ver isso. E há um Brasil que quer negar isso. Ontem, simultaneamente, esses três Brasis viram isso. Hoje, crianças não amanheceram gays. Maridos não largaram suas esposas para ficar com outros homens. Não houve registros de episódios de depravação em locais públicos. Houve, sim, muita gente enaltecendo a beleza do amor, do respeito e da aceitação. Gente impactada pelo beijo sim, mas também - e talvez ainda mais fortemente, pela linda cena final de "Amor à Vida", quando César, o pai homofóbico, aceita e declara seu amor pelo filho gay, fazendo Félix chorar copiosamente. Uma cena antológica, das mais delicadas que a teledramaturgia brasileira já conseguiu produzir. Aliás, vale dizer que quando Walcyr Carrasco apresentou à direção da TV Globo a sinopse de "Amor à Vida" a trama se chamava "Em nome do Pai". Ontem, terminada a exibição do desfecho da novela, percebi que o título original fazia muito mais sentido que o definido para substituí-lo. 
Depois da exibição da cena entre Félix e Niko a Central Globo de Comunicação divulgou uma nota afirmando que a cena acompanha o momento histórico que vivemos. Taí uma verdade: com atraso, sobretudo em relação ao que já vemos nos canais fechados, o beijo de ontem retrata outros tempos, de maior entendimento sobre a diversidade. Um entendimento que está relacionado aos avanços das políticas de Estado, às recentes decisões judiciais e à luta árdua dos militantes sociais, abnegados defensores dos direitos humanos e do respeito à pluralidade. 
O Brasil de 2014 é muito, muito melhor que o de 2005! E quero crer que o Brasil do futuro, daqui a 10, 20, 30 anos, será infinitamente superior ao país que temos hoje. 

27.10.13

Ivete Sangalo e Silvio Santos: encontro de gigantes no Teleton 2013




Noite de sábado, em casa, sozinho. Troco de canal e me deparo com o Teleton. Parei pra ver na hora, claro. Como disse no Twitter, acho que essa campanha é um dos maiores acertos do SBT. O programa é um formato importado, criado por emissoras latinas - o que torna ainda maior sua identificação com a emissora de Silvio Santos. Aqui a causa é pra lá de nobre: o dinheiro das doações vai para a AACD,  mantenedora de centros de reabilitação para o tratamento de pessoas com deficiência.
A madrinha do projeto foi Hebe Camargo, como Silvio sempre faz questão de lembrar. Contratada do SBT, ela convenceu o patrão a embarcar na iniciativa. Hebe e Silvio acreditaram na solidariedade do povo brasileiro e, hoje, o tempo mostra que estavam certos...
Nesta noite, no entanto, o show foi de uma outra dupla. Se tradicionalmente Silvio Santos e Hebe encerravam a maratona televisiva juntos, desta vez o previsto era um desfecho em família: ao lado do dono do SBT estavam a filha, Patrícia, e o neto, Tiago Abravanel. E a atração musical era Ivete Sangalo. Mas bastaram poucos minutos em cena para Ivete e Silvio tomarem conta palco. Num bate-bola afiadíssimo, fizeram o auditório e o público de casa gargalhar. O carisma dos dois é incontestável, e resultou num espetáculo que deixou Tiago e Patrícia relegados à figuração. Teve de tudo: Silvio pisando no pé de Ivete durante uma dança, a cantora segurando dálias para o eterno Homem do Baú ler seus textos, poses para fotos do Instagram e muitos momentos hilários. Ao autografar as sandálias doadas para o leilão da campanha, Ivete ouviu Silvio criticar sua assinatura. "Não me venha cobrar caligrafia bonita que eu sou cantora, não preciso!". Ele também fez graça: "Ivete, até que você ainda tá bem...", brincou, pra logo elogiar a forma da baiana.
Mas o momento mais engraçado da noite - além da hora em que Silvio confundiu a marca de cosméticos Nívea com uma suposta convidada, perguntando: "Quem é Nívea? Cadê a Nívea?" - foi quando Ivete, num número digno dos melhores espetáculos de stand up comedy, imitou vários quadros de programas eternizados por Silvio Santos. Às gargalhadas, o dono do SBT não fez questão de esconder o quanto estava gostando da farra. Em um determinado momento, chegou a dizer: "Ivete, além de cantar você pode ser apresentadora".  Ela logo devolveu: "É só você me dar um programa aqui..."
Foi um programa memorável. Ivete Sangalo, goste-se ou não de suas músicas, é uma das personalidades mais carismáticas e versáteis do showbizz brasileiro. Hoje, na minha opinião, ela fez uma de suas melhores apresentações na televisão - e lá se vão 20 anos de carreira. Deixou o maior apresentador do país sem palavras, convertido ao papel de espectador. E comandou a festa da solidariedade com irreverência e alegria, suas marcas registradas. Antológico!
Em tempo: com Ivete no palco, o Teleton permaneceu na liderança da audiência. Por volta de uma da manhã, o SBT marcava 11 pontos. Sinal de que o público entendeu que o momento era mesmo único...  

