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6.4.15

Eduardo: mais uma vítima do nosso esquecimento..

Eduardo: mais um "futuro bonito" que nunca vai chegar...
Eduardo de Jesus Ferreira tinha 10 anos. Passava 10 horas por dia no colégio, um CIEP de Olaria. Era filho de uma diarista. Sonhava com um futuro bonito e dizia à mãe que a amava várias vezes por dia.
Que tristeza ter de escrever esse texto conjugando todos os verbos no passado...
Eduardo foi mais uma triste vítima da tragédia da segurança pública de uma cidade que, em vez de extinguir abismos, apenas resolveu fingir que eles não mais existiam. Um Rio de lágrimas - e de sangue - que segue mais partido do que nunca.
Eduardo foi morto e vi no Twitter sua foto sem vida. Terrível, trágica, dolorosa. Estirado e ensanguentado como jamais deveriam aparecer nos jornais meninos de sua idade - sobretudo quando a absurda extinção de suas vidas decorresse de tamanha negligência. De tamanho descuido. De tão absurdo silêncio de todos nós para uma história que se repete à exaustão. Não exagero: na última década, no Rio de Janeiro, 50 crianças foram mortas por policiais em incursões tratadas como rotineiras pelo Estado.
O que se faz diante disso?
Nada.
A gente sofre, a gente se entristece. E vem um novo escândalo, vem uma nova manchete terrível; vem uma nova piada no whatsapp. 
E a gente esquece.
A gente esquece do Eduardo, esquece da dor incurável da mãe que estava se desdobrando para pagar cursos de inglês e informática pro garoto. A gente esquece do futuro bonito que ele nunca vai ter. Esquece de todas as contribuições que ele poderia vir a dar para ajudar a curar essa sociedade doente, covarde, assassina. Sim, a gente esquece que empurrou o policial para aquele tiro. A gente esquece que naturaliza, dia após dia, o inaceitável. A gente esquece que o escândalo seria muito maior se Eduardo de Jesus Ferreira morasse na Vieira Souto. A gente esquece que há lugares em que a polícia jamais entraria como entra no Complexo do Alemão. A gente esquece que vive num contexto em que o CEP determina como o cidadão vai ser tratado. E esquece que esse tratamento se desumaniza proporcionalmente à redução do valor do IPTU.
A gente se esquece porque é covarde. Porque se acostumou a achar que as coisas são assim. E porque não sabe como ou o quê fazer para alterá-las. 
Queremos alterá-las?
A gente se esquece porque é cômodo. Porque Eduardo, infelizmente, não foi o primeiro e não será o último. 
Quantos mais serão?
A gente se esquece porque favela é perigoso. Porque acha que - como ouvi dia desses - quem mora lá já sabe que o futuro pode nunca chegar.
E chegará?
A gente se esquece, sobretudo, porque vem esquecendo a cada dia mais o que significa a palavra humanidade.
Humanidade?

16.3.15

Um dia estranho

Manifestação com pauta difusa cedeu espaço para reivindicações absurdas

Acho que toda e qualquer manifestação realizada com o objetivo de cobrar direitos e serviços é válida. Do mesmo modo, também considero salutares as demonstrações coletivas que tenham o objetivo de pressionar governos - em qualquer nível - para, assim, lembrá-los que os interesses dos cidadãos devem ser considerados quando da tomada de decisões.
Embora as considere pouco efetivas, acho também pertinentes as manifestações coletivas contra a corrupção e a impunidade. E me explico: visto que ninguém se assume publicamente favorável a uma ou outra coisa, sair às ruas manifestando essa contrariedade parece clamar pelo óbvio; parece coisa de quem não consegue enxergar além do senso comum. Creio que manifestações dessa natureza carecem de uma pauta clara, de um objetivo comum. No momento atual, penso, a pauta para quem pretende combater esse combate é a da reforma política. E me incluo nesse grupo, vale dizer.
Acontece que as manifestações de ontem pareceram boiar num mar de senso comum. E, pior do que isso, quando se permitiram ir além desse pensamento mediano, tomaram caminhos assustadores. Não consigo conceber um cidadão de bem, ainda que incomodado com a atual situação do país, que se permita militar nas ruas ao lado de alguém com uma faixa onde se vê a suástica. Igualmente me intriga pensar nas "famílias inteiras, em clima de paz" dividindo a rua com pessoas que empunhavam cartazes onde se lia - inclusive num inglês constrangedor - clamores pela volta da ditadura militar. 
"Eram poucos", alguns dirão. Não importa, respondo. Ao dividir o mesmo espaço com gente assim, você valida esse discurso. Ao aceitar militar ao lado de quem defende pautas radicais, extremistas e ilegais, você caminha para se tornar mais um deles. Aliás, nas fotos e imagens de TV, nas estatísticas da polícia, "dos organizadores" e dos institutos de pesquisa, quem escolheu marchar ao lado de pessoas com tão deprimentes reivindicações já se tornou um deles. 
Por fim, lembram de um ditado popular sobre se misturar com porcos e comer farelo? Pois bem. Entre os "convocadores" dos protestos de ontem, estavam Silas Malafaia, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro. Gente que, talvez, até traga algum orgulho para quem resolveu ganhar as ruas e assinar o cheque em branco em que se converteram essas passeatas sem foco. Mas, pra mim, esse é o tipo de gente que sempre estará do outro lado. 
Obrigado, mas do farelo deles eu só posso querer distância.

