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16.3.15

Um dia estranho

Manifestação com pauta difusa cedeu espaço para reivindicações absurdas

Acho que toda e qualquer manifestação realizada com o objetivo de cobrar direitos e serviços é válida. Do mesmo modo, também considero salutares as demonstrações coletivas que tenham o objetivo de pressionar governos - em qualquer nível - para, assim, lembrá-los que os interesses dos cidadãos devem ser considerados quando da tomada de decisões.
Embora as considere pouco efetivas, acho também pertinentes as manifestações coletivas contra a corrupção e a impunidade. E me explico: visto que ninguém se assume publicamente favorável a uma ou outra coisa, sair às ruas manifestando essa contrariedade parece clamar pelo óbvio; parece coisa de quem não consegue enxergar além do senso comum. Creio que manifestações dessa natureza carecem de uma pauta clara, de um objetivo comum. No momento atual, penso, a pauta para quem pretende combater esse combate é a da reforma política. E me incluo nesse grupo, vale dizer.
Acontece que as manifestações de ontem pareceram boiar num mar de senso comum. E, pior do que isso, quando se permitiram ir além desse pensamento mediano, tomaram caminhos assustadores. Não consigo conceber um cidadão de bem, ainda que incomodado com a atual situação do país, que se permita militar nas ruas ao lado de alguém com uma faixa onde se vê a suástica. Igualmente me intriga pensar nas "famílias inteiras, em clima de paz" dividindo a rua com pessoas que empunhavam cartazes onde se lia - inclusive num inglês constrangedor - clamores pela volta da ditadura militar. 
"Eram poucos", alguns dirão. Não importa, respondo. Ao dividir o mesmo espaço com gente assim, você valida esse discurso. Ao aceitar militar ao lado de quem defende pautas radicais, extremistas e ilegais, você caminha para se tornar mais um deles. Aliás, nas fotos e imagens de TV, nas estatísticas da polícia, "dos organizadores" e dos institutos de pesquisa, quem escolheu marchar ao lado de pessoas com tão deprimentes reivindicações já se tornou um deles. 
Por fim, lembram de um ditado popular sobre se misturar com porcos e comer farelo? Pois bem. Entre os "convocadores" dos protestos de ontem, estavam Silas Malafaia, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro. Gente que, talvez, até traga algum orgulho para quem resolveu ganhar as ruas e assinar o cheque em branco em que se converteram essas passeatas sem foco. Mas, pra mim, esse é o tipo de gente que sempre estará do outro lado. 
Obrigado, mas do farelo deles eu só posso querer distância.

11.3.15

O Brasil precisa amadurecer

Cinco meses depois das eleições, eleitores ainda se digladiam como se Dilma e Aécio
ainda estivessem disputando. E o país só perde com isso...
E nos últimos dias, reeditando um triste fenômeno que muita gente pode vivenciar durante os meses da última campanha eleitoral, as redes sociais voltaram a se transformar num campo de batalha. E não me utilizo de uma figura de linguagem; não se trata de uma metáfora, uma vez que a luta não se dá no campo ideológico. São ofensas, agressões, insultos e arranca-rabos de todos os graus. Tem de tudo, menos maturidade...
A cena política brasileira se converteu nos últimos tempos numa espécie de 8 ou 80 que, além de limitador, só tem empobrecido o diálogo e impedido o avanço do país - e do pensamento. E, pior do que isso: diante dessa polarização, os dois lados passaram a contar com defensores / torcedores apaixonados, que tratam o país como um grande campeonato de futebol; ignorando a premissa básica de que, nesse caso, todos os brasileiros deveriam lutar por um objetivo comum e que, assim sendo, a vitória não seria de eleitores do PT ou do PSDB, porque um Brasil melhor, de pé, será melhor para todos nós.
Atribuir a um partido a responsabilidade pelos males do país - sobretudo o mais grave deles, a corrupção - é, com boa vontade, ser desonesto. Desonesto com a história, com os fatos que a escreveram e continuam a escrevê-la e com aquilo que, se ainda não é, deveria ser do conhecimento de todos: não se pode estipular uma data de início da roubalheira em nosso país. Por quê? Porque aqui, infelizmente, sempre se roubou. E muito! Ou alguém se esquece que fomos uma colônia de exploração e que, portanto, o que aqui se obtinha não era aplicado em benefício do novo território e de seu povo? Se os barões contemporâneos mandam seus dólares por vias escusas para os paraísos fiscais, séculos atrás era o império a abrir a boca pra surrupiar as riquezas aqui extraídas. Não me parece estranho supor que essa lógica tenha se cristalizado e, repetida geração após geração, tenha acabado por parecer natural.
Ainda nessa perspectiva histórica, que tal se dermos um salto no tempo rumo a um passado menos remoto? O passado da ditadura militar. Censura ampla, geral e irrestrita; sindicatos e organizações privados de um funcionamento livre, imprensa amordaçada. É possível crer que não se roubava nessa época? É aceitável a ideia de que, num cenário em que sequer era fiscalizado pela imprensa e por outros organismos, o governo agia com retidão? Desculpem-me, mas pensar assim me parece inocência. Ou ignorância. Ou, reafirmo, desonestidade! E não me venham falar que o país era melhor naquele sombrio período em que os opositores eram mortos, desaparecidos, presos, expatriados, silenciados! Época em que, como vira e mexe lemos, a silenciada corrupção já levava muito.
Hoje, temos um país aberto, democrático. Uma imprensa livre - e questionável, claro. Avançamos nesses dois pontos mas, no terreno da política, a época ainda é a das cavernas. Enquanto parlamentares querem definir o conceito de família seguindo preceitos religiosos; enquanto há uma bancada da bala no parlamento; enquanto um deputado ofende mulheres, negros e homossexuais sem que nada lhe aconteça; enfim, enquanto tudo isso tomou de assalto os noticiários, Brasília foi virando uma espécie de pastiche de si mesma. O congresso, eleito para nos representar, não teve pudores de negar qualquer movimento favorável a maior participação popular nas tomadas de decisão. Congressistas também não tiveram vergonha de dizer não a um plebiscito que envolvesse a sociedade na construção de uma reforma política. Ou seja: em dois casos - e há outros - não houve a menor disposição em sequer disfarçar que os desejos da sociedade não lhes interessam. E a nós? 
Bem, nós nos calamos.
Nós vergonhosamente, covardemente e tristemente nos calamos!
Iniciado o segundo mandato de Dilma, as medidas impopulares vieram. Eram favas contadas, como sabiam - e defendiam - todos os economistas. Era o que havia por ser feito. Era o que Aécio também faria - e talvez, sob o PSDB, o país viria a experimentar um ajuste ainda mais rigoroso. 
Pois bem: era o que pedia o mercado. Era o que faria a oposição. Era o que teriam os eleitores do candidato tucano. Dilma fez. Resultado: o mercado, a oposição e os eleitores de Aécio se voltaram contra o governo. Setores da mídia, mais raivosos que qualquer partido de oposição, também se voltaram contra o governo. Não dizem, mas tá na cara! Tá nas manchetes, tá nas fotos, tá na cara dos colegas que emprestam seus corpos e vozes para que os donos da informação digam e defendam o que querem. O que querem pra si e o que querem nos fazer crer que também queremos. E nós?
Bem, alguns de nós bateram panelas.
Sim, alguns de nós, vergonhosamente, covardemente e ridiculamente batemos panelas!
Os jornais não dizem isso claramente, mas as panelas estridentes não ressoaram nas periferias. Talvez por lá estivessem todas cheias na noite do último domingo. Talvez as classes mais populares não tenham tantos motivos para protestar contra o governo. Talvez as classes mais populares tenham entendido que as eleições acabaram e que o momento é de trabalhar - governo e sociedade - para que o país entre novamente nos trilhos. Talvez as classes mais populares não engulam tão facilmente a ideia de que "nunca se roubou tanto no país" porque nos últimos anos, como indicam todos os índices, pela primeira vez em nossa história lhes tenha sido oferecido uma parte do bolo do crescimento da economia brasileira.
Agora, enquanto informam, jornais e TVs reforçam a existência de uma "grande manifestação" marcada para o próximo domingo, num explícito exercício de futurologia, uma vez que não se deveria adjetivar uma manifestação que ainda não se concretizou, ainda não ocorreu. Tempos estranhos...
É óbvio que o clima não é bom. É óbvio que a popularidade do governo está em xeque, sobretudo depois das tais mudanças impopulares - que não têm esse nome aleatoriamente. Mas também me parece óbvio que há um movimento oportunista que quer se valer disso para desestabilizar ainda mais o andamento do país; sim, porque desestabilizar um governo é comprometer o andamento do país. Mais que isso: esse movimento se aproveita da notória carência de formação ( e informação) política de grande parte do eleitorado.
O fato é que temos um sistema político viciado em corrupção e uma população que centraliza suas expectativas e cobranças no Executivo, sem dar a menor importância ao Legislativo. Depois, quando vem à tona um escândalo que apenas confirma aquilo de que todos sempre desconfiavam, a conta toda é jogada no Planalto. Talvez porque seja mais fácil. Talvez porque não se tenha cultura política para envolver toda a sociedade na fundação de um novo modelo. Talvez porque estejamos contaminados demais pelo imediatismo, por essa onda tão descartável; não serve, troca. E aí vai desde o celular até a presidência da república. Não sou a favor do "Fora, Dilma", não fui a favor do "Fora, Lula" e nem do "Fora, FHC". Democracia não é Lego, não dá pra agir montando e desmontando cenários. 
O Brasil precisa amadurecer muito e a conjuntura atual só reforça isso.