16.3.13

RESENHA: "O quarteto"

Um filme sobre um grupo de músicos e cantores, idosos, moradores de uma casa de repouso, que têm a convivência alterada a partir da chegada de uma nova habitante, outrora grande estrela do canto lírico. Em linhas gerais, é assim que "O quarteto" vem sendo vendido pelas sinopses de cadernos de cultura e sites especializados em cinema. Um resumo exageradamente reducionista...
O filme marca a estreia de Dustin Hoffman na direção e oferece ao público um delicado olhar sobre o envelhecimento. É possível lidar bem com o fato de sermos podados pelo tempo? Como suportar o fato de não conseguir mais fazer o que antes parecia tão natural? Dá pra conviver com a ideia de que a cada dia passaremos a brilhar um pouco menos?
Todas essas perguntas fazem parte de reflexões universais. No longa, são potencializadas pelas trajetórias dos velhinhos artistas, donos de passados gloriosos, futuros abreviados e de um presente marcado por subtrações...
Parece amargo, deprimente? Não é! Longe disso: o filme tem momentos de boa comédia inglesa, alternados com sequências que são muito felizes ao retratar a velhice como uma fase em que, sim, é possível ser produtivo, criativo, divertido...vivo! E, sim, que enquanto estamos vivos, temos tempo de rever posturas, mágoas e sentimentos...
Deixei o cinema feliz da vida! Me vi na tela daqui a uns quarenta anos. Vi alguns amigos também. E torço pra que a gente seja, em 2053, uma turma tão animada quanto a que o filme mostra...
Recomendo!

14.3.13

RESENHA: "O impossível"

Em 26 de dezembro de 2004, às 7h59, a terra tremeu no fundo do mar, nas proximidades de Aceh, no norte da Indonésia. O terremoto de 9 graus na escala Richter causou o maior tsunami que o mundo havia visto em 40 anos - o primeiro de que muita gente, inclusive eu, ouviu falar. A onda avassaladora matou mais de 220 mil pessoas em 13 países. Aproximadamente 1,5 milhão de pessoas ficaram desabrigadas.
Lendo essas informações - e vendo vídeos da época - dá pra imaginar o gigantesco poder de devastação do tsunami. Mas, confesso, só vendo "O impossível", de Juan Antonio Bayona, consegui me aproximar da tragédia vivida por aqueles que estavam na área tomada pelas águas. Estrelado por Naomi Watts e Ewan McGregor - que jamais desperdiçam as boas cenas reunidas no roteiro - o filme conta a história real de uma família que, como tantas outras, estava passando férias na região e se depara com o imprevisto. Ou com o impossível...
Não darei detalhes do roteiro pra não estragar surpresas. Mas fiquei muito impressionado com a preciosa reconstituição do cenário arrasado pelas águas do tsunami. Todas as cenas relacionadas ao drama dos que foram atingidos pela onda gigante são muito bem feitas; desde a própria sequência da invasão das águas até as cenas que mostram hospitais abarrotados. Tudo muito bem cuidado, feito na medida certa para traduzir a angústia de quem viveu a dor de estar na Indonésia naquela manhã de dezembro.
"O impossível" me fez mergulhar na dor de toda aquela gente. Em vários momentos, eu me emocionei com tanta dor. Em outros, gestos de solidariedade igualmente me fizeram emocionar. Em suma: um filme tocante, que nos transporta para aquela manhã fatídica, nos faz imaginar a dor dos tantos que passaram por toda aquela tragédia e, mais que isso, nos faz pensar que, às vezes, o impossível acontece.
Eu recomendo!

27.2.13

O dia em que ouvi as histórias e canções de Bibi Ferreira...

No espetáculo, Bibi Ferreira canta em cinco idiomas, emociona e diverte a plateia
Quando surge no palco caminhando vagarosamente ao som de "Malandragem" - canção eternizada na voz de Cássia Eller, na qual ela questiona se ainda é uma garotinha - Bibi Ferreira bota a plateia no bolso. Ovacionada, dona da cena, a atriz, do alto de seus noventa anos, demonstra, desde o primeiro instante que olha para a vida - e para si mesma - com humor.
Humor acido, quando diz que no século dezessete tinha "treze ou catorze anos". Humor ácido utilizado novamente quando uma espectadora grita o ano em que uma de suas peças esteve em cartaz e, de primeira, Bibi devolve: "Você sabe a data? Mas essa coisa de data compromete a gente...", para risadaria geral.
Em "Bibi, Histórias & Canções", o público é conduzido por um passeio pela carreira dessa que é uma das maiores estrelas do teatro nacional. Se não for a maior, Bibi é a mais versátil: atua, canta, dirige; tudo com maestria exemplar! Nesse espetáculo em que passeia por épocas, países e gêneros diferentes, a atriz/cantora também navega por cinco idiomas: canta em inglês, espanhol, italiano e francês, além do português, língua materna. Forjada na escola dos palcos, a estrela tem pleno domínio de cena e demonstra que o tempo não lhe roubou o frescor. Nem no canto e nem no humor. Graciosa, canta temas de musicais americanos que despertaram seu encanto por Hollywood. Emociona ao unir canções de Elizeth Cardoso num medley que remete aos anos de ouro do rádio brasileiro. Seduz ao som dos tangos argentinos, apontados como herança musical da família. E arranca gargalhadas ao cantar árias consagradas com letras de clássicos da MPB. Tudo para voltar a emocionar logo em seguida, interpretando trecho de um de seus maiores sucessos, "Gota d'água". Outra ovação. Sem falar em Piaff, trunfo estrategicamente alocado no fim do roteiro.
Saí do teatro contente, leve. Que bom ver Bibi em cena! Que bom rir e me emocionar com as histórias e canções dessa estrela primeira da nossa arte! Bibi é o teatro brasileiro em sua melhor expressão, é o Brasil de que mais podemos nos orgulhar, é a vitória do talento, do dom, do saber ser e fazer. Ela não parece atriz: é. Das maiores! Não parece cantora: é, das mais hábeis ao interpretar. Não parece jovem, mas brinca em cena. Dá até pra pensar que, de algum jeito, Bibi Ferreira tem mesmo treze ou catorze anos...