11.3.15

O Brasil precisa amadurecer

Cinco meses depois das eleições, eleitores ainda se digladiam como se Dilma e Aécio
ainda estivessem disputando. E o país só perde com isso...
E nos últimos dias, reeditando um triste fenômeno que muita gente pode vivenciar durante os meses da última campanha eleitoral, as redes sociais voltaram a se transformar num campo de batalha. E não me utilizo de uma figura de linguagem; não se trata de uma metáfora, uma vez que a luta não se dá no campo ideológico. São ofensas, agressões, insultos e arranca-rabos de todos os graus. Tem de tudo, menos maturidade...
A cena política brasileira se converteu nos últimos tempos numa espécie de 8 ou 80 que, além de limitador, só tem empobrecido o diálogo e impedido o avanço do país - e do pensamento. E, pior do que isso: diante dessa polarização, os dois lados passaram a contar com defensores / torcedores apaixonados, que tratam o país como um grande campeonato de futebol; ignorando a premissa básica de que, nesse caso, todos os brasileiros deveriam lutar por um objetivo comum e que, assim sendo, a vitória não seria de eleitores do PT ou do PSDB, porque um Brasil melhor, de pé, será melhor para todos nós.
Atribuir a um partido a responsabilidade pelos males do país - sobretudo o mais grave deles, a corrupção - é, com boa vontade, ser desonesto. Desonesto com a história, com os fatos que a escreveram e continuam a escrevê-la e com aquilo que, se ainda não é, deveria ser do conhecimento de todos: não se pode estipular uma data de início da roubalheira em nosso país. Por quê? Porque aqui, infelizmente, sempre se roubou. E muito! Ou alguém se esquece que fomos uma colônia de exploração e que, portanto, o que aqui se obtinha não era aplicado em benefício do novo território e de seu povo? Se os barões contemporâneos mandam seus dólares por vias escusas para os paraísos fiscais, séculos atrás era o império a abrir a boca pra surrupiar as riquezas aqui extraídas. Não me parece estranho supor que essa lógica tenha se cristalizado e, repetida geração após geração, tenha acabado por parecer natural.
Ainda nessa perspectiva histórica, que tal se dermos um salto no tempo rumo a um passado menos remoto? O passado da ditadura militar. Censura ampla, geral e irrestrita; sindicatos e organizações privados de um funcionamento livre, imprensa amordaçada. É possível crer que não se roubava nessa época? É aceitável a ideia de que, num cenário em que sequer era fiscalizado pela imprensa e por outros organismos, o governo agia com retidão? Desculpem-me, mas pensar assim me parece inocência. Ou ignorância. Ou, reafirmo, desonestidade! E não me venham falar que o país era melhor naquele sombrio período em que os opositores eram mortos, desaparecidos, presos, expatriados, silenciados! Época em que, como vira e mexe lemos, a silenciada corrupção já levava muito.
Hoje, temos um país aberto, democrático. Uma imprensa livre - e questionável, claro. Avançamos nesses dois pontos mas, no terreno da política, a época ainda é a das cavernas. Enquanto parlamentares querem definir o conceito de família seguindo preceitos religiosos; enquanto há uma bancada da bala no parlamento; enquanto um deputado ofende mulheres, negros e homossexuais sem que nada lhe aconteça; enfim, enquanto tudo isso tomou de assalto os noticiários, Brasília foi virando uma espécie de pastiche de si mesma. O congresso, eleito para nos representar, não teve pudores de negar qualquer movimento favorável a maior participação popular nas tomadas de decisão. Congressistas também não tiveram vergonha de dizer não a um plebiscito que envolvesse a sociedade na construção de uma reforma política. Ou seja: em dois casos - e há outros - não houve a menor disposição em sequer disfarçar que os desejos da sociedade não lhes interessam. E a nós? 
Bem, nós nos calamos.
Nós vergonhosamente, covardemente e tristemente nos calamos!
Iniciado o segundo mandato de Dilma, as medidas impopulares vieram. Eram favas contadas, como sabiam - e defendiam - todos os economistas. Era o que havia por ser feito. Era o que Aécio também faria - e talvez, sob o PSDB, o país viria a experimentar um ajuste ainda mais rigoroso. 
Pois bem: era o que pedia o mercado. Era o que faria a oposição. Era o que teriam os eleitores do candidato tucano. Dilma fez. Resultado: o mercado, a oposição e os eleitores de Aécio se voltaram contra o governo. Setores da mídia, mais raivosos que qualquer partido de oposição, também se voltaram contra o governo. Não dizem, mas tá na cara! Tá nas manchetes, tá nas fotos, tá na cara dos colegas que emprestam seus corpos e vozes para que os donos da informação digam e defendam o que querem. O que querem pra si e o que querem nos fazer crer que também queremos. E nós?
Bem, alguns de nós bateram panelas.
Sim, alguns de nós, vergonhosamente, covardemente e ridiculamente batemos panelas!
Os jornais não dizem isso claramente, mas as panelas estridentes não ressoaram nas periferias. Talvez por lá estivessem todas cheias na noite do último domingo. Talvez as classes mais populares não tenham tantos motivos para protestar contra o governo. Talvez as classes mais populares tenham entendido que as eleições acabaram e que o momento é de trabalhar - governo e sociedade - para que o país entre novamente nos trilhos. Talvez as classes mais populares não engulam tão facilmente a ideia de que "nunca se roubou tanto no país" porque nos últimos anos, como indicam todos os índices, pela primeira vez em nossa história lhes tenha sido oferecido uma parte do bolo do crescimento da economia brasileira.
Agora, enquanto informam, jornais e TVs reforçam a existência de uma "grande manifestação" marcada para o próximo domingo, num explícito exercício de futurologia, uma vez que não se deveria adjetivar uma manifestação que ainda não se concretizou, ainda não ocorreu. Tempos estranhos...
É óbvio que o clima não é bom. É óbvio que a popularidade do governo está em xeque, sobretudo depois das tais mudanças impopulares - que não têm esse nome aleatoriamente. Mas também me parece óbvio que há um movimento oportunista que quer se valer disso para desestabilizar ainda mais o andamento do país; sim, porque desestabilizar um governo é comprometer o andamento do país. Mais que isso: esse movimento se aproveita da notória carência de formação ( e informação) política de grande parte do eleitorado.
O fato é que temos um sistema político viciado em corrupção e uma população que centraliza suas expectativas e cobranças no Executivo, sem dar a menor importância ao Legislativo. Depois, quando vem à tona um escândalo que apenas confirma aquilo de que todos sempre desconfiavam, a conta toda é jogada no Planalto. Talvez porque seja mais fácil. Talvez porque não se tenha cultura política para envolver toda a sociedade na fundação de um novo modelo. Talvez porque estejamos contaminados demais pelo imediatismo, por essa onda tão descartável; não serve, troca. E aí vai desde o celular até a presidência da república. Não sou a favor do "Fora, Dilma", não fui a favor do "Fora, Lula" e nem do "Fora, FHC". Democracia não é Lego, não dá pra agir montando e desmontando cenários. 
O Brasil precisa amadurecer muito e a conjuntura atual só reforça isso.

5.3.15

Xuxa na Record: o fim de uma era

Depois de dois anos de negociação, Xuxa mostra contrato assinado com a Record
A televisão brasileira, sobretudo a Rede Globo, foi forjada tendo como base o ‪#‎StarSystem‬ de Hollywood. Se lá os grandes astros e estrelas eram exclusivos dos grandes estúdios, por aqui a Globo cresceu segurando seus maiores nomes em longos contratos que os impediam de ser roubados pela concorrência. Salários polpudos, mesmo para aqueles que passavam longos períodos fora do ar, sem trabalhar. Sim, por muito tempo a Globo pagou caro para ter aqueles que considerava os melhores valores do mercado em seu elenco. Por isso, não dá pra imaginar Cid Moreira narrando o "Fala que eu te escuto", nem a Glória Maria fazendo um programa qualquer de viagens na Rede TV. Por isso a gente estranharia ver o Bial apresentar "A Fazenda", o Tarcísio Meira sendo vovô das órfãs de Chiquititas, no SBT, ou a Glória Pires interpretando Paulina e Paola num remake de A Usurpadora, na mesma emissora. Também por isso pareceria bizarro ver Roberto Carlos apresentar seu especial de fim de ano na TV Cultura. Todos são astros da Globo; e vale dizer que, não por acaso, "global" é um adjetivo que identifica o vínculo do artista com a emissora carioca.
Outros canais seguiram o exemplo dos artistas exclusivos e, nas vezes em que esqueceram de rezar pela cartilha, se arrependeram. Foi o que aconteceu ao SBT, quando perdeu Hebe para a Rede TV e acabou sendo criticado por virar as costas para uma de suas maiores estrelas. Também é por isso que ver a ‪#‎XuxaNaRecord‬ desperta tanta curiosidade, tanto estranhamento. 
Hebe sendo recepcionada na Rede TV,
depois de sair do SBT
De uns anos pra cá, a estratégia de ter numerosos artistas contratados por valores exorbitantes vem sendo revista tanto pela Globo quanto pelas demais emissoras. Os tempos são outros, bem mais difíceis. Aliás, de volta ao caso da Hebe, foi essa a razão que impediu Silvio Santos de mantê-la sob contrato com vencimentos considerados estelares. Sugeriu reduzir o salário, o staff de Hebe não aceitou e ela acabou assinando com a Rede TV - que viria, aliás, a atrasar o pagamento da contratada pouco depois. Com Xuxa o processo foi semelhante: salário alto e pouco retorno comercial e de audiência. E um agravante: a direção da Globo não via mais espaço para a loira na grade de programação. Assim sendo, a única saída foi mesmo a concorrência.
Em 2009, Gugu deixou o SBT e
assinou com a Record
A ida de Xuxa para a Record parece sinalizar para o fim definitivo da era em que o artista era a cara de uma emissora. Nem a saída de Gugu para a mesma Record, anos atrás, rendeu a mesma repercussão. E vale lembrar que, no SBT, ele era apontado como o sucessor natural de Silvio Santos. Talvez, o único paralelo com essa mudança de emissora da Rainha dos Baixinhos fosse uma eventual saída de Silvio Santos do SBT o que, sabemos, é impossível. 
A contratação de Xuxa pela Record, celebrada hoje, já desponta como uma das mais caras da história da televisão no Brasil. Foram muito raras as vezes em que um artista tão identificado com a emissora líder de audiência foi para a concorrência. E, no caso em questão, a despeito de ter permanecido na geladeira global ao longo do último ano,  Xuxa segue como um dos rostos mais identificados com a Globo, onde esteve por quase 30 anos. Desconfio que Boni e Roberto Marinho jamais concordariam com a saída de uma estrela desse patamar do cast do canal. E, a julgar pelo imenso barulho causado nas redes sociais hoje, acredito que a Record pode ter feito um grande negócio. O público, deu pra ver, segue fiel à estrela. Resta saber quais as outras mudanças que ela prepara para surpreender os fãs. Resta saber como o público vai reagir à mudança quando o novo programa de Xuxa estrear. E resta saber como a Globo vai se armar para enfrentar a ex-estrela... 

2.3.15

Rio 450: que cidade estamos celebrando?

