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2.3.15

Rio 450: que cidade estamos celebrando?

O "meu Rio" passa por aqui. É alegre, festeiro e bonito. Tem problemas. Mas é real...
Ontem, primeiro de março de 2015, o Rio de Janeiro completou 450 anos. Mas, ao menos na maior parte dos jornais e do noticiário da TV, o aniversário parecia ser apenas de parte da cidade. Sim, a Zona Sul foi celebrada como a mais perfeita tradução da carioquice; como se o Rio estivesse limitado aos contornos da orla, aos calçadões, monumentos e postais das praias, praças e avenidas com os IPTUs mais caros da capital fluminense.
Sobre o Rio de Padre Miguel, Bangu, Realengo e Campo Grande não vi palavra. Santa Cruz? Nada! Valqueire, Irajá, Vaz Lobo, Méier, Senador Vasconcellos, Jabour, Sulacap, Campinho, Cascadura, Praça Seca, Freguesia...todos igualmente esquecidos. Pareciam partes de um Rio que pouco, quase nada tem a comemorar. Isso sem falar na Coreia, no Alemão, em Costa Barros, Vila Kennedy, Acari, Cesarão, Rio das Pedras, Engenho Novo; áreas de uma cidade que segue partida e que, sabemos, realmente têm poucos motivos para qualquer celebração.
Os jornais e as emissoras de TV até se esforçam, vez ou outra, mas em episódios como esse fica evidente o desconhecimento e a distância que suas redações conservam do Rio real; que está afastado dos pontos turísticos, dos lucros exorbitantes das empreiteiras sempre tão interessadas em obras faraônicas, dos homens e mulheres sarados que lotam as praias de segunda a segunda. Na TV, em geral, periferia só aparece quando o assunto é violência. E, uma vez por ano, no carnaval; quando o restante da cidade parece se lembrar  de que é das comunidades mais populares que emerge a mais genuína das expressões da cultura popular: o samba.
Lembro de um episódio que foi muito marcante na minha formação. Faz uns 10 anos. Eu já trabalhava na TV e me surpreendi com uma manchete em letras garrafais que estampava a página de um grande jornal. A notícia era um tiroteio no Leblon, "à luz do dia". Tiroteios são sempre assustadores, claro; não se pode tomá-los com naturalidade. Mas a razão do meu espanto era o tom da matéria; como se fosse aquele um fato inadmissível não pela violência, não pelo uso indiscriminado das armas, mas única e exclusivamente pela localização do confronto. Dava a clara impressão de que, fosse na Rocinha, na Taquara, na Ilha do Governador ou em qualquer área menos valorizada, o tiroteio seria aceitável; normal, até. Mas ali, no Leblon, talvez a poucas quadras dos apartamentos dos donos do jornalão; ali, não!
Fiquei chocado! E nunca vi o jornal dar o mesmo destaque a qualquer episódio semelhante acontecido no subúrbio, na zona oeste ou em áreas "menos nobres"
do Rio. Claro: o Rio, para eles, sempre foi o que está além do túnel.
Mas o Rio de verdade resiste, sem filtros embelezadores, sem photoshop e sem sair nos jornais. Resiste apesar dos políticos, apesar da violência, apesar dos autos de resistência que encobrem o extermínio de uma geração inteira, apesar do trânsito caótico, apesar dos serviços que só pioram, apesar da intolerância de quem invade e destrói terreiros por não aceitar a coexistência de outras crenças, apesar do ódio homofóbico que não percebe a inequívoca vocação deste lugar para o amor, apesar das balas - e de algumas esperanças - perdidas, apesar dos sonhos negados pra quem vem - e vive - nas periferias, apesar da especulação imobiliária e apesar da eterna despoluição da Baía de Guanabara; apesar de tudo isso, o Rio resiste! O Rio segue sendo a capital da beleza e do caos, segue com 40 (e tantos) graus, segue sendo a mais maravilhosa dentre as maravilhosas cidades do mundo. O Rio segue sendo meu orgulho, minha casa e minha paixão.
Parabéns, Cidade Maravilhosa! E que os próximos 450 anos sejam melhores para os cariocas de todas as partes...

13.1.15

Hildegard Angel, Silvia Pilz e as polêmicas do dia...