15.12.14

Sobre a possível saída de Xuxa da Globo...

Xuxa fora da Globo? Emissora e assessoria da apresentadora ainda não confirmam a informação


A notícia da não renovação do contrato de Xuxa pela TV Globo sacudiu a internet nesta segunda. Ainda não confirmada, a informação gerou enorme repercussão nas redes sociais e Xuxa é trending topic no Twitter desde a publicação da nota, pelo Notícias da TV. Tanto barulho já permite supor que - se confirmada - a decisão da emissora pode não ser a mais acertada. Mesmo fora do ar desde o início de 2014, Xuxa é uma das artistas mais populares - e queridas - do país. Tem carisma, fãs e atrai anunciantes. Faltou, até aqui, competência para colocá-la à frente de uma atração que se encaixe ao seu perfil - e ao perfil desse imenso público.
A história da TV demonstra que falta tato ao lidar com grandes ídolos tidos como "ultrapassados". Chacrinha e Dercy Gonçalves já foram dispensados pela Globo, lá atrás, depois de ajudarem a consolidar a liderança do canal, por serem considerados popularescos demais para o chamado "padrão globo de qualidade". Hebe, mais recentemente, teve seu vínculo interrompido com o SBT - a despeito da sua enorme identificação com a rede de Silvio Santos - por não dar mais a audiência dos áureos tempos. Nos casos de Chacrinha e Dercy, a Globo se arrependeu anos depois e repatriou os artistas, trazendo-os de volta à telinha; oportunidade que o SBT não teve, dado o avançado estágio do câncer de Hebe Camargo, morta um dia depois de assinar um novo contrato com a emissora que era a sua cara. Outro astro de grandeza inquestionável, Chico Anysio também ficou na geladeira global até o fim da vida. Xuxa, ao que parece, será a protagonista de mais um capítulo dessa história...
Acho que há uma clara falta de posicionamento de Xuxa no atual contexto da televisão brasileira. Num momento em que as grandes redes investem cada vez menos em programas para as crianças, não faz sentido insistir em falar para o público infantil. Por outro lado, afastada de adolescentes e jovens dede que deixou o comando do Planeta Xuxa, a apresentadora perdeu o poder de influência sobre o público mais maduro. Xuxa ficou numa espécie de limbo: não fala mais para as crianças e se afastou dos "altinhos" que cresceram com ela. Um problema? Sim. Só há comunicação com interlocução - e se não há quem ouça, não há a necessidade de alguém que fale. Mas esse é um problema que pode ser solucionado reposicionando a apresentadora e criando para ela um formato capaz de atrair e reconquistar a audiência. O sucesso do Planeta Xuxa, que vem sendo reprisado pelo Viva, é prova mais do que clara de que há, ainda, muito espaço para a loira na TV. Ela só precisa soar interessante para a plateia, coisa que seus últimos programas jamais foram capazes de fazer. E aí, justiça seja feita, a culpa não é só da estrela.
Fica aqui um palpite: se a notícia for confirmada, aposto: Xuxa vai fazer barulho e sucesso onde quer que vá. 
A conferir... 

EM TEMPO: acabo de descobrir que fui bloqueado pela Xuxa - ou pela sua equipe - no Twitter. Alguém deve ter ficado xatiado com alguma piada que fiz por lá. Bobagem. Não dá pra se levar a sério o tempo todo. Mas esse pequeno incidente (diplomático) não me faz mudar minha opinião. Xuxa é estrela de alta grandeza da televisão brasileira. Merece respeito e reconhecimento. Seja qual for o caminho que estiver pela frente, toda a sorte do mundo pra loira...

27.10.14

Viva o Nordeste!!!