O "meu Rio" passa por aqui. É alegre, festeiro e bonito. Tem problemas. Mas é real...
Ontem, primeiro de março de 2015, o Rio de Janeiro completou 450 anos. Mas, ao menos na maior parte dos jornais e do noticiário da TV, o aniversário parecia ser apenas de parte da cidade. Sim, a Zona Sul foi celebrada como a mais perfeita tradução da carioquice; como se o Rio estivesse limitado aos contornos da orla, aos calçadões, monumentos e postais das praias, praças e avenidas com os IPTUs mais caros da capital fluminense.
Sobre o Rio de Padre Miguel, Bangu, Realengo e Campo Grande não vi palavra. Santa Cruz? Nada! Valqueire, Irajá, Vaz Lobo, Méier, Senador Vasconcellos, Jabour, Sulacap, Campinho, Cascadura, Praça Seca, Freguesia...todos igualmente esquecidos. Pareciam partes de um Rio que pouco, quase nada tem a comemorar. Isso sem falar na Coreia, no Alemão, em Costa Barros, Vila Kennedy, Acari, Cesarão, Rio das Pedras, Engenho Novo; áreas de uma cidade que segue partida e que, sabemos, realmente têm poucos motivos para qualquer celebração.
Os jornais e as emissoras de TV até se esforçam, vez ou outra, mas em episódios como esse fica evidente o desconhecimento e a distância que suas redações conservam do Rio real; que está afastado dos pontos turísticos, dos lucros exorbitantes das empreiteiras sempre tão interessadas em obras faraônicas, dos homens e mulheres sarados que lotam as praias de segunda a segunda. Na TV, em geral, periferia só aparece quando o assunto é violência. E, uma vez por ano, no carnaval; quando o restante da cidade parece se lembrar  de que é das comunidades mais populares que emerge a mais genuína das expressões da cultura popular: o samba.
Lembro de um episódio que foi muito marcante na minha formação. Faz uns 10 anos. Eu já trabalhava na TV e me surpreendi com uma manchete em letras garrafais que estampava a página de um grande jornal. A notícia era um tiroteio no Leblon, "à luz do dia". Tiroteios são sempre assustadores, claro; não se pode tomá-los com naturalidade. Mas a razão do meu espanto era o tom da matéria; como se fosse aquele um fato inadmissível não pela violência, não pelo uso indiscriminado das armas, mas única e exclusivamente pela localização do confronto. Dava a clara impressão de que, fosse na Rocinha, na Taquara, na Ilha do Governador ou em qualquer área menos valorizada, o tiroteio seria aceitável; normal, até. Mas ali, no Leblon, talvez a poucas quadras dos apartamentos dos donos do jornalão; ali, não!
Fiquei chocado! E nunca vi o jornal dar o mesmo destaque a qualquer episódio semelhante acontecido no subúrbio, na zona oeste ou em áreas "menos nobres"
do Rio. Claro: o Rio, para eles, sempre foi o que está além do túnel.
Mas o Rio de verdade resiste, sem filtros embelezadores, sem photoshop e sem sair nos jornais. Resiste apesar dos políticos, apesar da violência, apesar dos autos de resistência que encobrem o extermínio de uma geração inteira, apesar do trânsito caótico, apesar dos serviços que só pioram, apesar da intolerância de quem invade e destrói terreiros por não aceitar a coexistência de outras crenças, apesar do ódio homofóbico que não percebe a inequívoca vocação deste lugar para o amor, apesar das balas - e de algumas esperanças - perdidas, apesar dos sonhos negados pra quem vem - e vive - nas periferias, apesar da especulação imobiliária e apesar da eterna despoluição da Baía de Guanabara; apesar de tudo isso, o Rio resiste! O Rio segue sendo a capital da beleza e do caos, segue com 40 (e tantos) graus, segue sendo a mais maravilhosa dentre as maravilhosas cidades do mundo. O Rio segue sendo meu orgulho, minha casa e minha paixão.
Parabéns, Cidade Maravilhosa! E que os próximos 450 anos sejam melhores para os cariocas de todas as partes...

23.2.15

Cenas tristes e marcantes de um carnaval...

Em Salvador, miséria dos cordeiros e descaso com a limpeza da cidade destoam do clima contagiante da capital da Axé Music...

Assumo: em matéria de carnaval, sou bígamo: amante dos festejos cariocas e apaixonado pela farra baiana. E me divido doloridamente entre essas duas cidades - não por acaso, as duas de que mais gosto no país. Passo o pré-carnaval no Rio e o carnaval oficial na capital baiana. Na Cidade Maravilhosa, vou de bloco em bloco pra aproveitar a alegria de um carnaval de rua que a cada ano se torna mais pujante; mais frenético, mais festivo. E em Salvador, vou atrás dos trios de Ivete, Claudinha e Daniela, pulando como se não houvesse amanhã; como se as pernas não me fossem enviar a conta no dia seguinte. Afinal, no dia seguinte, lá vou eu pro circuito novamente, percorrer os seis quilômetros de felicidade e êxtase que separam a Barra de Ondina. Sem contar as noites em que a farra ainda se estende aos camarotes...
Foi assim em 2015: dividi meu amor, minha energia e minha alegria entre essas duas cidades. Mas o prazer de poder me divertir em mais um carnaval não ofuscou o choque ao perceber a miséria impressa nos rostos, nos olhos e nos pés descalços de muitos dos cordeiros dos blocos das cantoras baianas. Pra quem não sabe, cordeiros são os homens e mulheres - das mais variadas idades - que carregam a corda responsável por separar quem pagou pelos abadás do público que não pagou, a chamada pipoca. É deles a responsabilidade de impedir que o bloco seja invadido por quem não pagou para estar ali, perto do trio elétrico. De alguns deles ouvi que sua função é "nos proteger". "Estou aqui pra cuidar de você, brother", me disse um, provavelmente sem se dar conta de que há quem cuide dele. Dentro dos blocos de Salvador, os cordeiros expressam o maior contingente de negros, o que me faz lembrar que, sim, infelizmente a pobreza brasileira ainda tem cor. Negros de abadá? Poucos, muito poucos...
Não falo da miséria dos cordeiros por ter ficado assustado ao vê-la; como muitos representantes da tal classe média tantas vezes ficam. Não acho que a miséria deva ser escondida. Falo porque me assombro que ela exista numa festa que movimenta tantos milhões de reais. É um deboche com a sensibilidade de qualquer pessoa que se preocupe minimamente com o próximo perceber que há gente faturando alto que sequer se importa se a cordeira está descalça caminhando sob o asfalto quente por seis quilômetros. E mais aviltante ainda é saber que ela vai receber apenas alguns trocados por um sacrifício tão grande...
Numa festa feita por baianos para turistas, um outro momento ficou gravado na minha memória. Foi na segunda-feira de carnaval, quando o circuito ficou engarrafado e o atraso no percurso impediu que os foliões chegassem à área com banheiros químicos - em número tão insuficiente em Salvador como no Rio. Fomos para o Morro do Gato e a cena era terrível: num barranco lamacento, homens e mulheres urinavam, produzindo um barro fedido, eu escorria morro abaixo, encharcando tênis, sandálias, sapatos, meias. Sem pudor. Sem repressão. Sem drama de consciência. Éramos selvagens emporcalhando a cidade sem a menor culpa, simplesmente porque aquela era a única alternativa possível. Certamente esse detalhe sanitário foi esquecido por ACM Neto, prefeito que vem sendo muito elogiado pelos baianos por moralizar alguns serviços públicos e cuidar de obras importantes para a cidade. Não dá para uma cidade linda como Salvador se submeter a um ritual tão sujo, insustentável e indigno de uma das maiores festas do mundo! Não dá pra naturalizarmos um comportamento tão primário em 2015. Não dá pra acharmos natural que o espaço da avenida continue a ser loteado por camarotes impedindo, assim, que mais banheiros químicos sejam disponibilizados para a população e para os turistas. A festa é bonita demais pra permitir erros tão grotescos.
E também não dá - por mais que muitos se divirtam - para que os blocos continuem a cobrar tão caro pelos abadás e sigam tratando os cordeiros de forma tão aviltante e desumana. A seguir assim, a festa popular mais tradicional da Bahia - e uma das mais tradicionais do Brasil - vai caminhar a passos largos para se tornar cada vez menos...popular. E justamente por desprezar tanto a parcela mais genuinamente popular da folia...

9.2.15

Meu encontro com a intolerância em forma de mulher...

Não sei em que momento a classe média brasileira optou por ser a classe medíocre; cheia de discursos preconceituosos, repleta de ódio e pautada pela intolerância...