26.2.13

Salve nós!

Novela das nove tem a menor audiência dos últimos 12 anos
Li no UOL que a autora da novela das nove anunciou que vai reparar, num dos próximos capítulos, mais um furo de sua narrativa, prontamente captado pelos telespectadores. 
Glória Perez já fez belos trabalhos na TV. São parte da história da teledramaturgia obras como "Desejo", "Hilda Furacão", "Carmen" (da extinta TV Manchete); e mesmo trabalhos mais recentes, que não têm minha predileção, mas tiveram grande repercussão e audiência, como "O Clone" e "Caminho das Índias". Em "Salve Jorge", a autora demonstra estar numa baita entressafra. A trama não é das mais inspiradas, os personagens, pouco carismáticos e tudo parece inverossímil demais. Gloria desaprendeu a escrever novelas? Claro que não! Mas acho que o público aprendeu a acompanhar esses folhetins de outros modos... 
Com a internet, um furo numa cena, que antes poderia jamais ser notado, fica eternizado com um print screen. Com tudo online, é fácil dar uma busca e ver se o milionário já conhecia a protagonista ou não. E, sobretudo, em tempos de vida real tão inacreditável, algo que fuja do razoável soa como uma agressão ao espectador, que gosta de se sentir "malandro", caçando furos. "Avenida Brasil", de tom tão realista, também não escapou dessa armadilha: todos ficamos indignados com a ausência de um pendrive para que Nina armazenasse as fotos comprometedoras de Carminha e Max. A diferença é que foi um fato isolado. Um deslize. "Salve Jorge", ao menos até aqui, tem parecido um amontoado deles...

12.1.12

Sobre Dercy de Verdade...

As Dercys de mentirinha: Fafy Siqueira e Heloísa Perissé...

Venho de uma família na qual os palavrões são vistos com naturalidade. São parte do discurso oral, permeiam causos, piadas, conversas leves, desabafos. Não são ofensivos, porque, quando usados - e são muito! - jamais surgem com a proposta de melindrar alguém.
Acho que essa é a razão de, desde muito criança, admirar tanto Dercy Gonçalves. Ver aquela senhora na TV, tão deliciosamente anárquica e desbocada, produzia em mim uma sensação de identificação. Era como se Dercy fosse da família, agisse e se comportasse como nós. Com o passar dos anos, pude perceber que, além daquele escracho todo, a longeva atriz também trazia uma marca única! Entre todos os atores de comédia do país, Dercy se destacava: não há quem confunda o estilo dela com o de qualquer outro comediante brasileiro. E isso não é pouco...
Quando ela morreu, falei dessa admiração aqui.
Por isso, vi com entuasiasmo a iniciativa da TV Globo de produzir uma microssérie sobre a vida de Dercy. E como não poderia deixar de ser, a produção logo se revelou um programão. Primeiro, pela acertada escolha do elenco. Helóisa Perissé e Fafy Siqueira já demonstraram ter entrado em perfeita sintonia com a aura da personagem real, embora, em alguns momentos, Perissé soe um pouco caricata demais. Mas não é nada que comprometa seu desempenho, convincente tantos nos momentos de comédia como nas cenas dramáticas.
Em cena, Fafy resulta curiosa: célebre pelas imitações de outro grande humorista, Ronald Golias, ela parece personificar a cruza desses dois gênios do humor nacional. E o resultado é perfeito: o tempo, a respiração, o jeito ansioso e as famosas repetições de palavras, marcas das falas de Dercy, estão todos na tela.
A anunciada utilização dos palavrões nos diálogos foi mesmo um acerto. Alguém seria capaz de imaginar uma Dercy pudica? Além disso, pesa a favor do roteiro o fato de, ao menos até o momento, esses palavrões não terem surgido gratuitamente na tela. São usados com perspicácia, pontuando falas naturalmente, como bem sabe quem tem o hábito de utilizá-los na vida real. 
O ponto negativo, a meu ver, é a opção por um formato tão micro. Mostrar 101 anos de vida em quatro capítulos está longe de ser tarefa das mais simples e, mesmo com todo o talento e a competência da dupla Maria Adelaide Amaral e Jorge Fernando - autora e diretor da série - os capítulos têm apresentado um ritmo acelerado demais, e episódios interessantes da vida da estrela passam na tela sem maiores explicações - o que ficou ainda mais evidente no segundo capítulo, exibido ontem. Deixa gosto de quero mais, o que talvez seja interessante, uma vez que o resultado das gravações será transformado em um filme previsto para estrear em 2013.
Apesar do ritmo frenético, considero Dercy de Verdade uma das boas surpresas desse início de ano televisivo. Uma homenagem justa e merecida, a começar pela excelente abertura da série, na qual Dercy aparece como o primeiro nome do elenco. Um reconhecimento para a estrela que, nos últimos anos de sua longa trajetória, acabou por ficar rotulada como a velhinha sem-vergonha e desbocada que aparecia na TV dizendo cobras e lagartos. Dercy foi muito mais que isso. E, felizmente, ainda que de maneira tão veloz, o público está podendo descobrir.