Tenho sangue nordestino nas veias: meu pai era de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Se não fosse carioca e se não amasse tanto a minha cidade, escolheria Salvador pra viver. Pela beleza de suas praias, pela comida maravilhosa, pelo astral que a gente sente no ar assim que chega, por ter dado ao país tanta gente boa pra fazer música, pelo carnaval que adoro, pelo povo festeiro e carinhoso! E aí, meu rei, se morasse em Salvador, eu seria uma espécie de desbravador do nordeste...
Sim, porque se morasse em Salvador, eu estaria sempre na bela Aracaju, iria me esbaldar vez por outra em Mangue Seco, curtiria finais de semana na bela Fortaleza ou em João Pessoa...
Iria sempre ao Recife, terra linda, que dizem ser a mais bonita da América Latina, lugar de tantos amigos amados. Passaria sempre em São Luís, pra lembrar das cores, cheiros e sabores que só o Maranhão tem. Passaria os feriados prolongados em Maceió, o Caribe brasileiro, dona do mar mais bonito que pode existir: cristalino, quentinho e acolhedor. 
Se morasse em Salvador, meu sangue nordestino ia me levar a conhecer Teresina, capital do Piauí, única parte dessa região tão fantástica que ainda me falta visitar.
Eu amo o nordeste! 
Hoje, se há algum verdadeiro motivo pra se estar de luto, me desculpem, é a exacerbação de tantos e tão deploráveis preconceitos nessa rede social.
E se você, meu amigo, minha amiga, está de luto e não é preconceituoso, um alerta: você está se perdendo num mar de gente que destoa de tudo aquilo que se pode julgar como admirável; está usando o mesmo rótulo que está sendo usado por gente que tá por aqui propagando o lado mais degradante do ser humano...
Viva o Nordeste! 
Viva o povo nordestino! 
E viva o Brasil!!!

26.2.14

Acorda, Brasil!

Meus amigos me definem como um otimista. Acho que estão certos. Entre tantas formas de ver o mundo, tendo a enxergar sempre a que oferece possibilidades de avanço, crescimento. Creio na melhoria, o que não faz de mim um alienado, claro. Mas é muito difícil pensar dessa forma quando a gente se depara com uma vida real muito, muito diferente do que se acredita ser o melhor. Agora, lendo um post de um amigo, vi um comentário - de um amigo do meu amigo - celebrando a condenação de homossexuais a pena de morte em Gana. 

Sim, celebrando! 

Pode ser uma brincadeira idiota apenas, mas não me engano: muita gente pensa assim. Muita gente acha que as diferenças devem ser eliminadas sempre - como se isso resolvesse problemas criados por ideologias, não pelas pessoas. É gente que quer ver gay morto, pobre exilado em favelas cada vez mais distantes e inóspitas, beneficiários do Bolsa Família voltando a passar fome sem o benefício e menores infratores sendo linchados em praça pública - como voltou a ocorrer hoje. Isso só pra citar alguns exemplos. Gente que coloca o próprio umbigo acima de qualquer valor humanista e que afasta, de pronto, qualquer possibilidade de diálogo e de entendimento com o que lhe parece diverso. Essa gente desorientada que  não vê incoerência entre vaiar o prefeito e celebrar o carnaval atrás do bloco que a prefeitura patrocina - achando o máximo o fato de a folia ter crescido tanto aqui no Rio nós últimos cinco anos. Uma gente de quinta que briga por tudo, que destrata, maltrata e não se retrata. 

Acorda, Brasil. Se o país é essa merda toda, é porque sobra esterco no DNA de todos nós. E não precisa de laboratório nenhum pra constatar: e só sair na rua pra ver. Ou navegar um pouco nas redes sociais...

13.2.14

A política na era das redes sociais x o caos da informação e das opiniões

Se um amigo turista, capaz de entende português, abrisse o Facebook e fosse ler os meus feeds teria imensa dificuldade para fazer uma leitura racional dos últimos acontecimentos. Isso porque as redes sociais se converteram numa miscelânea de leituras - todas pretensamente politizadas - do momento atual. Um post, compartilhado por uma famosa colunista de O Globo, atribui a Dilma, Cabral e Eduardo Paes a "infiltração de baderneiros nas manifestações". Outro, lança dúvidas sobre a isenção de Marcelo Freixo, do PSOL, e aponta para uma suposta leniência da legenda em relação aos "black blocks". Muitos se arvoram no papel de peritos e duvidam da identidade do rapaz de camisa cinza, divulgando - sem parcimônia - fotos de um outro rapaz, como se fosse esse - até então desconhecido - o responsável pelo lançamento do rojão que atingiu e matou Santiago. E por aí vai...
Entendo a avidez pela "verdade". Mas acho que esse furor, potencializado pelo poder e pela velocidade da informação compartilhada em tempo real pode causar muito ruído. O rapaz da camisa cinza, por exemplo, postou um longo desabafo no próprio Facebook, reclamando do compartilhamento de sua foto e alertando para o fato de ter sido acusado sem provas. "Virei bandido?", pergunta. Se quisesse, poderia processar todos os que compartilharam suas imagens e lhe atribuíram a responsabilidade por algo de que se alega inocente.
Quanto ao uso político das manifestações, nitroglicerina pura. Mas supor que, em ano eleitoral, a presidenta da república esteja por trás das ações violentas desses manifestantes me parece uma hipótese fantasiosa - para dizer o mínimo. Será que os defensores desse argumento não imaginam que Dilma será questionada pelos oponentes exatamente pela inda de protestos violentos que tomaram o país? Esqueceram como o governo se mostrou surpreendido pela violência das mesmas manifestações, o que provocou, inclusive, um pronunciamento em cadeia nacional? Isso tudo é desgaste, gente. Desgaste que a presidenta enfrentou ao se posicionar publicamente sobre o tema - o que, aliás, ela tem feito muitas vezes desde então.
Cabral, que parece ter desistido de governar há tempos, sinceramente não me parece em vantagem ao orquestrar um plano como esse. Toda a sua impopularidade só tem crescido desde o início das passeatas. Adicionar à essa mistura um punhado de violência arruinaria ainda mais sua imagem. Seria a pá de cal sobre toda e qualquer pretensão política futura. 
Eduardo Paes tem a simpatia de boa parte do eleitorado. Pode mudar, mas ainda é assim - sobretudo nas comunidades e no subúrbio. O aumento das passagens de ônibus, definido por ele, está na origem das manifestações cariocas. Mas a impressão que se tem é a de que, apesar de tudo isso, o prefeito atravessa esse momento conturbado sem grandes prejuízos em sua imagem. E isso se deve ao caos vivido pelo carioca por conta das obras para as olimpíadas, às constantes mudanças no trânsito e a outras ações que transmitem à boa parte da população a ideia de que o prefeito está fazendo o seu trabalho. 
Freixo, cujo nome apareceu no noticiário numa manchete que envergonha qualquer jornalista sério, parece realmente correto demais para usar recursos tão odiosos em nome de uma eventual chegada ao poder. Se tem um pecado - e, na minha opinião, talvez seja esse seu calcanhar de Aquiles - foi não deixar claro para a opinião pública que seu apoio se limitava aos manifestantes que foram vítimas de ações violentas da polícia, e que, portanto, não se estendia a black blocks saqueadores de loja, depredadores de agências bancárias e afins. Por boa vontade e, talvez, por uma certa inocência política, acaba tendo o nome vinculado a ações que desagradam o eleitorado que poderia migrar para sua candidatura nas próximas eleições. Resta saber como vai virar esse jogo...
Mas há outros importantes atores políticos em jogo. Gente que quer sepultar Cabral, desestabilizar Paes e inviabilizar Freixo. Há de tudo. A coisa é sempre mais complexa do que parece. Por isso, a meu ver, é preciso ter muita cautela antes de sair compartilhando qualquer coisa por aí. Sem querer,  podemos estar cumprindo exatamente um script elaborado por gente da pior espécie, com as piores intenções. 
Mas essa é apenas a minha opinião...