Meus amigos mais próximos sabem que costumo ser um cara ponderado. Muito ponderado, inclusive. Penso bastante antes de tomar decisões, penso no quê e em como falar, penso, penso, penso. Peso os prós e contras do que digo e do que faço. Não é algo calculado; nunca foi: é da minha essência. Poderia atribuir isso à tal balança, ícone do meu signo - libra - mas gosto mais de pensar que essa busca por equilíbrio é o caminho que venho trilhando, a cada dia, para ser um alguém melhor. Melhor para o mundo, para as outras pessoas e pra mim mesmo.
Raramente discuto. Raramente bato boca com alguém. Ontem, no entanto, a ponderação e essa busca pelo equilíbrio não foram suficientes para evitar que isso acontecesse. Foi no condomínio em que moro; na piscina aquecida - cujas águas, aliás, diante do calor desse verão, nem têm precisado ser artificialmente aquecidas.
Entrei na piscina e uma senhora - que também não estava aquecida e, sim, esquentadinha demais - gritava com o guardião. Ela se queixava aos berros do fato de uma jovem visitante estar dentro d'água usando um short; o que é vedado pelo regimento do condomínio. Eram pérolas como: "Eu pago isso aqui e cumpro as regras, por que uma visitante não tem que cumprir?" e "É o seu papel mandar ela (sic) tirar, você que é o 'piscineiro', eu sou moradora, não tenho que ficar me indispondo", esbravejava, como se fosse uma senhora feudal e o funcionário do condomínio, um seu escravo.
Respirei fundo quando a menina, de uns 16, 17 anos, tirou o short e continuou na água. Estava claro que não havia nenhuma intenção de desrespeitar o regimento: ela apenas não tinha sido comunicada sobre as regras para frequentadores da piscina. A moradora - que, durante a palestra, fazia questão de frisar sua condição de moradora, numa tentativa vã de menosprezar a jovem visitante - seguiu fazendo seus exercícios de hidroginástica e achei que a tarde de domingo voltaria ao curso normal...
Estava errado. O guardião da piscina precisou ir ao banheiro e um outro veio substituí-lo.  Esse outro guardião a moradora fez questão de tratar com uma certa simpatia; como se agora fosse a senhora de engenho a lidar com um capataz de confiança. E iniciou a ladainha, aos gritos, para voltar a constranger as jovens e a infernizar minhas pretensões de um fim de tarde relaxante. Foi quando se deu o seguinte diálogo:
- Mas por que você não está na piscina externa?
- Porque ela foi interditada agorinha.
- E por quê? - quis saber a mulher.
- Porque um morador fez as necessidades dentro.
- Foi aquele doente de novo?
Aí meu estômago embrulhou. O "doente" é um morador com deficiência. Eu tinha ficado sabendo do incidente pouco antes, quando decidi, então, usar a piscina aquecida. O jovem, com uns vinte e poucos anos, não tem controle sobre os músculos. Vai à piscina acompanhado da mãe. E, por conta dessa limitação, acabou sujando a água.
Ignorando completamente toda essa situação e todo e qualquer sentimento semelhante ao de compreensão, a mulher prosseguiu:
- Às vezes eu tô aqui, fazendo a minha aula de hidro, e ela traz ele pra cá! Bota dentro da piscina! E acha que tá certa! Diz que tem uma lei que garante o direito dele! Um absurdo! Ele tem quase trinta anos, sabe? Ele tem direito? Então ela tem é que levar uma multa quando isso acontecer! Prejudica todo mundo que paga pra ter acesso à piscina!
À essa altura eu já estava fora da piscina. Não suportei testemunhar esse ataque extremo do que há de mais abjeto no ser humano. Não suportei ver ali, diante do meu nariz, uma espécie de materialização daquelas colunas idiotas e cheias de preconceitos que andaram povoando as páginas dos sites e dos jornais dias atrás. Não suportei tanto desrespeito, tanto desamor, tanta grosseria. Não suportei ver que, em 2015, há gente parecendo mais desumana que qualquer homem das cavernas. Já vestido, fora da piscina, olhei pra ela e disse, no tom mais baixo que consegui utilizar (e era alto!):
- Quando a senhora quiser reclamar, por favor, procure a administração do condomínio.
Cega e idiota, como costumam ser todos os que compactuam com pensamentos tão tacanhos, ela achou que eu estava concordando com seu discurso:
- Pois é, meu amigo. É que não tem adiantado.
- Mas é lá que a senhora deve ir. Porque o seu direito de reclamar termina onde começa o meu direito de vir pra cá aproveitar uma tarde relaxante na piscina. E aqui, gritando desse jeito, a senhora estragou a tarde de todo mundo. Tá sendo desagradável...
- Você é morador? - ela devolveu, também tentando me desqualificar.
- Sou e tenho o direito de frequentar isso aqui sem ouvir ninguém fazendo escândalo. Falando do rapaz deficiente como você falou, com um discurso cheio de preconceito babaca!
Dei as costas, já de saída.
- Você é um mal educado! Falou palavrão!
Voltei:
- Mal educada e preconceituosa é você! Babaca não é palavrão, mas todo preconceito é babaca sim!
Saí a tempo de ver o guardião da piscina piscar o olho e sorrir pra mim; aliviado por se sentir defendido. Também houve tempo de escutar as palmas das meninas que estavam sendo metralhadas verbalmente por aquele patético exemplar de uma elite que recrimina e discrimina as diferenças; de uma elite velha e imoral, que acha que seu dinheiro paga tudo e que, por isso, deve ter todos os privilégios de que sempre pode usufruir. Aquela mulher, achando-se uma espécie de socialite da Lapa, enfurnada no seu "Condomínio Club" diz muito do Brasil. Diz muito do que vemos na TV, lemos nos jornais e na internet. Diz, também, muito sobre quem se acha melhor pelo que tem e não pelo que é. Humilhando as meninas, o guardião da piscina, o jovem deficiente e sua mãe - que sequer estavam lá para que pudessem se defender - aquela mulher jogou na minha cara o que há de pior e mais triste na nossa sociedade; jogou na minha cara que parte considerável da classe média brasileira optou por ser, na verdade, uma classe medíocre.
Saí da piscina nervoso, boca seca. Mas estava bem cinco minutos depois, cercado de amigos e rindo. 
Leve, como sou e como acho que a vida deve ser. E aprendi que não dá pra tolerar intolerância. E que todos que pensam num mundo mais plural, comprometido com um ideal de sociedade mais justa e menos desigual não podem se calar diante dessas manifestações torpes do que pode haver de mais desumano. Não fiz isso apenas pelas meninas, pelo guardião da piscina ou pelo menino com deficiência; fiz por mim. Vê-los humilhados me fez mal. E acho que só assim, sentindo uns as dores dos outros, poderemos, unidos, materializar uma outra forma de existir em sociedade.
Meu domingo seguiu. Ela, quando a deixei, continuava só na piscina. Sozinha e amarga, destilando ódio e rancor. A continuar assim, vai acabar se afogando na própria desumanidade...

6.2.15

Sobre o meu convívio com os velhinhos atletas...

Uma velhice leve: colegas de academia mostram que, sim, é possível...

Venho de uma família grande, cheia de tias e tios avós e lembro bem de sempre ter gostado de conversar com eles, ouvir suas histórias deliciosas, aprender o que achava interessante e, às vezes, aprender como não queria ser. Ou seja: velhinhos sempre me sensibilizaram muito. Talvez até mais que crianças...  
Há duas semanas, mudei de academia e passei a fazer algumas atividades físicas novas. Entre as novidades está uma aula chamada hidro power. À primeira vista, ainda na borda da piscina, fiquei meio cismado. Muitas vovós e alguns vovôs dentro d'água; pulinho pra lá, levanta a perna pra cá, simula uma corridinha acolá. Enfim, parecia um exercício menos puxado do que aqueles aos quais eu estava habituado.
Pois bem! Comecei a primeira aula e, lá pela metade, já estava pra lá de ofegante. Meus companheiros, vovós e vovôs, também pareciam exaustos - embora realizem os movimentos com menor intensidade. Mas notei em todos uma alegria imensa, um prazer inquestionável por estarem ali, fazendo a aula e colocando o corpo em movimento.
Terminei a aula cansado - e seduzido o bastante para repetir a dose: fiz a segunda aula, a a terceira e, no fim da quarta, já no vestiário, notei que um dos meus companheiros de piscina assobiava uma melodia familiar: "As pastorinhas", que ouvi minha vó cantarolar algumas vezes na minha infância... 
No meio da minha chuveirada, dei risada. De início eu achei a situação um tanto quanto inusitada: não esperava terminar a noite com aquele senhorzinho cantando "lindos versos de amor" no vestiário. Mas logo me senti feliz por aquele senhor; feliz por sua alegria e feliz por ver que a velhice pode ser leve, produtiva, saudável e cheia de música. Depois, passado aquele impacto inicial, fiquei pensando na força daquela canção. Resolvi pesquisar um pouco quando chegasse em casa - o fiz e descobri que "As pastorinhas" foi gravada pela primeira vez há quase 81 carnavais! Que potência! O senhor que a cantarolava no chuveiro ao lado, aparentando uns 70 anos, certamente não era nascido na época. Herdou a canção dos pais, talvez. Como eu herdei da minha vó. E como talvez os netos dele também a tenham herdado.   
Terminando meu banho, sorri. Achei graça. Senti saudades.
E decidi: quero ser um velhinho como ele! 

28.1.15

O jeito nosso de cada dia...