10.8.11

Resenha: Os Smurfs

Dos anos 80 para o cinema 3D: Os Smurfs conquistam o público do século XXI com um filme leve, delicado e divertido
Desde quando li as primeiras notícias que davam conta da realização de um filme sobre esses pequenos seres azuis, fiquei maluco! Os Smurfs são parte saborosa da minha infância, esse tempo que a cada dia fica mais longe, e do qual as memórias, curiosamente, cada vez parecem mais doces. Via as aventuras de Papai Smurf & cia no Xou da Xuxa, sentado no tapete da sala e rindo das trapalhadas do Desastrado - que sempre foi o meu smurf preferido.
Segunda, no cinema, entrei na máquina do tempo e fui reviver aqueles anos. Com muita felicidade, descobri que o azulzinho mais atrapalhado da turma é o protagonista do longa. Desastrado detona a ação e tem um final tipicamente hollywoodiano. E, mais que isso: fiquei surpreso com a magia do filme, que apresenta os Smurfs para as novas gerações sem soar didático ou piegas demais.
Mesmo muito cansado - e cochilando em uma parte ou outra, não por demérito do filme - gostei muito do que vi. Os Smurfs chegam ao século XXI aptos para vencer o desafio do 3D e oferecendo um tanto de doçura e afetividade que a gente não encontra nas animações surgidas nos últimos tempos. O humor é leve, sem apelações, o que não resulta num filme bobo. É produção da melhor qualidade, para crianças das mais variadas idades.
Gargamel, o vilão mais maluco de que se tem notícia, ganha vida num trabalho genial de Hank Azaria. Tão doido e caricato, o feiticeiro que quer acabar com a raça dos smurfs parece tão virtual quantos os seres azuis que tentam escapar de suas garras. E, falando em garras, Cruel, o gato de Gargamel, é outro ponto alto do filme.
Enfim, a viagem no tempo me fez muito bem. E foi dupla: além de lembrar dos meus tempos de moleque, ver Os Smurfs me fez lembrar de Nova Iorque, onde os pequenos azuis vivem as mais loucas aventuras. Ou seja: foi uma forma de matar as saudades em dose dupla. A diferença é que a Nova Iorque eu posso voltar. Já aos tempos de infãncia...só quando vier um filme novo dessa turma tão divertida.

6.4.11

Sobre a estreia de Divã...

Mercedes volta a fazer análise e dá origem a seriado lançado pela Globo na noite de ontem
Um programa como Lilia Cabral, na minha opinião, já é um programa imperdível. Com uma carreira consolidada no teatro e na TV, a atriz tem se firmado como um dos maiores nomes de sua geração e sempre consegue imprimir sensibilidade em seus trabalhos. Lilia não é uma atriz óbvia, tem um jeito muito peculiar de fazer pausas e é dona de um dos olhares mais marcantes da televisão brasileira. Pra mim, uma Meryl Streep made in São Paulo.
Em Divã - o filme, a atriz levou para as telonas Mercedes, personagem que já vivera no teatro - e com grande sucesso. Sensível, engraçado e com um texto primoroso, o longa levou multidões às salas de exibição e serviu de embrião para a série que a Globo lançou ontem. E a série promete!
Logo no início do episódio de estreia, as imagens de Nova Iorque exibiram uma Big Apple lindíssima, muito bem fotografada pela equipe responsável pela série. E era só o começo de um programa que ainda traria Lilia Cabral em sua melhor forma, um texto de alto nível, assinado por Marcelo Saback, e um elenco competente - com destaque para Paulo Gustavo. Dando novamente vida ao cabeleireiro René, um dos tipos mais populares do filme, o ator roubou a cena e fez rir com sua fala acelerada e no tempo exato da comédia. Aliás, vale dizer que a TV devia uma grande oportunidade a esse belo comediante que é Paulo Gustavo. 
Enfim, Divã tem tudo para emplacar! É, na minha opinião, um dos maiores achados da TV Globo nos últimos anos.
E você, também gostou?
Comentaê!!!

2.2.11

Sobre a volta de Amor & Sexo...

Programa voltou ao ar na TV Globo e lançou um quadro "colorido": o GayMe

Falar de sexo sem que o assunto pareça um tabu é, na minha opinião, o maior mérito do programa de Fernanda Lima. A apresentadora, aliás, protagoniza um dos raros casos em que o tema da atração parece pensado sob medida para quem vai comandar o show. Linda, simpática, segura e bem humorada, Fernanda Lima não nega fogo e deixa claro que talento não lhe falta. O que, aliás, já tinha ficado claro na primeira temporada do programa.
Mas aí surgem as novidades da nova temporada de Amor & Sexo - porque televisão é feita de hábitos e da salutar necessidade de reinvenção. E, no programa de ontem, a surpresa ficou por conta de um game protagonizado por homossexuais. O nome? GayMe. E se a ideia parecia boa, acabou resultando num festival de estereótipos. Numa prova, os participantes precisavam se "montar" no meio de uma corrida de salto alto (?!). Em outra, não podiam dar pinta: ganhava quem fosse reconhecido como "hetero" pelo garçom do restaurante. Foi tudo engraçado? Até foi. Mas, a meu ver, ficou bem aquém da proposta de valorização da diversidade para qual a apresentadora alertou algumas vezes. Um caso em que a ideia parece melhor que a realização. Porque, afinal, dizer que todos somos diferentes é positivo. Dizer que os homossexuais também são diferentes entre si é igualmente enriquecedor. Mas usar elementos tão estereotipados para propor esse mergulho na cultura gay - anunciada como "a mais infliuente do nosso tempo" - acabou soando como um tiro no pé.
E vocês, curtiram?