1.2.14

Sobre aquele beijo de Niko e Félix...

Sinal dos tempos: dois homens se beijaram em horário nobre pela primeira vez no Brasil ontem
Walcyr Carrasco é um grande autor. Em seu currículo estão sucessos como "Xica da Silva", "O Cravo e a Rosa", "Chocolate com Pimenta", "Alma Gêmea" e "Caras e Bocas". Êxitos que o credenciaram a entrar no rol seleto dos autores que escrevem para o principal horário de novelas da Globo. A estreia foi morna. Não fosse pelo absoluto acerto na construção de Félix e pelo estupendo desempenho de Mateus Solano na defesa do personagem, talvez a novela tivesse se perdido num mar de tramas um tanto quanto frágeis. Mateus Solano levou a novela e deixou na história da TV brasileira um grande tipo, uma criação que será lembrada por muito tempo.
Com 221 episódios, depois de esticada em quase dois meses - o usual é que as novelas das nove tenham 180 capítulos - "Amor à Vida" conseguiu o improvável: promover a conversão de um vilão em protagonista! Detestável ao longo de 80, 85% da trama, Félix se arrependeu dos seus pecados e se tornou ainda mais querido pelo público. Ganhou um amor e, outrora conservadora, a audiência comprou a ideia e passou a torcer pelo happy end do ex-vilão. A pergunta que pairava no ar, no entanto, era: haverá beijo gay?
Horas antes da exibição do último capítulo de "Amor à Vida", ontem, críticos de televisão já especulavam sobre a exibição da cena envolvendo os personagens de Mateus Solano e Thiago Fragoso. Mais que isso: alguns apontavam que a direção da TV Globo estava decidida a romper esse paradigma, derrubando o tabu que ganhou força desde 2005, quando uma cena de beijo da novela "América", entre os personagens de Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro foi surprimida por ordens dos executivos do canal horas antes da transmissão do episódio, frustrando a autora, Gloria Perez, e os demais envolvidos na produção.
Ontem, o Brasil viu um beijo gay em horário nobre. De casa, ouvi gritos de uma torcida anônima, da qual sequer poderia imaginar a existência. Postei isso no twitter e recebi mensagens relatando episódios idênticos em várias partes do Rio, do Brasil. Por telefone, minha mãe contou que foi assim também perto da casa dela. Vejam vocês! Em tempos de tanto preconceito, em tempos cheios de crimes de ódio, há um Brasil que torce pelo amor! E que não se importa se ele une pessoas do mesmo sexo ou não.
Mais do que um desfecho coerente para uma história bem construída entre dois personagens carismáticos, o beijo tem um relevante papel social: ele naturaliza a expressão de uma outra forma de amor, de uma outra possibilidade de ser, de existir e de amar. Há um Brasil que já sabia de tudo isso. Há um Brasil que fingia não ver isso. E há um Brasil que quer negar isso. Ontem, simultaneamente, esses três Brasis viram isso. Hoje, crianças não amanheceram gays. Maridos não largaram suas esposas para ficar com outros homens. Não houve registros de episódios de depravação em locais públicos. Houve, sim, muita gente enaltecendo a beleza do amor, do respeito e da aceitação. Gente impactada pelo beijo sim, mas também - e talvez ainda mais fortemente, pela linda cena final de "Amor à Vida", quando César, o pai homofóbico, aceita e declara seu amor pelo filho gay, fazendo Félix chorar copiosamente. Uma cena antológica, das mais delicadas que a teledramaturgia brasileira já conseguiu produzir. Aliás, vale dizer que quando Walcyr Carrasco apresentou à direção da TV Globo a sinopse de "Amor à Vida" a trama se chamava "Em nome do Pai". Ontem, terminada a exibição do desfecho da novela, percebi que o título original fazia muito mais sentido que o definido para substituí-lo. 
Depois da exibição da cena entre Félix e Niko a Central Globo de Comunicação divulgou uma nota afirmando que a cena acompanha o momento histórico que vivemos. Taí uma verdade: com atraso, sobretudo em relação ao que já vemos nos canais fechados, o beijo de ontem retrata outros tempos, de maior entendimento sobre a diversidade. Um entendimento que está relacionado aos avanços das políticas de Estado, às recentes decisões judiciais e à luta árdua dos militantes sociais, abnegados defensores dos direitos humanos e do respeito à pluralidade. 
O Brasil de 2014 é muito, muito melhor que o de 2005! E quero crer que o Brasil do futuro, daqui a 10, 20, 30 anos, será infinitamente superior ao país que temos hoje. 