Hoje, depois de longo e tenebroso inverno sem pegar um coletivo, retomei a relação com um exemplar da espécie. Tava tudo indo muito bem até eu perceber, menos de 100 metros depois do embarque, que o motorista simplesmente não conhecia o trajeto da linha. Mais: estava sendo guiado pelo cobrador.
Normal, pensei. Todo mundo precisa de auxílio quando começa num emprego novo. Relaxei. A viagem seguia com o trocador indicando os pontos para o piloto (esse é nosso! Nesse não, parceiro!) seguindo as indicações definidas pela prefeitura no tal do BRS - com o qual, aliás, também não tenho a menor afinidade, porque sou do tempo em que tudo que é ônibus parava em tudo o que é ponto, mas...essa é outra história...
Enfim, aquela espécie de curso prático de motorista seguia diante dos meus olhos quando, na Praia do Flamengo, veio o primeiro susto: o aprendiz de condutor queria fazer uma curva à esquerda - ignorando completamente o rumo a ser tomado. O cobrador, atento, corrigiu o equívoco e iniciou uma breve palestra sobre os limites de velocidade na praia do Flamengo. "Aqui é mais rápido andar de patinete ou carrinho de rolimão (sic) porque ninguém pode meter mais que 60", advertiu. Mas também não precisa andar a 30km/h, pensei, mas respirei fundo e me diverti com a situação. Primeiro dia, caramba. O cara tá inseguro. Super compreensível...
Eis que, no fim da Praia do Flamengo, o motorista novato não seguiu pela Praia de Botafogo. "Ih, me distraí, foi mal", gritou o cobrador-navegador, atrasado e ciente da confusão criada. 
- Que ônibus é esse, mermão? - berrou um passageiro.
- Não sabe dirigir, fica em casa! - advertiu uma senhora estressada e com voz de tenor.
- Pultaquimilpariu, resmungou o senhor que suava num terno no banco ao meu lado.
Não disse nada. A simpatia pelo motorista-de-primeira-viagem acabou, admito. Ele não tem culpa, claro. Mas não pode ser séria uma empresa - ou uma cidade - que permite uma situação dessas. Imagina um médico operando assim? Um engenheiro atuando assim? Não pode! Não dá!
"Quem quiser descer, desce aqui. É o jeito!", sugeriu o trocador, que também seria reprovado se estivesse sendo avaliado como formador de condutores. Puxei a cordinha e desci. Foi o jeito. O jeito que cada um de nós, o tempo todo, é obrigado a dar num país que se move aos trancos e barrancos; desprezando regras, leis, fluxos, processos; trocando tudo pelo jeitinho. 
Ê, Brasil...

12.1.15

Sobre "Abraçar e agradecer", o show de 50 anos de carreira de MariaBethânia...


Quando chegaram ao fim os versos de "O que é, O que é", de Gozaguinha, eu me senti agradecido. Não pelo fim do show ou da música, mas por haver testemunhado um show tão comovente, tão delicado e poético. Mérito do talento e da trajetória de 50 anos - ora justamente celebrada - de Maria Bethânia, a maior intérprete desse nosso país de cantoras. Não quero dar detalhes, não quero estragar surpresas. Mas quero registrar aqui a lindeza desse espetáculo e a alegria de ver Bethânia em cena, senhora de si e dos palcos; menina que brinca e baila sobre o LED moderna com a desconfiança de quem ainda traz no peito, na alma e na voz o cheiro de mato e a poeira das estradas e das entranhas do Brasil sertanejo, baiano, tupiniquim. Brasil que dialoga com os orixás da África, com a canção de Piaf e com Clarice e Fernando Pessoa. Bethânia já era global antes de inventarem a globalização, porque nunca perdeu o laço que sempre a manteve unida a Santo Amaro da Purificação. Fala de todo o mundo, suas dores e amores, falando das coisas de sua aldeia. Voou alto esse carcará! E que siga voando e nos fazendo olhar sempre pro alto. Voando e nos levando. Voando e nos elevando. Salve Maria Bethânia, a mais brilhante das estrelas dos céus do Brasil!!! 

15.12.14

Sobre a possível saída de Xuxa da Globo...

Xuxa fora da Globo? Emissora e assessoria da apresentadora ainda não confirmam a informação


A notícia da não renovação do contrato de Xuxa pela TV Globo sacudiu a internet nesta segunda. Ainda não confirmada, a informação gerou enorme repercussão nas redes sociais e Xuxa é trending topic no Twitter desde a publicação da nota, pelo Notícias da TV. Tanto barulho já permite supor que - se confirmada - a decisão da emissora pode não ser a mais acertada. Mesmo fora do ar desde o início de 2014, Xuxa é uma das artistas mais populares - e queridas - do país. Tem carisma, fãs e atrai anunciantes. Faltou, até aqui, competência para colocá-la à frente de uma atração que se encaixe ao seu perfil - e ao perfil desse imenso público.
A história da TV demonstra que falta tato ao lidar com grandes ídolos tidos como "ultrapassados". Chacrinha e Dercy Gonçalves já foram dispensados pela Globo, lá atrás, depois de ajudarem a consolidar a liderança do canal, por serem considerados popularescos demais para o chamado "padrão globo de qualidade". Hebe, mais recentemente, teve seu vínculo interrompido com o SBT - a despeito da sua enorme identificação com a rede de Silvio Santos - por não dar mais a audiência dos áureos tempos. Nos casos de Chacrinha e Dercy, a Globo se arrependeu anos depois e repatriou os artistas, trazendo-os de volta à telinha; oportunidade que o SBT não teve, dado o avançado estágio do câncer de Hebe Camargo, morta um dia depois de assinar um novo contrato com a emissora que era a sua cara. Outro astro de grandeza inquestionável, Chico Anysio também ficou na geladeira global até o fim da vida. Xuxa, ao que parece, será a protagonista de mais um capítulo dessa história...
Acho que há uma clara falta de posicionamento de Xuxa no atual contexto da televisão brasileira. Num momento em que as grandes redes investem cada vez menos em programas para as crianças, não faz sentido insistir em falar para o público infantil. Por outro lado, afastada de adolescentes e jovens dede que deixou o comando do Planeta Xuxa, a apresentadora perdeu o poder de influência sobre o público mais maduro. Xuxa ficou numa espécie de limbo: não fala mais para as crianças e se afastou dos "altinhos" que cresceram com ela. Um problema? Sim. Só há comunicação com interlocução - e se não há quem ouça, não há a necessidade de alguém que fale. Mas esse é um problema que pode ser solucionado reposicionando a apresentadora e criando para ela um formato capaz de atrair e reconquistar a audiência. O sucesso do Planeta Xuxa, que vem sendo reprisado pelo Viva, é prova mais do que clara de que há, ainda, muito espaço para a loira na TV. Ela só precisa soar interessante para a plateia, coisa que seus últimos programas jamais foram capazes de fazer. E aí, justiça seja feita, a culpa não é só da estrela.
Fica aqui um palpite: se a notícia for confirmada, aposto: Xuxa vai fazer barulho e sucesso onde quer que vá. 
A conferir... 

EM TEMPO: acabo de descobrir que fui bloqueado pela Xuxa - ou pela sua equipe - no Twitter. Alguém deve ter ficado xatiado com alguma piada que fiz por lá. Bobagem. Não dá pra se levar a sério o tempo todo. Mas esse pequeno incidente (diplomático) não me faz mudar minha opinião. Xuxa é estrela de alta grandeza da televisão brasileira. Merece respeito e reconhecimento. Seja qual for o caminho que estiver pela frente, toda a sorte do mundo pra loira...

27.10.14

Viva o Nordeste!!!


Tenho sangue nordestino nas veias: meu pai era de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Se não fosse carioca e se não amasse tanto a minha cidade, escolheria Salvador pra viver. Pela beleza de suas praias, pela comida maravilhosa, pelo astral que a gente sente no ar assim que chega, por ter dado ao país tanta gente boa pra fazer música, pelo carnaval que adoro, pelo povo festeiro e carinhoso! E aí, meu rei, se morasse em Salvador, eu seria uma espécie de desbravador do nordeste...
Sim, porque se morasse em Salvador, eu estaria sempre na bela Aracaju, iria me esbaldar vez por outra em Mangue Seco, curtiria finais de semana na bela Fortaleza ou em João Pessoa...
Iria sempre ao Recife, terra linda, que dizem ser a mais bonita da América Latina, lugar de tantos amigos amados. Passaria sempre em São Luís, pra lembrar das cores, cheiros e sabores que só o Maranhão tem. Passaria os feriados prolongados em Maceió, o Caribe brasileiro, dona do mar mais bonito que pode existir: cristalino, quentinho e acolhedor. 
Se morasse em Salvador, meu sangue nordestino ia me levar a conhecer Teresina, capital do Piauí, única parte dessa região tão fantástica que ainda me falta visitar.
Eu amo o nordeste! 
Hoje, se há algum verdadeiro motivo pra se estar de luto, me desculpem, é a exacerbação de tantos e tão deploráveis preconceitos nessa rede social.
E se você, meu amigo, minha amiga, está de luto e não é preconceituoso, um alerta: você está se perdendo num mar de gente que destoa de tudo aquilo que se pode julgar como admirável; está usando o mesmo rótulo que está sendo usado por gente que tá por aqui propagando o lado mais degradante do ser humano...
Viva o Nordeste! 
Viva o povo nordestino! 
E viva o Brasil!!!

11.6.14

Pela leveza do amor...