A produção de duas colegas de profissão assombrou boa parte do meu dia. Hildegard Angel escreveu em seu site sobre sua reação diante dos arrastões que enfeiaram o domingo de verão nas areias de Ipanema. Sob o impacto das tais cenas, a jornalista sugeriu que, em dias mais movimentados, ônibus vindos da Zona Norte fossem impedidos de chegar à Zona Sul. E mais: caso a medida não se mostrasse eficaz, Hilde defendeu a cobrança de ingresso para as praias do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon. Tá bom pra você?
Mas não parou por aí. Nas páginas de O Globo, Silvia Pilz publicou em forma de artigo um texto que mais parece saído de um dos monólogos de Caco Antíbes, o célebre personagem de Miguel Falabella no extindo "Sai de Baixo". Caco, vocês lembram, odiava pobres. E o texto da colunista faz crer que ela não está longe disso...
Enxovalhada pelas críticas, Hildegard Angel voltou ao site e escreveu o que, segundo ela, seria uma versão melhorada, com uma "revisão de conceito". Como os críticos não se calaram nem assim, a jornalista radicalizou: deletou a postagem e publicou no lugar a frase: "Acabou-se o que era doce, a vitrine cansou de levar pedrada por hoje...". Mas no facebook de Hilde, as pedradas continuam vindo de todas as partes.
Silvia Pilz não se manifestou. Em seu Facebook, respondeu a um dos (inúmeros) críticos dizendo que não se arrependia de "escrever com humor". Pois é, pode até ser, mas não prevejo uma noite fácil para as duas...
O meu assombro diante dos textos de Hildegard Angel e Silvia Pilz tem razão de ser. Sou mal acostumado, admito. Pequeno, lá pelos 9, 10 anos, lia Artur da Távola nas páginas do Caderno D de "O Dia", jornal que meu pai lia diariamente. No mesmo "O Dia", lia o Ronaldo Bôscoli falar de coisas que eu ainda não tinha maturidade pra entender perfeitamente. Mas lia. Admirava. Já devia ser um sinal da minha vocação esse apreço por quem sabia tratar bem as palavras...
Cresci lendo mais e mais. Maior - e, sobretudo, depois de já profissional - virei um fascinado pelos textos de gente como Veríssimo, Zuenir Ventura, Tutty Vasques, Xexéo, Dorrit Harazim, Elio Gaspari, Joaquim Ferreira dos Santos. Com o passar dos anos, tive a sorte de virar amigo de gente que já admirava pelo trato cuidadoso com as palavras, essa nossa matéria-prima tão cara. Gente como Fernando Molica e Flávia Oliveira. E, mais recentemente, tive a sorte de conhecer novos talentos desse gênero, como o Gregorio Duvivier. Por isso, sem sequer refletir sobre, associei desde sempre que colunista é aquele que tem o que dizer e sabe como dizer com clareza, beleza, respeito, coerência e ética. Colunista é quem tem compromisso com a sociedade; com sua melhora permanente; compromisso de combater preconceitos; de nos lembrar a todos dos momentos ruins que a história nos reservou para que possamos evitar vivê-los novamente lá na frente. Colunista é quem tem coragem de tocar nas velhas feridas sem que outras novas sejam abertas. Colunista é alguém que tem interesse por tudo. E que, exatamente por isso, parece-me um alguém sempre tão interessante... Triste constatar que, de uns tempos pra cá, pra ser colunista essas habilidades não parecem tão fundamentais. E mais triste ainda é perceber que esses profissionais que ocupam os espaços nobres dos jornalões influenciam tanta gente com seus textos cheios de preconceitos, estereótipos e desserviços. E depois os jornais não sabem de onde vem a onda crescente de insatisfação do público. Não sabem o porquê de estarem perdendo assinantes. E não sabem a origem da crise...

7.10.14

Não sou PT...