7.5.13

Fantástico mostra a caçada a traficante e acende polêmica na internet

Reportagem expõe fragilidades da operação da polícia carioca na favela da Coreia 

Habituado a jogar games de tiros desde os tempos do Counter Strike, até os recentes Battlefield e Call of Dutty; vi bastante espantado as imagens exibidas pelo Fantástico ontem. Na tela, em ritmo frenético, policiais a bordo de um helicóptero da Polícia Civil caçavam o traficante Matemático. Sobrevoando uma favela, a força do Estado disparou uma enxurrada de tiros para deter o inimigo.
Fiquei chocado. Não com a morte do traficante - fato rotineiro e que, nesse caso, pareceu-me até menos impactante. Fiquei chocado ao ver o volume espantoso de disparos desferidos contra uma área residencial, civil, no meio de uma noite. Por mais que os envolvidos na operação neguem, é impossível afirmar que a população não tenha sido exposta a um enorme risco. E mais: é impossível dizer que os responsáveis por aquela ação tivessem segurança de que não haveria baixas entre os cidadãos que habitam a área. O que vimos foi um vale-tudo, em que, embora sem que isso tenha sido dito, a polícia assumiu os riscos de ferir e/ou matar inocentes em troca da cabeça do alvo da vez. 
"Mas não houve vítimas", podem dizer os defensores da operação. Sim, ao que parece, não houve vítimas. Mas não acho leviano afirmar que se ninguém morreu foi por obra da sorte. Ou da Graça Divina. Ou de um ou outro Anjo da Guarda de prontidão. Porque os tiros cravados nas residências da favela não deixam dúvidas: de precisa aquela caçada não teve nada!
Não bastasse o susto com o flagrante despreparo da força policial, fiquei novamente espantado ao ver a repercussão das imagens mostradas pela TV Globo nas redes sociais. Enxergando na reportagem uma defesa à vida do bandido, vi vários amigos descerem o pau na matéria. "Deixem a polícia trabalhar", dizia um. "Quantos inocentes morreriam se ele ficasse vivo?", questionava outro. Mas não vi ninguém, absolutamente ninguém, questionar o risco ao qual todos aqueles moradores, inocentes, estiveram expostos naquela noite. Calados ou, pior, defendendo a ação da polícia, o que todos fazem, ainda que de modo inconsciente, é legitimar uma polícia que trata de modo desigual pobres e ricos. Uma polícia que age com prudência e cautela nas áreas nobres e "larga o dedo" quando o alvo está escondido em favelas. É como se dissessem que "favelado pode acordar com tiro de fuzil furando suas casas". É como se achassem justo que, para proteger ricos e classe média, pobres sejam sacrificados por uma rotina de incursões policiais atabalhoadas e que, não raro, acabam por vitimar crianças, mulheres, velhos e cidadãos inocentes, moradores de comunidades dominadas pelo tráfico e massacradas por uma polícia que, quando surge, parece fazê-lo com o único objetivo de espalhar medo e insegurança por todos os lados.
É só refletir: alguém já viu um helicóptero dar rasantes sobre Ipanema, distribuindo tiros de modo quase aleatório? Quando foi capturado Nem, apontado como liderança do tráfico na favela da Rocinha, ouviu-se algum disparo? Respondo: não! À ocasião, aliás, cabe dizer que a polícia usou a mesma tecnologia de imagens para localizar e capturar o bandido na Gávea. Ali, sim, a precisão esteve presente. E os moradores da Zona Sul não ouviram um único estampido. Por que será?
O fato é que construímos, ao longo do tempo, uma polícia que trata de modo discrepante quem já é vítima da desigualdade. Quem mora numa favela não quer correr o risco de ser alvejado por uma bala de fuzil. Esse risco já está imposto pelo tráfico. A polícia, em suas operações, deve primar pelo zelo com a segurança dos moradores inocentes. É claro que aqui, como em qualquer parte do mundo, acidentes podem acontecer. Comunidades como a que foi mostrada na reportagem do Fantástico são densamente povoadas, a ocupação do terreno é irregular e esses são fatores que complicam as incursões do Estado. Mas, a julgar pelo que vi, acidente é uma operação como aquela transcorrer sem que nenhum inocente seja vitimado. Acidente é disparar trocentos tiros, acertar prédios e casas e, ainda assim, não matar moradores honestos.
Não sei quanto a vocês, mas o mínimo que eu posso esperar de uma polícia é que ela não conte com a Graça Divina, com a sorte ou com a benevolência de Anjos da Guarda ao fazer suas operações. A vida do cidadão – no asfalto  ou na favela – é bem maior, que deve ser garantido e preservado pelo Estado em quaisquer circunstâncias, seja onde for. E não há “remédio amargo” que justifique que a sociedade continue a tomar veneno e esperar se curar de toda essa violência.

12.4.13

Sobre a (eterna) polêmica da redução da maioridade penal...


Ontem eu li muitos posts revoltados com a história do menor que matou covardemente o estudante que era estagiário da Rede TV. Todo e qualquer assassinato é sempre algo que nos revira, que mexe com nossos instintos e que nos faz querer bradar para que os culpados sejam punidos.
No caso do menor, volta-se à discussão sobre a redução da maioridade penal. Eu acho que esse não é o caminho. Infelizmente, porque, se fosse, talvez até pudesse ser mais fácil. Explico minha discordância: a maioridade penal, estabelecida em 18 anos em nosso país, não vem impedindo que cidadãos com essa idade - ou mais velhos - cometam seus crimes. A lei que os pune - quando o faz - não traz o rigor que a sociedade busca; não está à altura do exemplo que se quer dar; da marca de correção que se quer imprimir a quem está à margem; a quem é marginal. 
Colocar gente mais nova em celas não vai reduzir nossos índices de criminalidade. Não vai nos trazer paz. Não nos deixará tranquilos. E não vai nos garantir que mais vidas sejam levadas pela violência. Creio que se faz necessária uma mudança mais profunda, de toda a sociedade. Uma mudança política, uma mudança na forma que nos portamos na vida, com os outros; na forma como enxergamos o mundo.
E só pra citar mais um exemplo: os Estados Unidos, que tanta gente tem por referência, tem vários estados em que menores de idade podem ser duramente punidos pela lei. E isso não fez com que eles deixassem de delinquir.
O buraco é (bem) mais embaixo...

9.4.13

Daniela Mercury: o "outing", a política e a mídia

No momento em que a Suprema Corte americana discute o casamento igualitário; no momento em que o Brasil discute a (im)propriedade da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias ter sido dada a um deputado que já deu declarações extremamente preconceituosas, um gesto que poderia ser prosaico ganhou repercussão semana passada: Daniela Mercury revelou que tem um novo amor. Uma mulher...
A cantora baiana anunciou, posteriormente, que comunicou o fato com a mesma naturalidade que já usou ao anunciar relacionamentos anteriores. A diferença: até então a artista, que ficou conhecida ao tornar popular a axé music, só havia assumido relacionamentos heterossexuais.
Desde o primeiro instante notei que a atitude de Daniela tinha um forte cunho político. São notórios seus compromissos com a diversidade e o combate a todas as formas de discriminação. Ao dizer-se apaixonada por uma mulher, a quem chama de esposa, a cantora deu mais uma demonstração do quanto é politizada. Mais tarde, voltou ao assunto ao criticar o deputado Marcos Feliciano, cuja eleição para a presidência da CNDHM colocou em cheque a própria comissão, além de demonstrar mais um litígio entre a sociedade civil e os rumos da política nacional.
Não é todo dia que uma artista do porte de Daniela Mercury se posiciona tão abertamente sobre um assunto que ainda é considerado tabu por boa parte da sociedade. O fato gerou grandes reportage
ns em jornais e sites. Foi notícia do Jornal Nacional, matéria do Fantástico e capa de Época e Veja. Todos perceberam a estreita relação entre o momento político - que não está restrito às fronteiras brasileiras - e a postura da cantora.
Ou quase todos...
Sim, quase, porque não tardou até que aparecessem aqueles que enxergaram no fato uma artimanha da cantora para voltar à mídia, para fazer sucesso. Achei estranho. Daniela Mercury é uma das cantoras brasileiras mais conhecidas no exterior atualmente. Estavam turnê em Portugal na semana passada, por exemplo. Já vendeu mais de 11 milhões de discos em todo o mundo. Foi a única artista brasileira convidada para a gravação do DVD de aniversário de 20 anos do Cirque de Soleil e parte da comemoração dos 25 anos do Festival de Jazz de Montreal. Nunca deixou de fazer shows e produzir seus próprios discos - forma de garantir sua independência artística. Muitas dessas produções, diga-se de passagem, receberam grandes elogios da crítica especializada. Destaco "Canibália", "Balé Mulato" e "Feijão com Arroz", entre os melhores CDs da cantora. Definitivamente, fracasso não é uma palavra que combine com Daniela Mercury. E, diante de tudo o que ela já conquistou e considerando o preconceito ainda tão forte em nossa sociedade, vejo que ela optou por correr riscos ao anunciar seu novo amor. Fez política, deu lição de humanidade e de coragem. Mas devo dizer que nada me surpreendeu: sou fã de Daniela há tempos e sei da inquietude da baiana que enxerga a arte como um grande poder transformador. Ao postar aquela bela montagem de fotos em p&b em que aparece com Malu, sua esposa, Daniela fez da vida real arte. E deu sua contribuição para transformar a todos nós...