18.11.10

RESENHA: Muita calma nessa hora...

Uma comédia jovem, cheia de momentos inspirados, e com participações especiais que, por si só, já valeriam o ingresso. Ingredientes que, somados à farta divulgação na TV e ao forte apelo de alguns dos nomes do elenco, justificam o sucesso de "Muita calma nessa hora", consagrado como a terceira maior bilheteria do final de semana prolongado.
A comédia é bem popular, sem grandes sofisticações de linguagem ou de roteiro. E esse não é um ponto negativo. A partir da viagem de três amigas que, por razões distintas, resolvem reinventar suas vidas em Búzios, "Muita calma..." oferece ao espectador um emaranhado de situações divertidas, estreladas por alguns dos maiores nomes da comédia nacional - como sabiamente anuncia o cartaz promocional do filme.
Nomes como Marcelo Adnet - genial como o paulista aficcionado por equipameeeeeeeintos eletrônicos, Maria Clara Gueiros, Leandro Hassun, Lúcio Mauro Filho, Luís Miranda e Heloísa Perissé, que emprestam graça à trama que, numa análise um pouco mais detalhada, é, sim, muito superficial. O mérito da equipe responsável pela produção foi ter sabido fazer com que esse elenco talentosíssimo "segurasse a onda" do filme, e não o deixasse resumido a uma sucessão de esquetes de comédia televisiva.
Entre as protagonistas, fica óbvio que Gianne Albertoni está lá pelo biotipo. E, obviamente, não desaponta nesse quesito. As demais - Andréia Horta, Fernanda Souza e Débora Lamm - têm mais tarimba e, certamente por isso tiveram mais sucesso na construção de suas personagens. Mas que fique claro: Gianne também não tem porque se envergonhar. Só fica evidente que está no início da caminhada...
Débora Lamm é um talento enorme - não é por acaso que sempre aparece nos trabalhos com a griffe de Bruno Mazzeo. Carismática, criou uma hippie que poderia se limitar aos estereótipos, mas tira proveito de todos eles para fazer rir. Uma bela atriz! É, ao lado de Marcelo Adnet e Luís Miranda, destaque no elenco.
"Muita calma nessa hora" é filme leve, despretensioso, e que traz frescor ao cinema brasileiro. Um cinema que "se acostumou" a tratar das mazelas do país, mas que precisa lembrar que o humor é uma das principais características do DNA brasileiro....

13.10.10

RESENHA: Tropa de Elite 2

Filme mostra Nascimento grisalho, na Subsecretaria de Segurança Pública: policial interpretado por Wagner Moura já é um dos mais importantes - e populares - do cinema brasileiro
Quando o público aplaude um filme no meio da exibição, é sinal de que a idenfiticação e o envolvimento com a obra mostrada na telona são inquestionáveis. Foi exatamente isso que aconteceu na noite de ontem, quando vi uma das - lotadíssimas - sessões de Tropa de Elite 2. Num momento catártico da história, quando o agora Coronel Nascimento explode contra o sistema, o cinema explodiu em aplausos. Era a consagração de uma história e de um personagem que conseguiram falar a linguagem do público.
E bota público nisso! Lançado num final de semana prolongado, Tropa de Elite 2 entrou para a história com a maior arrecadação da história do cinema nacional. Nos quatro primeiros dias em cartaz, foram R$ 13,9 milhões de reais de bilheteria, conquistadas graças à procura de 1,29 milhão de pessoas - até domingo. Gente que não só lotou as 661 salas que exibiam cópias do filme, como ainda fez com que o número fosse ampliado para 703 cinemas.
Motivada pelo canhão que foi o primeiro filme da franquia, a procura do público parece inédita no que diz respeito às produções nacionais. Corredores lotados, salas lotadas, shoppings entulhados de gente. Todos querendo conferir a história que - ao menos até o lançamento - a equipe de produção conseguiu blindar da pirataria.
O filme é muito bem feito, bem montado, bem dirigido. O realismo das cenas de ação - e violência - volta a impressionar e está, novamente, a serviço de uma história muito bem contada. Desencadeada por um erro cometido numa rebelião no presídio de segurança máxima Bangu I, a história protagonizada pelo eterno caveira Nascimento aponta o dedo para alguns dos principais nós da questão da segurança pública: a corrupção de policiais e a conivência de representantes do poder público.
Nada é novo. Duvido que haja alguém que se surpreenda com a possibilidade (?!?!?) de homens públicos - do Legislativo e do Executivo - estarem ligados ao tráfico de drogas e às milícias. Mas o mérito de José Padilha e de sua equipe é colocar essa ferida exposta na nossa cara. Sobretudo depois de um processo eleitoral. Na tela, o público se depara com "a vida como ela é".
Não vou dar detalhes do filme, porque sou contra spoilers. Mas acho que todos os brasileiros deviam ver Tropa de Elite 2. Deveriam pensar sobre o rumo de seus votos. Repensar suas escolhas, suas condutas. E perceber como os discursos - da polícia, dos políticos e de setores da mídia - são atravessados de interesses. Interesses que, na maior parte das vezes, vão no sentido exatamente contrário ao que deveria ser o interesse público.
Veja Tropa de Elite 2. E depois me responda: quem disse que o cinema brasileiro não pode fazer pensar?