A gente vive um período muito curioso. Todos somos rotulados seguindo uma lógica muito cartesiana: se não é isso, é aquilo. Pois bem. Escrevo isso pra dizer que acho curioso que vários amigos me rotulem de "petista". Não sou PT - e digo isso não por achar que seja algo desabonador sê-lo. Apenas não o sou, como não sou vascaíno, não sou casado e nem sou vegetariano.
Não votei num candidato do PT para a assembleia legislativa. Não votei num candidato do PT para a câmara dos deputados. Não votei num candidato petista para o governo do estado e tampouco votei num candidato do PT - ou apoiado por ele - para o senado. Não sou PT e nem acredito nessa lógica em que um partido parece estar acima de tudo.
Acontece que, embora eu não seja PT, também não sou cego e muito menos insensível. Também não sou "desinformado", como os eleitores do PT foram (des)qualificados pelo ex-presidente FHC, em quem, aliás, já votei. Petista vota em tucano?
Pois bem, não sou PT, mas conheço o Brasil que está além dos telejornais e das páginas de revistas e jornais. Conheço um Brasil que a mídia tradicional não cobre e que está longe dos grandes centros. Um Brasil em que os sonhos e as oportunidades estão chegando a lugares que o restante do país só costumava associar à miséria e à fome. Vejo um país que assistiu a uma expansão do ensino superior inédita. Que assegurou - e segurou - trabalho e renda em meio a uma das piores crises internacionais de todos os tempos. Um país que não é mais tutelado pelo FMI. Esse novo Brasil, no qual quem nunca sonhou em sair da própria cidade viaja de avião; em que filho de pedreiro faz mestrado e em que manicures podem ver seus filhos fazendo intercâmbio no exterior; em que há cada vez mais negros nas universidades; esse país, meus amigos, me parece muito mais nosso - de TODOS - do que o país de antes. E, sinto muito, foi num governo petista que tudo isso se tornou possível.
Há problemas? Há. Muitos. E não só aqui: no mundo todo. Mas ainda acho os avanços muito mais consistentes. E, por eles e diante deles, vesti vermelho e votei com gosto ontem para manter Dilma na presidência. Para que mais brasileiros e brasileiras possam ter mais oportunidades. E para que assim, no futuro, ninguém possa usar a classe social como justificativa para tentar desmerecer a escolha democrática de cada um de nós.

28.7.14

Sobre a crise no Sindicato dos Jornalistas do Rio...


Desde as manifestações de junho de 2013, o trabalho da imprensa vem sendo muito questionado. Algo salutar, claro. Sociedade democrática é aquela que tem imprensa livre e que conta com uma pluralidade de vozes. A cobertura pensada por grandes veículos, aliás, foi muito criticada por colegas da própria imprensa, que também atentavam para uma morosidade de jornais, rádios e emissoras de TV em "ler" o que vinha das ruas. Termos como "vândalos", inicialmente utilizados amplamente, deram lugar a palavras como "manifestantes", "ativistas" e afins. Os tumultos ocasionados nas passeatas continuaram a ser mostrados nas matérias, que, no entanto, passaram a diferenciar quem reivindicava melhorias para a sociedade de quem estava nas ruas para depredar patrimônio público e/ou privado. A violência policial - que atingiu repórteres, cinegrafistas, fotógrafos e muitos manifestantes - também foi vastamente denunciada pelos grandes veículos de comunicação, bem como por aqueles que faziam, nas ruas, cobertura em tempo real do que acontecia a cada protesto.