20.5.12

Sobre o que Xuxa viu da vida...




Há tempos uma atração do Fantástico não repercutia tanto. Em uma longa edição, o quadro "O que vi da vida" exibiu depoimento de Xuxa Meneghel. A loira falou da infância no subúrbio, do começo da carreira como modelo, do  namoro com Pelé, do romance com Ayrton Senna e do preço da fama. Nenhuma novidade. Mas a loira guardou um desabafo para a parte final da entrevista e revelou ter sido vítima de abuso na adolescência.
O depoimento foi marcante. A história, triste como são todas as histórias de violência. E Xuxa pareceu um tanto perturbada. Não demorou até que aparecesse nas redes sociais muita gente duvidando do depoimento exibido no Fantástico. Cada um no seu direito, claro. Mas o fato é que muitas vítimas de abuso sexual passam a vida inteira sem conseguir revelar suas histórias de violência. Por isso, não me surpreende o fato de Xuxa falar do assunto somente às vésperas dos 50 anos. Muita gente também tá associando o tal depoimento à busca pelos holofotes. Ok, Xuxa não é mais o mesmo fenômeno, não rende mais o Ibope dos anos 90, mas...peraí...a loira tá milionária faz tempo, gente! Tem contrato longo em vigor, ou seja: não tem motivo algum pra chamar a atenção pra si com uma história desse tipo. 
Como postei no Facebook assim que acabou a entrevista, acho que ela precisa de um analista. E não é de hoje. Mas, em última análise, todos precisamos. Ficar atribuindo às declarações da loira sentidos incertos e suposições pretensamente críticas é bem esquisitão também! Acho que há uma grande diferença entre ser crítico e ser paranóico, querendo enxergar uma conspiração atrás de tudo o que acontece na TV.

11.4.12

Sobre a polêmica do aborto de fetos anencéfalos...

O Brasil acompanha - de modo menos interessado do que devia - o debate que envolve o julgamento do Supremo sobre a descriminalização do aborto de fetos anencéfalos. Quatro ministros do STF declararam hoje que votarão a favor do projeto que, caso aprovado, permitirá que pais e mães possam escolher como proceder em caso de gestação de um bebê sem cérebro - ou com comprometimento cerebral grave.
Tenho acompanhado as discussões pela mídia - e a TV é, de longe, a que menos tem se dedicado ao tema. Talvez para fugir de polêmicas com grupos religiosos e conservadores. Talvez por não reconhecer que essa seja uma temática de grande relevância. Vi apenas algumas discussões em programas como o Sem Censura e o Repórter Brasil, ambos da TV Brasil, e um debate no Entre Aspas, da Globonews.
Em todos os casos, fiquei surpreso com o nível de argumentação dos que são contrários ao projeto em discussão. Também me surpreende a total falta de sensibilidade à causa das mães que se deparam com um diagnóstico duro e decisivo: gerarão bebês com expectativa de vida limitadíssima. Bebês que podem existir por minutos, talvez horas.
Os que são contrários a descriminalização dos fetos anencéfalos se dizem a favor da vida. Também o sou. Totalmente. Mas fico penalizado ao imaginar que uma família pode ser obrigada a levar em frente uma gravidez que poderá terminar em morte sem que nada possa ser feito para diminuir, abreviar ou simplesmente evitar que tamanho sofrimento se torne ainda maior.
Não se trata de tornar o aborto de fetos anencéfalos uma obrigação. Seria contrário à ideia, caso fosse essa a proposta. Trata-se de oferecer aos familiares que atravessam esse momento tão delicado a possibilidade de escolher qual saída pode ser menos traumática. E só quem pode mensurar a dor que qualquer das escolhas vai ocasionar são aqueles que, de fato, vivenciam a angústia dessa decisão. Não acho justo que o Estado ou que as igrejas se arvorem no papel de defender uma vida para a qual virarão as costas em seguida. Ou alguma proposta e/ou dogma religioso prevê o acompanhamento psicológico para os familiares dos bebês anencéfalos depois que sua inevitável morte se consumar?
Alguns poderão dizer que há casos de crianças sem cérebro que conseguiram - e conseguem - viver por alguns anos. Sim, eu sei. Certamente são crianças amadas por seus pais. Mas também é certo que, infelizmente, elas representam uma exceção à regra. A maior parte jamais terá alta da maternidade.
Enquanto as TVs parecem negligenciar o debate - o que deve mudar nesta quarta, caso o STF chegue a uma conclusão - a Internet segue como tribuna livre. Hoje, no Twitter, os Trending Topics registraram algumas vezes expressões ligadas aos grupos que defendem que o abortamento de fetos anencéfalos deve continuar proibido por lei.
Felizes esses tempos de democracia. Mas sinto falta de argumentos menos "contaminados" por valores ligados à religião e mais sensíveis à delicadeza inerente à situação. Não se está falando de liberar o aborto. O que está em pauta é dar às mães e aos pais que vivenciam a situação a possibilidade de escolher de que forma melhor podem superá-la. 

21.3.12

BBB: o estupro que foi sem nunca ter sido?

Na tarde desta terça-feira, fui surpreendido com notícia publicada no UOL. O texto informava que a Justiça determinou o encerramento das investigações no inquérito que apurou a suposta violência sexual que marcou as primeiras semanas do Big Brother Brasil. O fato, vocês lembram, agitou as redes sociais e gerou uma interferência direta nos rumos da casa "mais vigiada do Brasil": o participante investigado pela denúncia foi expulso do reality e, desde então, seu paradeiro é ignorado.
Daniel saiu rotulado como estuprador, não tem jeito. Isso mesmo depois do depoimento de Monique, apontada como vítima no caso, no qual qualquer possibilidade de violência foi derrubada pela moça.
Com Monique eliminada do programa, e com mais negativas da parte dela, nada restou se não a ordem para arquivar a investigação.
Diante disso, pergunto: como os danos gerados à imagem de Daniel serão reparados a partir de agora? 
Fiz a pergunta no Twitter, mais cedo, e rendeu pano pra manga. A mensagem foi muito retuitada e recebi vários replys de pessoas que culpam a TV Globo pela mancha ora impressa no currículo - e na vida - do ex-participante do programa.
Bom, é claro que a Globo tem o seu quinhão nessa história. E nem preciso dizer que ele é grande. Daniel foi exilado e sequer pode usar o espaço que a emissora dedica a todos os ex-BBBs pra se explicar. À essa altura, não há dúvida, a emissora já deve estar ciente de que um processo pode estar a caminho ou, quem sabe, um belo acordo com o rapaz.
Mas acontece que a Globo não é a única implicada na história. Muitos programas de TV - de emissoras concorrentes - usaram a abusaram da polêmica na corrida pelo Ibope. E sapecaram o rótulo de estuprador em Daniel. E, além das pessoas jurídicas, muitas pessoas físicas também replicara a história indiscriminadamente. Sim, meus caros! Muitos internautas apregoaram na tribuna livre da web um veredicto sobre o qual ninguém poderia ter a menor certeza. Julgaram e condenaram o participante e, o que é pior, difundiram seus levianos julgamentos em sites, blogs e redes sociais. Ou seja: produziram provas contra si mesmos. Com base na decisão tomada ontem pela Justiça, não precisa ser expert em Direito pra dizer que Daniel foi difamado e caluniado. E, à essa altura, muita gente pode estar devendo uma grana ao ex-BBB a título de lhe reparar danos morais que, sinceramente, nem sei avaliar que extensão têm.
Que a internet é, por princípio, democrática, não há dúvidas. Mas há que se ter muito cuidado sobre tudo o que se publica e se comenta nesse território tão polifônico. Porque afinal uma hora a conta pode chegar. E sair muito mais cara que o serviço de banda larga...