22.8.10

RESENHA: Quando o canto (de Roberta Sá) é reza...

Se fosse desafiado a usar apenas um adjetivo para descrever o novo CD de Roberta Sá, não vacilaria: brasileiro. Quando o canto é reza, lançado pela cantora nesse mês, é um disco que tem a proeza de traduzir a brasilidade da nossa música. Saudando as composições de Roque Ferreira, Roberta Sá coloca seu (cada vez mais) belo canto a serviço de um repertório irretocável.
Evocando orixás, louvando o vestido de chita ou cantando deliciosamente a cocada, Roberta - que tem a companhia do Trio Madeira Brasil no disco - usa sua voz afinada para nos conduzir a uma viagem por um Brasil que a gente chega a esquecer que existe. A simplicidade das letras contrasta com a suntuosidade dos arranjos - adornados por cordas e econômico com a percussão. O resultado: o CD não resvala na obviedade e soa original, sofisticado e, por mais que pareça contraditório, simples. Agrada já na primeira audição.
Canções como Zambiapungo, na qual um dos versos diz "Tempo me temperou com dendê", são tão melodiosas que se torna praticamente impossível não querer cantar junto. Em Cocada, Roque Ferreira faz um refrão ligeiro e divertido, que parece talhado para brilhar na voz de Roberta Sá: "Trepe no coqueiro / tire o coco e vá quebrar / Quebre o coco e tira a casca / Pegue o coco e vá ralar". Além da vontade de comer cocada, a faixa desperta o desejo de soltar a voz e cair no sambinha gostoso criado pelo baiano.
Água da minha sede, conhecida na gravação de Zeca Pagodinho, ganha novo registro. Surge como outra canção nesse disco, valorizada por um arranjo rico em harmonias. A letra ganha ainda mais força e a poesia de Roque Ferreira toma o primeiro plano. Irresistível como Orixá de Frente, outra pérola desse repertório valioso. Narrando a beleza da "preta", Roque Ferreira cria versos que parecem saídos de uma canção de Caymmi. "Venha ver como é lindo uma preta na roda / Toda se bulindo, Iaiá / O pano da costa do ouro / Cobrindo o colar". Dois mestres brasileiríssimos!
Poderia ficar aqui enaltecendo a qualidade dos versos, dos arranjos e a lindeza do canto de Roberta Sá. Mas acho que me tornaria repetitivo. O disco é belíssimo e imprescindível para quem é fã de MPB.
Preciso dizer que recomendo MUITO?
Que venha o show!!!

8.8.10

Minha primeira vez em 3D: "Meu malvado favorito"...

Filme foi o mais assistido nos cinemas brasileiros em seu fim de semana de estreia...
Dizem que a primeira a gente nunca esquece. Então, tenho fortes motivos para jamais esquecer dessa comédia de primeiríssima...
A disputa pelo trono de maior vilão do mundo é o mote de Meu malvado favorito, animação em 3D lançada nos cinemas brasileiras nesse final de semana. Contando com a ajuda de pequenas - e enlouquecidas - criaturas amarelas, Gru traça um plano para roubar a lua e, com isso, tornar-se o mais temido dos vilões do planeta. Mas o plano não é de fácil execução, e Gru deverá lutar contra Vetor, o então maior malvado do mundo, autor de um mirabolante plano que roubou uma das pirâmides do Egito e, no lugar, deixou uma réplica. Inflável.
No meio do caminho, Gru se depara com três órfãs e esse encontro mudará os destinos de todos os personagens envolvidos nessa história leve, divertida e com gráficos impressionantes. A cena em que o vilão anda de montanha-russa com as garotinhas, em 3D, dá ao público a exata sensação de quem senta nas cadeirinhas da temível atração dos parques de diversões. Muito bem feito mesmo!
Poderia falar aqui de um certo clichê no final do filme, mas acho que seria demais imaginar que esse tipo de produção fugiria dos padrões que ajudaram a consolidar a indústria cinematográfica de Hollywood. Portanto, esqueçam as análises mais profundas e se entreguem ao entretenimento que esse filme pode oferecer. Do primeiro segundo aos...créditos de encerramento!
A comédia arranca gargalhadas de todos, de todas as idades. Então, se você tá buscando diversão, eu recomendo!
Ah, sim: o 3D faz toda a diferença!!!

29.6.10

Sobre Guerra ao Terror...