Num desses protestos, Santiago Andrade, cinegrafista a serviço da Band, foi alvejado e acabou morrendo. O rojão, segundo a polícia, foi disparado por jovens que manifestavam. Os jovens foram encontrados, presos e acusados formalmente pelo homicídio. E esse episódio inflamou ainda mais os ânimos. A imprensa passou a ser cada vez mais intimidada a cada nova passeata, a cada manifestação. Vários colegas foram agredidos, tiveram seus equipamentos danificados. Carros de emissoras de TV foram incendiados; num confronto que, a meu ver, expõe o fraquíssimo alicerce sobre o qual está erguido o conceito de democracia defendido pelos manifestantes.
Vale dizer que, à essa altura, as passeatas já não mais reuniam 1 milhão de pessoas. Os ativistas diziam que a "mídia comercial" ou "mídia tradicional" tentava esvaziar as manifestações. O fato é que as imagens de violência praticada por jovens com os rostos encapuzados assustaram a sociedade - e, desculpem os críticos da mídia, se elas foram captadas e transmitidas, é porque eram registros de fatos! A morte de Santiago não foi fruto da maquinação de um roteirista. Os incêndios e depredações não são fruto da criatividade do departamento de efeitos especiais de nenhuma emissora de televisão, sabemos todos. Infelizmente.
Acontece que, à medida em que o clima ia se tornando mais belicoso, a atual diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio parecia mais acovardada em assumir que os profissionais da imprensa estavam sendo hostilizados, ameaçados e agredidos enquanto exerciam seu ofício. A direção do sindicato divulgou uma série de notas que mais confundiram do que explicaram. Notas em que pouco - ou quase nada - defendeu a categoria a qual deveria representar. Uma crônica de equívocos que teve o ápice na semana passada, com uma entrevista coletiva de ativistas - e pais de ativistas - realizada dentro da sede do sindicato, um dia depois de mais um episódio em que manifestantes usaram de violência para impedir o trabalho da imprensa. Dentro do sindicato que lhes deveria representar - e defender - jornalistas ouviram impropérios e ameaças de jovens e de seus familiares. Um episódio lastimável, que virou notícia e teve grande repercussão, dado o absurdo da situação.
Hoje, um grupo de jornalistas se uniu para pedir a destituição da atual diretoria do sindicato. O grupo utiliza um abaixo-assinado, instrumento legítimo, democrático e, assim, procura exercer o seu direito de ter uma direção que faça valer a confiança e que exerça, de fato, seu poder para representar os interesses da categoria. Assinei, apoio e torço muito para que tenhamos sucesso nessa empreitada.
Li algumas críticas ao momento que vivemos. Críticas ao abaixo-assinado, críticas ao fato de se querer destituir uma diretoria democraticamente eleita (acho que os críticos se esquecem de que se isso fosse ilegítimo, o país não teria afastado um presidente). Gente que respeito e admiro. Gente que defende a democracia, como eu. Mas gostaria de ver essa mesma gente se posicionar sobre as agressões aos jornalistas. Isso é democrático? É legal? É justo? Gostaria de ver essa mesma gente que cobra a retidão da polícia e do inquérito que investiga as manifestações - ideais que também defendo - dizer se acha mesmo que a melhor forma de criticar o trabalho da imprensa é descendo a porrada em seus profissionais. Gostaria de ver essa mesma gente que está defendendo ativistas - como se fossem todos muito inocentes - se posicionar sobre os comerciantes que tiveram suas lojas saqueadas e incendiadas nas manifestações. Isso pode? Isso é legal? É nessa mudança de mundo que se quer acreditar? É assim que se quer construir uma sociedade mais justa e democrática?
Se for, não acredito nesse novo modelo! Acredito em diálogo, democracia e em instituições sólidas; como a imprensa livre e a justiça. Instituições que estão longe da perfeição, é bem verdade, mas que podemos ajudar a aperfeiçoar cotidianamente, usando nosso poder de argumentação, nosso dinheiro e nosso controle remoto. Não gosta do jornal, não leia! Não concorda com a linha editorial da emissora de TV, não assista! Não assine seus canais fechados! Vá se informar pela "mídia independente". Ferindo os grandes grupos no bolso, talvez seja possível pressioná-los a rever suas linhas editoriais. Agora, se você relativiza tapa na cara, xingamento e soco em profissional da imprensa e continua vendo novela, BBB e o raio que o parta, aí você é um revolucionário de sofá. E eu lamento muito! Porque pode chegar o dia em que a sua profissão esteja em xeque e algum manifestante se ache no direito de dar na sua cara para protestar. Será o dia em que você estará colhendo os frutos podres no quintal da sociedade escrota que ajudou a construir...

8.4.14

E Valesca caiu na prova...