PS.: No mínimo curioso notar que a Globo só deu espaço ao Daniel em seus telejornais depois que a Justiça tomou posição favorável ao rapaz. Não?

3.4.11

Homofobia nossa de cada dia...

Há quase três semanas, fiz a entrevista mais difícil de toda a minha carreira. Num início de noite, eu e a equipe do Salto cruzamos a Ponte Rio-Niterói para gravar uma entrevista com Angélica Ivo. Angélica é uma mulher jovem, bonita, simpática e, infelizmente, marcada por uma tragédia. Alexandre Ivo, seu filho, foi brutalmente assassinado, aos 14 anos, num dos mais recentes - e bárbaros - casos que envolvem a homofobia no Brasil.
Ali, diante de Angélica, precisei me conter por diversas vezes para não acompanhá-la no choro - embora meu desejo fosse abraçá-la e chorar com ela. Afinal, o que se diz para uma mãe que passa por uma tristeza imensa como essa? 
A blusa de Angélica trazia uma foto do filho. Alexandre, menino que nunca veremos adulto, terá para sempre aquela fisionomia doce, inocente. Ali, durante a gravação, por várias vezes me peguei olhando para aquela fotografia e me perguntando como alguém pode ter coragem de cometer uma atrocidade daquelas. Que sentimentos tem alguém que tortura, maltrata, espanca e mata um garoto de 14 anos?
Voltei para a TV muito triste. Tão triste que não tive cabeça para escrever sobre a entrevista aqui no B@belturbo. Os dias foram passando, comecei a editar a reportagem - tarefa que devo concluir nessa semana - e um episódio envolvendo o deputado Jair Bolsonaro me fez ter disposição para falar no tema aqui no blog.
Acho que é dispensável situar o que o pronunciamento da "excelência" tem a ver com o fato. Afinal, não me parece equívoco algum dizer que quem propaga a homofobia e o preconceito - como fez e faz Jair Bolsonaro - coloca armas nas mãos de criminosos como os que acabaram com a vida de Alexandre Ivo. Quem acha aceitável repudiar homossexuais - condição que não atribuo ao menino, que fique claro - defende que mais e mais assassinatos bárbaros sejam cometidos por quem, na verdade, está em crise com a própria sexualidade.
E pergunto: o que pretende quem hoje argumenta que a homofobia não pode se tornar um crime em nome da "liberdade de expressão"; ou seja, para que lhes seja garantido o direito a "criticar" a orientação sexual alheia? Pretende ditar os preceitos da moral e dos "bons costumes"? Pretende propagar suas visões de "certo" e "errado" e empurrá-las goela abaixo do restante da sociedade? Pretende parar por aí? Ou pretende, no futuro, voltar-se contra os rituais indígenas, as manifestações da cultura afrobrasileira e tudo o mais o que parecer "diferente"?
Não sei o que move essa gente - além do preconceito e da ignorância, claro. Só sei que a sociedade precisa enfrentar essa discussão de frente. Encará-la como um assunto importante, que pode poupar vidas inocentes como a do Alexandre Ivo. Porque uma sociedade que permite que seus jovens sejam barbaramente assassinados não pode se dizer uma sociedade séria. 
No mais, uma profunda vergonha de viver num país que tem representantes do quilate de Jair Bolsonaro...

14.1.11

Sobre a polêmica do novo horóscopo...

Gosto de Astrologia. Não sou um fiel seguidor, nunca fiz meu mapa astral e sequer sei qual o meu ascendente. Mas gosto de ler as previsões da Barbara Abramo na Folha e lembro de várias ocasiões em que o texto coincidiu com momentos importantes da minha vida. Enfim, é algo bem na linha do acredite se quiser...
Como libriano, sou um sujeito muito identificado com as características do meu signo - inclusive com o próprio símbolo que o representa: a balança. Procuro ponderar, entender os dois lados de um fato ou de um fenômeno, busco tomar decisões justas...e peso bastante minhas ações e palavras. Sem falar da ligação de Libra com a Arte em todas as suas manifestações, traço muito marcante na minha vida.
Pois bem! Passei 30 anos sendo libriano e, ontem, qual não foi minha surpresa ao descobrir que, segundo o astrônomo Parke Kunkle, entrevistado pela NBC, o horóscopo mudou completamente em decorrência das movimentações da Terra e do Sol. De acordo com a tese defendida por Kunkle, o zodíaco passa a contar com um novo signo, o Serpentário. E a entrada desse novo signo na parada muda radicalmente a configuração atual, criada há quase 3.000 anos. Essa polêmica novidade deixa o zodíaco assim:

Capricórnio: 20/01 a 16/02
Aquário: 16/02 a 11/03
Peixes: 11/03 a 18/04
Áries: 18/04 a 13/05
Touro: 13/05 a 21/06
Gêmeos: 21/06 a 20/07
Câncer: 20/07 a 10/08
Leão: 10/08 a 16/09
Virgem: 16/09 a 30/10
Libra: 30/10 a 23/11
Escorpião: 23/11 a 29/11
Ophiuchus (Serpentário): 29/11 a 17/12
Sagitário: 17/12 a 20/01

Já conheci muita cobra venenosa nessa vida, mas não sei se todas nasceram entre 29/11 e 17/12. Será?
Não sou do tipo que resiste às mudanças mas, nesse caso, creio que a novidade compromete a credibilidade de toda a Astrologia - que, aliás, já é questionada por muita gente. Como é que alguém que, como eu, passa a vida identificado a um signo de uma hora para outra descobre pertencer a outro?
Como já escrevi no Facebook, vou ignorar solenemente essa novidade. Sou Flamengo e libriano até morrer!!!

12.1.11

E Xuxa ganha indenização da Igreja Universal...

Um dos posts mais populares nesses cinco anos de B@belturbo foi o que comentava - em tom crítico - o fato de o jornal Folha Universal, da Igreja Universal do Reino de Deus, ter estampado na capa de uma de suas edições uma manchete que afirmava que Xuxa tinha feito um pacto com o capiroto. O blog recebeu uma avalanche de visitas e vários leitores se dividiram entre os que condenavam a igreja e os que condenavam a infeliz reportagem (?!?!).
Pois bem. A IURD já tinha perdido uma batalha nessa história maluca, como também comentei aqui. E ontem, pouco mais de dois anos depois da confusão ter vindo à tona, a Justiça entendeu que Xuxa tem o direito de receber R$ 150 mil da empresa que edita o jornal. A Universal ainda pode recorrer da decisão, mas não preciso ter pacto com ninguém para entender que, se a Justiça observar o que dizem as leis, a loira vai levar a melhor em cima da Universal.
O que, repito, acho muito justo nesse caso.