Produção mostra a rotina de um esquadrão antibombas em Bagdá. E os momentos de silêncio, como nessa cena, são fundamentais para revelar o clima angustiante de uma guerra...
Finalmente vi o vencedor do Oscar 2010. Foi na noite de domingo, no Telecine Pipoca. Gostei bastante. Mas, de cara, acho que é possível reafirmar a ideia de que essa não é uma produção que deve se eternizar na memória dos amantes da sétima arte. Bom filme, com imagens e montagem impressionantes, Guerra ao Terror foge do caminho óbvio e se sustenta nas opções estéticas da diretora Kathryn Bigelow - não por acaso, a primeira mulher a levantar a estatueta da Academia.
A câmera faz o estilo "nervosinha". As imagens têm o forte apelo do digital, e ganham um tom documental. E essas são escolhas que dão ao filme um impressionante tom de "verdade", como se aquelas imagens e aqueles personagens estivessem numa reportagem da CNN, relatando as dificuldades da vida numa Bagdá que ainda resiste depois de anos de intervenção militar americana. A montagem também é interessante, habilidosa. Revela ângulos surpreendentes e imprime um ritmo interessante - embora inconstante - à produção. Características que dão a Guerra ao Terror todos os méritos técnicos cabíveis.
Vamos à história: o filme mostra a rotina de um esquadrão antibombas, a companhia Bravo, que recebe o sargento James a 38 dias do fim da missão. Louco por uma adrenalina e um tanto inconsequente, James é o personagem que melhor explica a frase que abre o filme: "a guerra é uma droga". Frase que, explicada no fim, está longe de parecer associada a qualquer campanha humanista.
O filme tem alguns clichês, como o tom salvacionista conferido aos personagens de militares americanos. Mas o mais evidente deles é o do militar em crise por estar na guerra, percebendo-se ameaçado pelo risco de morte. Mas o drama é bem tratado - e nem sei se seria possível fugir dele num filme do gênero. E esse angustiado personagem é o responsável por muitos dos momentos de tensão vividos pelo espectador ao longo de todo o filme. Afinal, algo vai ou não dar errado com ele?
Honestamente, os diálogos não me cativaram. Não são ruins, longe disso. Mas parecem menos fundamentais para que se entenda o que se passa com aqueles homens pressionados por uma guerra sem perspectivas, num lugar inóspito e convivendo com a iminência da morte. Há exceções, como o momento em que um dos integrantes da Companhia Bravo revela o desejo de ter filhos e, chorando, desabafa: "Eu odeio esse lugar!". Forte. Essa força se repete nas duas últimas cenas da produção, protagonizadas pelo sargento James. Cenas que explicam a frase utilizada para abrir o filme...
Essa espécie de periferização dos diálogos, na minha opinião, é causada pela força dos silêncios. E são muitos os momentos em que só se ouvem a respiração dos personagens, além do som ambiente. Nada de textos! E é nesses instantes que o espectador se sente vivendo a Guerra ao Terror, tenso, preocupado, angustiado. Pra mim, retratar com tanta perfeição o clima tenso de quem vive a guerra é o ponto alto do filme.
Recomendo! Mas não sei se tudo isso fazia de Guerra ao Terror o merecedor do Oscar 2010...
E você, já viu? O que achou?
Comentaê!!!

27.6.10

Em 'Hiperativo', Paulo Gustavo confirma hipertalento...

Carismático, ator se firma em peça baseada única e exclusivamente em seu talento para contar causos engraçados. E bota engraçados nisso!!!
São poucos os atores que conseguem manter o público nas mãos durante um espetáculo totalmente baseado na falação. E é exatamente esse o mérito de Hiperativo, stand  up estrelado por Paulo Gustavo. Baseado numa frenética contação de causos, o espetáculo diverte a plateia e mostra que o ator, consagrado no monólogo Minha mãe é uma peça, tem talento para muito mais que um título.
Debochando de tudo, de todos - e de si mesmo - Paulo Gustavo faz graça com as "limitações" do gênero stand up, debocha das grandes - e pretensiosas - aberturas de shows, e conta uma série de histórias protagonizadas por ele, por amigos e por familiares. Ao ouvir frases como "Quando a pessoa vem feia, Deus indeniza", dita para justificar sua "beleza-depende", o ator conquista a plateia. Há momentos em que a risadaria é tão grande que, fanfarrão como ele só, o ator interpela: "Cala a boca, gente! Deixa eu falar!". E o público explode em nova gargalhada...
As histórias protagonizadas pela (já famosa0 mãe de Paulo Gustavo são geniais. E reiteram a genialidade desse ator que soube tirar da máxima de que "as mães são todas iguais" matéria-prima riquíssima, capaz de produzir tiradas de interesse universal. Não há quem não ria no teatro ao ouvir as aventuras dessa mãe um tanto neurótica, que liga para o filho e não deixa que ele pronuncia uma única palavra durante todo o tempo do telefonema.
E, a julgar pela quantidade de histórias que conta - e pela impressionante velocidade com a qual emenda umas às outras - Paulo Gustavo herdou esse dom: é um falastrão de primeiríssima qualidade! E dos mais engraçados!!!
Recomendo!

19.5.10

Um Conexão Repórter sobre a vida dos soropositivos...