Polêmica envolvendo questão que trazia versos de funk aponta para a necessidade de nossa sociedade dar tiro, porrada e bomba no preconceito...
Desde ontem só se fala nisso no Facebook. A prova de filosofia aplicada pelo professor Antonio Kubitscheck, do Centro de Ensino 3 de Taguatinga, em sua turma do 3º ano do Ensino Médio. Uma foto postada nas redes sociais trazia uma questão em que os alunos precisavam escolher a alternativa que completasse os versos do sucesso "Beijinho no Ombro", da funkeira carioca Valesca Popozuda. Pronto! Foi o bastante!
Li muito sobre o assunto, fiz alguns posts sobre o caso, mas o Facebook não serviu para extravasar tudo o que penso sobre o caso. Não é de hoje que entrevisto professores e pesquisadores que relatam um fenômeno: nossas escolas - e não falo apenas das brasileiras, muito menos só das públicas - parecem instituições do século XVIII. Paradas, imutáveis, as escolas não têm conseguido despertar o interesse de jovens extremamente conectados, capazes de desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo, cada vez mais autônomos nos seus processos de desenvolvimento de habilidades múltiplas. Parece bobagem? Não é! Essa realidade implica numa longa, séria e necessária discussão sobre o papel da escola do nosso tempo; sobre a atuação do professor e sobre que tipo de cidadãos queremos formar. 
Pois bem, muitos desses mesmos especialistas assinalam para a importância de que o professor esteja sensível à realidade do aluno. Onde vive? Como vive? Quais são seus gostos? O que consome em termos de cultura? Que cultura produz/reproduz? Para esses pesquisadores, somente por meio do real entendimento do aluno e da realidade em que ele está inserido será possível que o professor estabeleça um diálogo, capte o interesse de crianças e jovens e possa, enfim, desempenhar seu papel educativo. O professor, entende-se, não é mais um transmissor de informações. Ele é mediador! Ele está entre o aluno e o conhecimento. E não há mediação sem troca, sem partilha. Trata-se de um processo permanente em que os sujeitos dão e recebem; dividem saberes para somar conhecimentos. 
Portanto, minha gente, o que o professor Antonio Kubitscheck fez de errado? Ao julgar seu trabalho por um recorte descontextualizado de um teste, erramos todos nós. O professor pode estar brincando? Pode! Aquela pode ter sido uma espécie de "pegadinha"? Sim! Mas também pode ser parte de uma ampla discussão travada em sala de aula. Sobre cultura, sobre a banalização da violência - já que os versos falam sobre "tiro, porrada e bomba", sobre...o que os alunos ouvem. Ou seja: pode haver ali uma discussão muito mais ampla e rica do que essa rasa argumentação de quem acha que "escola não é lugar de ouvir ou de falar de Valesca Popozuda".
A própria cantora se defendeu nas redes sociais. Sagaz, apontou o dedo para a ferida: há muito preconceito envolvido nessa discussão. Se fosse qualquer outra letra, de qualquer outro estilo musical, muito provavelmente a repercussão não seria essa. Acrescento: certamente não seria lançado sobre o trabalho do professor esse olhar pejorativo que paira desde que a notícia ganhou espaço nas redes e nos grandes portais noticiosos. Quem nunca fez uma prova em que um trecho de música tenha sido parte de uma questão que atire a primeira pedra! Ou que dê o primeiro tiro, porrada...ou jogue a primeira bomba!
"Ah, mas isso não é música que preste", dirão alguns. "Isso não é música", afirmarão outros. "Valesca Popozuda é ruim demais, não é cultura", sentenciará outra parte. Aí é que mora o perigo. Tratar o popular e o erudito segundo uma lógica hierarquizada é um equívoco histórico, que traz mais prejuízos que ganhos. A escola pode - e, a meu ver, deve - discutir Valesca Popozuda, Anitta e o que mais vier para dentro do seu cotidiano. É essa a realidade em que muitos dos alunos estão inseridos. Conhecer essa realidade, respeitá-la e, a partir dela, abrir um canal para apresentar outras manifestações da cultura é o caminho para que o professor consiga ter êxito em seu diálogo com os alunos. Mostrar que as expressões da cultura popular são reconhecidas na escola pode contribuir para que a sintonia com os estudantes seja, pouco a pouco, reconquistada. Ninguém gosta de se sentir menos, de se sentir menor. Imaginem como se sentem os alunos que percebem que seus gostos, suas músicas, suas preferências e seus hábitos são considerados "de um nível inferior" no cotidiano escolar...
Por fim, um alerta: essa história toda mostrou muitos críticos, muitos juízes, muitos dedos apontados, ávidos por condenar o professor e por definir o que é cultura. Vi gente que, como eu, também veio das classes populares, de família simples, virar as costas para essas origens e descer o sarrafo no que vem do povo. Turma, se preconceito já é terrível quando parte de quem não conhece a realidade em questão, pra mim, torna-se ainda pior quando vem de iguais. E mais: torna-se ainda mais cruel quando quem condena não tem elementos, conhecimento e informações suficientes para opinar. Educação é coisa séria! O professor é um profissional sério, merece respeito. Estudou para estar ali. Condenar esse profissional e seu trabalho sem sequer ter elementos para tanto é, esse sim, um enorme sinal de falta de preparo, falta de cultura e falta de educação. Sinal de que a escola em que vocês estudaram pode até não ter utilizado versos da Valesca Popozuda em provas, mas, certamente, pecou na construção de alguns valores fundamentais.