Li ontem que ruiu parte da grade da Pont des Arts, onde os amantes prendem cadeados para segurar - ou assegurar ? - paixões. A ponte parisiense não suportou o peso dos milhares de objetos depositados no gradil por turistas do mundo todo...
Turistas do mundo todo querendo que seus amores durem para sempre. 
Amores presos?
Sempre?
Perguntei no Facebook se o romantismo também ruira, ou se o amor é pesado demais. Um amigo retrucou, dizendo que o amor não pode ser aprisionado. Quando o é, pesa.
Espertalhão esse amigo! Mas desconfio que o amor ande mesmo pesado. Por isso, talvez, esteja se arrastando por aí, desencontrado de tanta gente. Pesam sobre seus ombros as escolhas, as abdicações necessárias para que possa caminhar sereno, tranquilo. Pesam sobre suas costas o egocentrismo, a intolerância e a impaciência; que acabam por inviabilizar um mergulho mais profundo num olhar outro, num ser outro e num outro ser. Pesam atados às pernas do amor o imediatismo e o descarte fácil, que acabam por motivar os envolvidos a deitar fora o que lhes parece como algo - alguém ? - sem serventia...
Pesa, enfim, sobre a cabeça do amor um conflito entre o que aqueles que parecem buscá-lo dizem que fazem e a forma como de fato agem. 
Pobre amor esse do nosso tempo. Com todo esse peso, como vai poder lembrar a todos nós que bom é amar com leveza, sem cobranças, angústias, ansiedade? Como vai nos mostrar que amor não é mar de rosas full time; que requer investimento, dedicação, paciência, sinceridade? Como vai provar que amar é uma escolha diária, um compromisso que se reafirma cotidianamente, dentre muitas opções que a vida oferece? É renunciar a algo que até pode parecer encantador, por crer que muito mais encanto tem o que se pode construir juntos, com afeto, parceria e sinceridade.
Não tenho as respostas. Mas, assumo: torço pra ver o amor novamente leve, e andando de mãos dadas com um monte de gente boa que tá por aí, com as mãos enfiadas no bolso. Ou com a cara enterrada no celular, enquanto não encontra olhos que pareçam mais interessantes, encantadores, desafiadores, atraentes e divertidos que a tela do Facebook...

26.2.14

Acorda, Brasil!

Meus amigos me definem como um otimista. Acho que estão certos. Entre tantas formas de ver o mundo, tendo a enxergar sempre a que oferece possibilidades de avanço, crescimento. Creio na melhoria, o que não faz de mim um alienado, claro. Mas é muito difícil pensar dessa forma quando a gente se depara com uma vida real muito, muito diferente do que se acredita ser o melhor. Agora, lendo um post de um amigo, vi um comentário - de um amigo do meu amigo - celebrando a condenação de homossexuais a pena de morte em Gana. 

Sim, celebrando! 

Pode ser uma brincadeira idiota apenas, mas não me engano: muita gente pensa assim. Muita gente acha que as diferenças devem ser eliminadas sempre - como se isso resolvesse problemas criados por ideologias, não pelas pessoas. É gente que quer ver gay morto, pobre exilado em favelas cada vez mais distantes e inóspitas, beneficiários do Bolsa Família voltando a passar fome sem o benefício e menores infratores sendo linchados em praça pública - como voltou a ocorrer hoje. Isso só pra citar alguns exemplos. Gente que coloca o próprio umbigo acima de qualquer valor humanista e que afasta, de pronto, qualquer possibilidade de diálogo e de entendimento com o que lhe parece diverso. Essa gente desorientada que  não vê incoerência entre vaiar o prefeito e celebrar o carnaval atrás do bloco que a prefeitura patrocina - achando o máximo o fato de a folia ter crescido tanto aqui no Rio nós últimos cinco anos. Uma gente de quinta que briga por tudo, que destrata, maltrata e não se retrata. 

Acorda, Brasil. Se o país é essa merda toda, é porque sobra esterco no DNA de todos nós. E não precisa de laboratório nenhum pra constatar: e só sair na rua pra ver. Ou navegar um pouco nas redes sociais...

13.2.14

A política na era das redes sociais x o caos da informação e das opiniões

Se um amigo turista, capaz de entende português, abrisse o Facebook e fosse ler os meus feeds teria imensa dificuldade para fazer uma leitura racional dos últimos acontecimentos. Isso porque as redes sociais se converteram numa miscelânea de leituras - todas pretensamente politizadas - do momento atual. Um post, compartilhado por uma famosa colunista de O Globo, atribui a Dilma, Cabral e Eduardo Paes a "infiltração de baderneiros nas manifestações". Outro, lança dúvidas sobre a isenção de Marcelo Freixo, do PSOL, e aponta para uma suposta leniência da legenda em relação aos "black blocks". Muitos se arvoram no papel de peritos e duvidam da identidade do rapaz de camisa cinza, divulgando - sem parcimônia - fotos de um outro rapaz, como se fosse esse - até então desconhecido - o responsável pelo lançamento do rojão que atingiu e matou Santiago. E por aí vai...
Entendo a avidez pela "verdade". Mas acho que esse furor, potencializado pelo poder e pela velocidade da informação compartilhada em tempo real pode causar muito ruído. O rapaz da camisa cinza, por exemplo, postou um longo desabafo no próprio Facebook, reclamando do compartilhamento de sua foto e alertando para o fato de ter sido acusado sem provas. "Virei bandido?", pergunta. Se quisesse, poderia processar todos os que compartilharam suas imagens e lhe atribuíram a responsabilidade por algo de que se alega inocente.
Quanto ao uso político das manifestações, nitroglicerina pura. Mas supor que, em ano eleitoral, a presidenta da república esteja por trás das ações violentas desses manifestantes me parece uma hipótese fantasiosa - para dizer o mínimo. Será que os defensores desse argumento não imaginam que Dilma será questionada pelos oponentes exatamente pela inda de protestos violentos que tomaram o país? Esqueceram como o governo se mostrou surpreendido pela violência das mesmas manifestações, o que provocou, inclusive, um pronunciamento em cadeia nacional? Isso tudo é desgaste, gente. Desgaste que a presidenta enfrentou ao se posicionar publicamente sobre o tema - o que, aliás, ela tem feito muitas vezes desde então.
Cabral, que parece ter desistido de governar há tempos, sinceramente não me parece em vantagem ao orquestrar um plano como esse. Toda a sua impopularidade só tem crescido desde o início das passeatas. Adicionar à essa mistura um punhado de violência arruinaria ainda mais sua imagem. Seria a pá de cal sobre toda e qualquer pretensão política futura. 
Eduardo Paes tem a simpatia de boa parte do eleitorado. Pode mudar, mas ainda é assim - sobretudo nas comunidades e no subúrbio. O aumento das passagens de ônibus, definido por ele, está na origem das manifestações cariocas. Mas a impressão que se tem é a de que, apesar de tudo isso, o prefeito atravessa esse momento conturbado sem grandes prejuízos em sua imagem. E isso se deve ao caos vivido pelo carioca por conta das obras para as olimpíadas, às constantes mudanças no trânsito e a outras ações que transmitem à boa parte da população a ideia de que o prefeito está fazendo o seu trabalho. 
Freixo, cujo nome apareceu no noticiário numa manchete que envergonha qualquer jornalista sério, parece realmente correto demais para usar recursos tão odiosos em nome de uma eventual chegada ao poder. Se tem um pecado - e, na minha opinião, talvez seja esse seu calcanhar de Aquiles - foi não deixar claro para a opinião pública que seu apoio se limitava aos manifestantes que foram vítimas de ações violentas da polícia, e que, portanto, não se estendia a black blocks saqueadores de loja, depredadores de agências bancárias e afins. Por boa vontade e, talvez, por uma certa inocência política, acaba tendo o nome vinculado a ações que desagradam o eleitorado que poderia migrar para sua candidatura nas próximas eleições. Resta saber como vai virar esse jogo...
Mas há outros importantes atores políticos em jogo. Gente que quer sepultar Cabral, desestabilizar Paes e inviabilizar Freixo. Há de tudo. A coisa é sempre mais complexa do que parece. Por isso, a meu ver, é preciso ter muita cautela antes de sair compartilhando qualquer coisa por aí. Sem querer,  podemos estar cumprindo exatamente um script elaborado por gente da pior espécie, com as piores intenções. 
Mas essa é apenas a minha opinião...

1.2.14

Sobre aquele beijo de Niko e Félix...