Jornalístico do SBT mostrou imagens de portadores de HIV em seus últimos dias de vida... 
Na última segunda, o programa de Roberto Cabrini no SBT exibiu reportagens sobre a vida de pessoas portadoras do HIV. A pauta não é inédita, claro, e me chamou atenção um dado: nos encaminhamos para a terceira década sob a ameaça desse vírus! Impressiona pensar que, apesar de todos os (grandes) avanços no tratamento, ainda não há no horizonte a perspectiva da cura em curto ou médio prazo.
O Conexão Repórter foi contundente ao mostrar a vida de portadores do HIV. Mostrou pacientes em estado terminal. Pôs no ar imagens de pessoas que morreram duas, três semanas depois das gravações. Entre essas vítimas da epidemia, uma jovem inconsciente, mantida em casa, cuidada pela mãe. Angustiante...
Entre os depoimentos de soropositivos, dois me chamaram mais atenção: o de um garoto jovem, que contraiu o vírus ao transar com a namorada sem preservativo. A moça sabia que estava infectada e não o avisou. Hoje, já com algumas sequelas, o garoto sonha em construir uma família. Diz isso sorrindo, com a pureza de quem confessa um sonho verdadeiro, legítimo. Genuíno. Fiquei emocionado...
O outro depoimento também foi de um jovem. Soropositivo, ele revelou ter usado drogas por pensar que "já que ia morrer, vamos ver como é". Acabou tendo complicações. Na entrevista, parecia bem. Perguntado sobre qual o seu maior medo, revelou: "o de não ser feliz". O rosto do garoto foi frisado na edição e a locução deu a triste notícia: ele morreu duas semanas depois.
Foi forte demais pra mim. Mudei de canal. Sou fraco. E não sei o que pensar sobre o programa. Mostrar imagens de pessoas em seus últimos instantes de vida me pareceu um pouco demais - sobretudo no caso da moça que, inconsciente, obviamente não foi consultada sobre. Por outro lado, enquanto pesquisas e estudos revelam que jovens cada vez têm usado menos preservativos, parece válido mostrar que, por mais que o tratamento tenha evoluído em termos de qualidade de vida para o soropositivo, a Aids ainda é uma doença séria, grave.
Repito: não tenho opinião sobre o Conexão Repórter. Mas se Roberto Cabrini pretendeu dar um soco na minha cara, conseguiu! E doeu!

12.1.10

Sobre a estreia do Big Brother Brasil 10...

Se você tem preconceito com o BBB, pode ir direto ao post anterior, certo? Eu não tenho esse pudor, já trabalhei no site do programa e acho o formato um sucesso inquestionável. O BBB é um case de comunicação interessante, principalmente quando se considera o sucesso na utilização das várias plataformas midiáticas. Nessa edição, até o Twitter deve entrar na onda.


A Globo lançou hoje a décima edição do reality show mais assistido da televisão brasileira. E deu um tiro de canhão! O BBB 10 estreou com o triplo da audiência da Record, a segunda colocada no horário. Uma prova de que o público ainda não cansou de dar aquela espiadinha.
A aposta da direção do programa foi a diversidade. Uma draq queen, um gay, uma lésbica, uma policial, um advogado, uma dançarina de boate, um professor de hip hop, uma twitteira, uma doutora em linguística e até um empresário do ramo erótico são alguns dos perfis selecionados para garantir as emoções dentro da casa pelos próximos oitenta e tantos dias. E pelo que se viu logo nos primeiros vídeos, o elenco está entre os melhores já selecionados nas 10 edições do programa.
Hoje, o BBB mostrou uma pegada na edição que falta em todos os realities da concorrência. Os participantes foram apresentados, logo no início, num ritmo alucinante. Depois, de forma mais aprofundada, cinco grupos de três pessoas tiveram seus perfis mostrados em vídeos curtos, com depoimentos de familiares e amigos. E já deu pra criar simpatias e antipatias. Bola dentro!
No fim, a surpresa anunciada: quatro ex-BBBs entraram na casa para apadrinhar os participantes na primeira prova do líder. O recurso funciona como um charme, uma alusão aos 10 anos da atração global. Mas nem precisava: pelo que mostrou na estreia, o BBB 10 pode ser um sucesso por si só.
Na internet, o BBB 10 já gerou uma pequena polêmica: para alguns, separar os brothers em tribos identitárias foi um passo em falso no momento em que o programa caminhava para a valorização das diversidades. Um tema que, de fato, dá pano pra manga...
E você, também deu uma espiadinha?

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Sobre o fim de Dalva & Herivelto...

Adriana Esteves e Thiago Fragoso brilharam no último capítulo da microssérie global...

Apesar do atraso - em virtude dos dois dias de folga que tirei do blog - eu me sinto na obrigação de comentar o último capítulo da excelente microssérie exibida pela Globo na semana passada. Emocionante - sem jamais ser piegas - o episódio foi primoroso! E deve ter feito muita gente chorar. Adriana Esteves e Thiago Fragoso fizeram lindamente a cena em que a mãe pede ao filho para "cantar alguma coisa bonita" ao seu ouvido. Assim, com música, Dalva se despediu da vida - ao menos segundo o bem sacado roteiro de Maria Adelaide Amaral. Poético...
Herivelto apareceu pouco no desfecho da saga e, quando o fez, foi para despertar mais raiva no público. Amargurado e cheio de rancor, o grande amor da Estrela Dalva se negou a ir visitá-la no hospital, mesmo diante da certeza de que aqueles eram os últimos momentos da vida da ex-mulher. Herivelto terminou a microssérie com a pecha de vilão.
Dalva e Herivelto foi um dos mais bonitos trabalhos já apresentados pela Rede Globo. Em todos os aspectos! Seduziu novos e velhos fãs de Dalva de Oliveira e deu a dimensão da importância de uma das mais controversas e movimentadas histórias de amor da MPB. Só lamento que o formato de cinco episódios limite tanto o desenvolvimento da história. Certamente, muita coisa ficou de fora. E, instigado pelo que viu na tela, o público gostaria de ver muito mais...
Essa vai para a minha coleção de dvds com toda certeza!
E você, gostou?

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