PS.: Beijinho no ombro.

23.1.14

Eles riem de nós...

Em foto estampada na capa do Extra de hoje, o secretário de transportes dá uma gargalhada ao conversar com o presidente da SuperVia, empresa responsável pelo nó ferroviário que parou o Rio ontem...


O que acontece no sistema de transportes do Rio de Janeiro é uma temeridade. Talvez seja essa a área mais vergonhosa, a mancha mais difícil de apagar, encravada na alma de cariocas e fluminenses ao longo desses oito anos de governo do Cabral. Desde o bondinho de Santa Teresa, que viveu uma tarde de trem fantasma, matou gente e jamais foi recuperado - ao ônibus que desabou de um viaduto - também deixando vítimas fatais; passando pelas sucessivas falhas operacionais da SuperVia e do Metrô Rio, o que se vê, cotidianamente, nas ruas, avenidas, trilhos e túneis é a mais perfeita tradução do descaso... 
Por isso, confesso: não fiquei chocado ao ver, na capa do Extra de hoje, a gargalhada do secretário Júlio Lopes, flagrada ontem, horas depois do apagão que paralisou a circulação dos trens. A gargalhada desse senhor, logo substituída por aquela cara de puta arrependida que tantos políticos sabem fazer para tentar nos convencer de sua dor; aquela gargalhada, meus amigos, apenas deixou ver o que pode parecer, para muitos, apenas suspeita: eles riem. Eles não se importam com a gente. Eles tratam o contribuinte - que paga as contas dessa porcaria toda - como idiota. E acham graça! Acham graça de nos entulhar de impostos para dar desconto aos donos do monopólio de ônibus, presenteados com 50% a menos nos IPVAs da decrépita frota que circula por aí, caindo aos pedaços, emporcalhando o ar com aquela fumaça imunda, matando de calor a todos e jamais cumprindo horários ou oferecendo a menor qualidade que seja. 
Eles acham graça. Eu acho detestável! Como disse um dos heterônimos de Fernando Pessoa: "homens altos: passai por baixo do meu desprezo!"

14.1.14

A cara do preconceito!

Âncora do SBT Brasil faz comentário sobre os "rolezinhos" e desfila todo o seu rosário de conservadorismo e preconceito
Soube de um comentário de Rachel Sheherazade sobre o fenômeno dos "rolezinhos" em shoppings e me obriguei a assisti-lo. Comprovei o que já havia percebido em outras ocasiões: essa senhora me envergonha! Não é de hoje que percebo o tom conservador, quase reacionário dos seus comentários demagógicos. Rachel Sheherazade não sabe sequer para qual público fala. Afinal, as pesquisas do Ibope comprovam que a audiência do SBT está muito mais para "rolezinho" do que para os frequentadores dos "shoppings de luxo", cuja ordem e "segurança" ela parece tão empenhada em defender. Notem bem: ela se mostra incomodada com a possibilidade de que os "arruaceiros" cheguem aos centros de consumo das elites. Ou seja: considerando que há baderna, que ela fique restrita às periferias. Que vergonha! 
Que vergonha de uma justiça que permite que shoppings se voltem contra pobres - porque é isso o que esses centros comerciais farão - e, assim, justifiquem seus preconceitos. Não vai tardar para que pretos e pobres sejam barrados nesses locais apenas por essas condições. Ou por estarem de havaianas. Ou por estarem de bermudas. Ou por qualquer subjetividade que o preconceito de um idiota qualquer julgue cabível. Assim, meus caros, o que se solidifica é a realidade que todos nós já sabemos: há lugares em que os ricos não querem que os pobres cheguem! Porque não querem olhar a realidade, não querem se sentir parte dela. Querem fingir, em seus templos do artificialismo, que a diversidade não existe, e que seu mundo perfeito não inclui nada que lhes pareça diferente. Uma vergonha! 
Mas ricos escrotos não me surpreendem. O que me surpreende é que um dos poderes da nossa república enfatize essa lógica elitista, excludente e preconceituosa. Como se não houvesse outras prioridades para a Justiça do país. Ou como se não existissem outras (verdadeiras) ameaças aos direitos básicos dos cidadãos por aí - não só nos shoppings de luxo, mas no Brasil da vida real. 
Vergonha, muita vergonha!!!