Sinal dos tempos: dois homens se beijaram em horário nobre pela primeira vez no Brasil ontem
Walcyr Carrasco é um grande autor. Em seu currículo estão sucessos como "Xica da Silva", "O Cravo e a Rosa", "Chocolate com Pimenta", "Alma Gêmea" e "Caras e Bocas". Êxitos que o credenciaram a entrar no rol seleto dos autores que escrevem para o principal horário de novelas da Globo. A estreia foi morna. Não fosse pelo absoluto acerto na construção de Félix e pelo estupendo desempenho de Mateus Solano na defesa do personagem, talvez a novela tivesse se perdido num mar de tramas um tanto quanto frágeis. Mateus Solano levou a novela e deixou na história da TV brasileira um grande tipo, uma criação que será lembrada por muito tempo.
Com 221 episódios, depois de esticada em quase dois meses - o usual é que as novelas das nove tenham 180 capítulos - "Amor à Vida" conseguiu o improvável: promover a conversão de um vilão em protagonista! Detestável ao longo de 80, 85% da trama, Félix se arrependeu dos seus pecados e se tornou ainda mais querido pelo público. Ganhou um amor e, outrora conservadora, a audiência comprou a ideia e passou a torcer pelo happy end do ex-vilão. A pergunta que pairava no ar, no entanto, era: haverá beijo gay?
Horas antes da exibição do último capítulo de "Amor à Vida", ontem, críticos de televisão já especulavam sobre a exibição da cena envolvendo os personagens de Mateus Solano e Thiago Fragoso. Mais que isso: alguns apontavam que a direção da TV Globo estava decidida a romper esse paradigma, derrubando o tabu que ganhou força desde 2005, quando uma cena de beijo da novela "América", entre os personagens de Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro foi surprimida por ordens dos executivos do canal horas antes da transmissão do episódio, frustrando a autora, Gloria Perez, e os demais envolvidos na produção.
Ontem, o Brasil viu um beijo gay em horário nobre. De casa, ouvi gritos de uma torcida anônima, da qual sequer poderia imaginar a existência. Postei isso no twitter e recebi mensagens relatando episódios idênticos em várias partes do Rio, do Brasil. Por telefone, minha mãe contou que foi assim também perto da casa dela. Vejam vocês! Em tempos de tanto preconceito, em tempos cheios de crimes de ódio, há um Brasil que torce pelo amor! E que não se importa se ele une pessoas do mesmo sexo ou não.
Mais do que um desfecho coerente para uma história bem construída entre dois personagens carismáticos, o beijo tem um relevante papel social: ele naturaliza a expressão de uma outra forma de amor, de uma outra possibilidade de ser, de existir e de amar. Há um Brasil que já sabia de tudo isso. Há um Brasil que fingia não ver isso. E há um Brasil que quer negar isso. Ontem, simultaneamente, esses três Brasis viram isso. Hoje, crianças não amanheceram gays. Maridos não largaram suas esposas para ficar com outros homens. Não houve registros de episódios de depravação em locais públicos. Houve, sim, muita gente enaltecendo a beleza do amor, do respeito e da aceitação. Gente impactada pelo beijo sim, mas também - e talvez ainda mais fortemente, pela linda cena final de "Amor à Vida", quando César, o pai homofóbico, aceita e declara seu amor pelo filho gay, fazendo Félix chorar copiosamente. Uma cena antológica, das mais delicadas que a teledramaturgia brasileira já conseguiu produzir. Aliás, vale dizer que quando Walcyr Carrasco apresentou à direção da TV Globo a sinopse de "Amor à Vida" a trama se chamava "Em nome do Pai". Ontem, terminada a exibição do desfecho da novela, percebi que o título original fazia muito mais sentido que o definido para substituí-lo. 
Depois da exibição da cena entre Félix e Niko a Central Globo de Comunicação divulgou uma nota afirmando que a cena acompanha o momento histórico que vivemos. Taí uma verdade: com atraso, sobretudo em relação ao que já vemos nos canais fechados, o beijo de ontem retrata outros tempos, de maior entendimento sobre a diversidade. Um entendimento que está relacionado aos avanços das políticas de Estado, às recentes decisões judiciais e à luta árdua dos militantes sociais, abnegados defensores dos direitos humanos e do respeito à pluralidade. 
O Brasil de 2014 é muito, muito melhor que o de 2005! E quero crer que o Brasil do futuro, daqui a 10, 20, 30 anos, será infinitamente superior ao país que temos hoje. 

14.1.14

A cara do preconceito!

Âncora do SBT Brasil faz comentário sobre os "rolezinhos" e desfila todo o seu rosário de conservadorismo e preconceito
Soube de um comentário de Rachel Sheherazade sobre o fenômeno dos "rolezinhos" em shoppings e me obriguei a assisti-lo. Comprovei o que já havia percebido em outras ocasiões: essa senhora me envergonha! Não é de hoje que percebo o tom conservador, quase reacionário dos seus comentários demagógicos. Rachel Sheherazade não sabe sequer para qual público fala. Afinal, as pesquisas do Ibope comprovam que a audiência do SBT está muito mais para "rolezinho" do que para os frequentadores dos "shoppings de luxo", cuja ordem e "segurança" ela parece tão empenhada em defender. Notem bem: ela se mostra incomodada com a possibilidade de que os "arruaceiros" cheguem aos centros de consumo das elites. Ou seja: considerando que há baderna, que ela fique restrita às periferias. Que vergonha! 
Que vergonha de uma justiça que permite que shoppings se voltem contra pobres - porque é isso o que esses centros comerciais farão - e, assim, justifiquem seus preconceitos. Não vai tardar para que pretos e pobres sejam barrados nesses locais apenas por essas condições. Ou por estarem de havaianas. Ou por estarem de bermudas. Ou por qualquer subjetividade que o preconceito de um idiota qualquer julgue cabível. Assim, meus caros, o que se solidifica é a realidade que todos nós já sabemos: há lugares em que os ricos não querem que os pobres cheguem! Porque não querem olhar a realidade, não querem se sentir parte dela. Querem fingir, em seus templos do artificialismo, que a diversidade não existe, e que seu mundo perfeito não inclui nada que lhes pareça diferente. Uma vergonha! 
Mas ricos escrotos não me surpreendem. O que me surpreende é que um dos poderes da nossa república enfatize essa lógica elitista, excludente e preconceituosa. Como se não houvesse outras prioridades para a Justiça do país. Ou como se não existissem outras (verdadeiras) ameaças aos direitos básicos dos cidadãos por aí - não só nos shoppings de luxo, mas no Brasil da vida real. 
Vergonha, muita vergonha!!!

14.12.13

E eu vi, enfim, uma palestra do Lula...

Aproveitei uma tarde livre no meio dessa semana agitada aqui em Brasília e dei um pulo no Fórum Mundial de Direitos Humanos. Estava cansado, arrumado demais pra ocasião e com muito sono, depois de uma noite em que havia dormido apenas por duas horas e meia. Mas a missão merecia o esforço: queria aproveitar a oportunidade de ver, ao vivo, uma palestra do ex-presidente Lula.
Sempre achei Lula um grande comunicador, capaz de conquistar plateias de todos os tipos com suas falas inflamadas, emocionantes e divertidas. Por isso, não hesitei em esperar, apesar do atraso de uma hora no início da mesa que teria a presença do metalúrgico mais famoso da história do Brasil...
E Lula veio em sua melhor forma. De cara, disparou: "Tenho aqui um discurso preparado para essa ocasião mas, de cara, vou abandoná-lo". Aplausos. Lula não tardou a dirigir sua fala aos manifestantes que faziam barulho e erguiam faixas, os mesmos que, pouco antes, haviam vaiado muito o discurso da presidenta Dilma. "Não tenho medo de cara feia, se tivesse, nem teria nascido! E teria morrido assim que me vi no espelho". Em meio às gargalhadas da plateia - que sufocaram e logo puseram fim aos protestos, o ex-presidente se pôs ao lado dos manifestantes: "É natural que se queira mais! O governante tem que saber ouvir críticas, porque muitas vezes está cercado de gente que só faz elogios". E prosseguiu: "Mas não se pode esquecer do quanto esse país avançou nós últimos anos."
O auditório, atento, passou a prestar atenção. Lula citou os mais de 20 milhões de brasileiros retirados de uma situação de extrema pobreza nos dois governos do PT. Lembrou que foi o presidente que mais construiu escolas técnicas na história do Brasil. E disse: "Fui candidato à presidência por três vezes e perdi. Poderia ter desistido, mas não desisti porque eu sabia que eu, um operário sem diploma universitário, poderia entrar para a história como o presidente que mais fez pela diversidade nesse país". Foi ovacionado e o auditório se rendeu a essas inegáveis conquistas.
"Vocês acham que eu não sei que sou odiado por muita gente?" - prosseguiu - "Eu sei! E como sei! Sou odiado por quem acha absurdo o pobre estar na universidade! O Brasil nunca teve tanto pobre estudando ora doutor, minha gente! Sou odiado pela madame que vê sua empregada chegar pra trabalhar na segunda usando o mesmo perfume que a patroa colocava nas noite de sexta pra ir jantar fora! E sou odiadopor aqueles que adorava viajar de avião com a poltrona do meio vazia, mas agora não podem mais fazer isso porque o pobre também tá andando de avião!"
Voltou-se para os jovens manifestantes e disse: "Vocês têm razão de querer mais saúde, mais educação, de quererem o fim da corrupção! Eu já levantei todas essas bandeiras! Tenho bursite de tanta bandeira que carreguei! Mas a desgraça do jovem é negar a política! Se você quer uma política diferente, entre você para a política e faça a diferença! Porque, acreditem: a desgraça de quem não gosta da política é ser governado por quem gosta dela!".
Saí do auditório como quem acaba de ver um show memorável. Aliás: vi mesmo um grande show! Lula é um orador carismático, tem alto poder de comunicação e uma oratória que toca diretamente no coração de todos que estão comprometidos com esse Brasil mais plural, diverso e inclusivo que brota em todos os cantos. Sou um desses. E agora posso dizer que, um dia, numa tarde abafada de Brasília, vi bem de perto o cara que começou a mudar essa história...

27.10.13

Ivete Sangalo e Silvio Santos: encontro de gigantes no Teleton 2013




Noite de sábado, em casa, sozinho. Troco de canal e me deparo com o Teleton. Parei pra ver na hora, claro. Como disse no Twitter, acho que essa campanha é um dos maiores acertos do SBT. O programa é um formato importado, criado por emissoras latinas - o que torna ainda maior sua identificação com a emissora de Silvio Santos. Aqui a causa é pra lá de nobre: o dinheiro das doações vai para a AACD,  mantenedora de centros de reabilitação para o tratamento de pessoas com deficiência.
A madrinha do projeto foi Hebe Camargo, como Silvio sempre faz questão de lembrar. Contratada do SBT, ela convenceu o patrão a embarcar na iniciativa. Hebe e Silvio acreditaram na solidariedade do povo brasileiro e, hoje, o tempo mostra que estavam certos...
Nesta noite, no entanto, o show foi de uma outra dupla. Se tradicionalmente Silvio Santos e Hebe encerravam a maratona televisiva juntos, desta vez o previsto era um desfecho em família: ao lado do dono do SBT estavam a filha, Patrícia, e o neto, Tiago Abravanel. E a atração musical era Ivete Sangalo. Mas bastaram poucos minutos em cena para Ivete e Silvio tomarem conta palco. Num bate-bola afiadíssimo, fizeram o auditório e o público de casa gargalhar. O carisma dos dois é incontestável, e resultou num espetáculo que deixou Tiago e Patrícia relegados à figuração. Teve de tudo: Silvio pisando no pé de Ivete durante uma dança, a cantora segurando dálias para o eterno Homem do Baú ler seus textos, poses para fotos do Instagram e muitos momentos hilários. Ao autografar as sandálias doadas para o leilão da campanha, Ivete ouviu Silvio criticar sua assinatura. "Não me venha cobrar caligrafia bonita que eu sou cantora, não preciso!". Ele também fez graça: "Ivete, até que você ainda tá bem...", brincou, pra logo elogiar a forma da baiana.
Mas o momento mais engraçado da noite - além da hora em que Silvio confundiu a marca de cosméticos Nívea com uma suposta convidada, perguntando: "Quem é Nívea? Cadê a Nívea?" - foi quando Ivete, num número digno dos melhores espetáculos de stand up comedy, imitou vários quadros de programas eternizados por Silvio Santos. Às gargalhadas, o dono do SBT não fez questão de esconder o quanto estava gostando da farra. Em um determinado momento, chegou a dizer: "Ivete, além de cantar você pode ser apresentadora".  Ela logo devolveu: "É só você me dar um programa aqui..."
Foi um programa memorável. Ivete Sangalo, goste-se ou não de suas músicas, é uma das personalidades mais carismáticas e versáteis do showbizz brasileiro. Hoje, na minha opinião, ela fez uma de suas melhores apresentações na televisão - e lá se vão 20 anos de carreira. Deixou o maior apresentador do país sem palavras, convertido ao papel de espectador. E comandou a festa da solidariedade com irreverência e alegria, suas marcas registradas. Antológico!
Em tempo: com Ivete no palco, o Teleton permaneceu na liderança da audiência. Por volta de uma da manhã, o SBT marcava 11 pontos. Sinal de que o público entendeu que o momento era mesmo único...  

7.5.13

Fantástico mostra a caçada a traficante e acende polêmica na internet

Reportagem expõe fragilidades da operação da polícia carioca na favela da Coreia 

Habituado a jogar games de tiros desde os tempos do Counter Strike, até os recentes Battlefield e Call of Dutty; vi bastante espantado as imagens exibidas pelo Fantástico ontem. Na tela, em ritmo frenético, policiais a bordo de um helicóptero da Polícia Civil caçavam o traficante Matemático. Sobrevoando uma favela, a força do Estado disparou uma enxurrada de tiros para deter o inimigo.
Fiquei chocado. Não com a morte do traficante - fato rotineiro e que, nesse caso, pareceu-me até menos impactante. Fiquei chocado ao ver o volume espantoso de disparos desferidos contra uma área residencial, civil, no meio de uma noite. Por mais que os envolvidos na operação neguem, é impossível afirmar que a população não tenha sido exposta a um enorme risco. E mais: é impossível dizer que os responsáveis por aquela ação tivessem segurança de que não haveria baixas entre os cidadãos que habitam a área. O que vimos foi um vale-tudo, em que, embora sem que isso tenha sido dito, a polícia assumiu os riscos de ferir e/ou matar inocentes em troca da cabeça do alvo da vez. 
"Mas não houve vítimas", podem dizer os defensores da operação. Sim, ao que parece, não houve vítimas. Mas não acho leviano afirmar que se ninguém morreu foi por obra da sorte. Ou da Graça Divina. Ou de um ou outro Anjo da Guarda de prontidão. Porque os tiros cravados nas residências da favela não deixam dúvidas: de precisa aquela caçada não teve nada!
Não bastasse o susto com o flagrante despreparo da força policial, fiquei novamente espantado ao ver a repercussão das imagens mostradas pela TV Globo nas redes sociais. Enxergando na reportagem uma defesa à vida do bandido, vi vários amigos descerem o pau na matéria. "Deixem a polícia trabalhar", dizia um. "Quantos inocentes morreriam se ele ficasse vivo?", questionava outro. Mas não vi ninguém, absolutamente ninguém, questionar o risco ao qual todos aqueles moradores, inocentes, estiveram expostos naquela noite. Calados ou, pior, defendendo a ação da polícia, o que todos fazem, ainda que de modo inconsciente, é legitimar uma polícia que trata de modo desigual pobres e ricos. Uma polícia que age com prudência e cautela nas áreas nobres e "larga o dedo" quando o alvo está escondido em favelas. É como se dissessem que "favelado pode acordar com tiro de fuzil furando suas casas". É como se achassem justo que, para proteger ricos e classe média, pobres sejam sacrificados por uma rotina de incursões policiais atabalhoadas e que, não raro, acabam por vitimar crianças, mulheres, velhos e cidadãos inocentes, moradores de comunidades dominadas pelo tráfico e massacradas por uma polícia que, quando surge, parece fazê-lo com o único objetivo de espalhar medo e insegurança por todos os lados.
É só refletir: alguém já viu um helicóptero dar rasantes sobre Ipanema, distribuindo tiros de modo quase aleatório? Quando foi capturado Nem, apontado como liderança do tráfico na favela da Rocinha, ouviu-se algum disparo? Respondo: não! À ocasião, aliás, cabe dizer que a polícia usou a mesma tecnologia de imagens para localizar e capturar o bandido na Gávea. Ali, sim, a precisão esteve presente. E os moradores da Zona Sul não ouviram um único estampido. Por que será?
O fato é que construímos, ao longo do tempo, uma polícia que trata de modo discrepante quem já é vítima da desigualdade. Quem mora numa favela não quer correr o risco de ser alvejado por uma bala de fuzil. Esse risco já está imposto pelo tráfico. A polícia, em suas operações, deve primar pelo zelo com a segurança dos moradores inocentes. É claro que aqui, como em qualquer parte do mundo, acidentes podem acontecer. Comunidades como a que foi mostrada na reportagem do Fantástico são densamente povoadas, a ocupação do terreno é irregular e esses são fatores que complicam as incursões do Estado. Mas, a julgar pelo que vi, acidente é uma operação como aquela transcorrer sem que nenhum inocente seja vitimado. Acidente é disparar trocentos tiros, acertar prédios e casas e, ainda assim, não matar moradores honestos.
Não sei quanto a vocês, mas o mínimo que eu posso esperar de uma polícia é que ela não conte com a Graça Divina, com a sorte ou com a benevolência de Anjos da Guarda ao fazer suas operações. A vida do cidadão – no asfalto  ou na favela – é bem maior, que deve ser garantido e preservado pelo Estado em quaisquer circunstâncias, seja onde for. E não há “remédio amargo” que justifique que a sociedade continue a tomar veneno e esperar se curar de toda essa violência.