8.1.11

Novela Ronaldinho Gaúcho mostra que é o dinheiro que manda no futebol...

Não sou o maior fã de futebol da face da Terra. Torço pelo Flamengo e, claro, quero ver meu time sempre bem nas competições. Mas não tenho o encanto de um rubro-negro que não perde uma única partida disputada pela equipe, ou que chora copiosamente quando o resultado exibido no placar nos é desfavorável. Vejo o futebol com humor e como algo que, embora possa até me fazer feliz, jamais mudará minha vida a ponto de me deixar seriamente triste. Ou doente.
O leilão que cerca a volta de Ronaldinho Gaúcho aos campos brasileiros só tem reforçado essa minha percepção. Qual o valor dos clubes e de suas torcidas num momento como esse, em que está claro que atleta, empresário, cartolas e patrocinadores estão numa disputa por alguns milhões de reais?
Como rubro-negro, é claro que gostaria de ver o R10 defendendo as cores do meu time. Mas, do jeito que tá tudo sendo feito, tá tudo muito feio...

17.11.10

Sobre a homofobia nossa de cada dia...

No último domingo eu cobri a Parada Gay do Rio. Vi a Avenida Atlântica tomada por uma multidão colorida, alegre e consciente da importância das reinvindicações do Movimento Gay. Há muito o que avançar no que diz respeito à garantia de direitos básicos para homens e mulheres que amam pessoas do mesmo sexo e que, muitas vezes, são tratados como cidadãos de segunda classe. Reflexo de um preconceito cristalizado, segundo o qual a sociedade julga essas pessoas pelo que elas fazem entre quatro paredes, e não pela vida que levam em grupo.
Entrevistei gays, lésbicas e travestis. Entrevistei um rapaz heterossexual que foi à parada para apoiar o pai, homossexual assumido. Entrevistei uma senhora lésbica que se disse descrente do poder de mobilização da parada - segundo ela, apenas um "momento de liberdade". Ouvi um jovem dizer que "ser gay é ser normal, como outra pessoa qualquer". E ouvi muitas coisas que me fizeram crer que o Brasil pode estar avançando como sociedade que respeita os direitos individuais.
Aí, voltei pra casa. E vi a história do jovem agredido com lâmpadas na Avenida Paulista, coração de São Paulo. Horas depois, soube do jovem agredido no Arpoador, logo depois da Parada Gay, no Rio de Janeiro. Casos isolados, mas que jogam luz sobre uma trágica realidade: a homofobia é parte do cotidiano de milhões de brasileiros diariamente.
A mídia pouco noticia casos dessa natureza. E, como li dia desses no Twitter de @jeanwyllys_real, quando esses fatos ganham espaço, raramente aparecem associados ao termo "homofobia". Há medo de assumir - e, portanto, de enfrentar - essa grave forma de discriminação. Cheguei a ouvir ontem um comunicador de rádio dizer claramente que o jovem foi baleado no Arpoador porque estava namorando num local público, enquanto "devia estar namorando em casa". Segundo o radialista, "ainda não estamos preparados para ver dois homens se beijando".
Pergunto: estamos preparados para ver alguém usar um microfone para banalizar um crime?
É claro que a sociedade é heteronormativa e, portanto, resiste à ideia de ver casais de iguais trocando carícias publicamente. Mas também é claro - e um evento de mobilização como a Parada Gay do Rio ajuda a comprovar isso - que esses tabus precisam ser revistos. Eles não podem impedir o avanço das conquistas das minorias. Tabus como esses existem para que sejam superados. Do contrário, ainda teríamos negros sendo trazidos da África como escravos e mulheres tolhidas de qualquer direito à participação nas decisões coletivas e impedidas de ingressar no mercado de trabalho.
Fico feliz de trabalhar numa emissora que cobre um evento como a Parada Gay sem interesse nos estereótipos e sem "carnavalizar" uma mobilização que é séria. E que, se tiver atendidos suas reinvindicações, poderá impedir que novos gays, lésbicas, transexuais e transgêneros sejam vítimas fatais de crimes bárbaros como esses de que tivemos notícia nos últimos dias.
A gravação que fiz para o Salto vai ao ar na temporada de 2011. Aviso aqui quando estiver perto.
E você, o que pensa a esse respeito?
Comentaê!!!

1.11.10

A eleição nos tempos do Twitter...

No começo do ano, quando o assunto dominante na rede dos 140 caracteres era o Big Brother Brasil, lembro de ter comentado que gostaria de ver tamanha adesão ao tema mais importante do ano: as eleições. E foi exatamente o que vi!
Estimulados principalmente por redes como o Twitter e o Facebook, que permitem comentários, réplicas e tréplicas inesgotáveis, os internautas brasileiros botaram a boca na web e opinaram sobre cada lance decisivo da campanha. No Twitter, não foram raras as vezes em que a lista dos tópicos mais populares traziam palavras relacionadas à disputa presidencial - desde #dilmanão a #serrarojas.
Mas o mergulho dos internautas brasileiros na política esteve longe de ter apenas aspectos positivos. Muitos falavam no assunto apenas para fazer graça e outros, tanto pior, utilizaram as ferramentas disponíveis na web para propagar preconceitos e boatos maldosos. Quem não recebeu uma avalanche de e-mails anunciando que um pastor fez nefastas previsões sobre um eventual governo de Dilma Rousseff? Quem não acumulou scraps - sim, o Orkut balança mas não cai!!! - de amigos criticando esse ou aquele candidato? Práticas lamentáveis que, além de invadir o espaço de cada um, revelam uma falta de educação sem tamanho.
Ontem, com a eleição definida, houve quem comemorasse o esfriamento dos ânimos. Comemoração precipitada: alimentados pela divulgação dos mapas da apuração, contendo informações sobre a votação de Serra e Dilma de acordo com a região do país, tuiteiros voltaram a gastar seus 140 caracteres para vomitar preconceitos. Eis alguns (tristes) exemplos:




Como disse no post anterior, essas eleições também trouxeram à tona um fortíssimo preconceito de classes. Gente que se acha numa posição privilegiada e que, frustrada com os rumos que o país toma, acaba se imaginando no direito de desqualificar o desejo da maioria. São intelectuais de quinta, que sequer sabem respeitar o princípio básico da democracia, que estabelece que o desejo da maioria deve ser respeitado e acatado como o desejo de todo o país.
Alguns dirão que a democracia também pressupõe o respeito à liberdade de expressão. E estão certos, claro! Mas liberdade de expressão nada tem a ver com demonstrações que beiram a xenofobia. Demonstrações que deixam claro o quanto ainda precisamos evoluir como povo. E, mais que isso, revelam que muitos de nós, pretensamente superiores e intelectualizados, ainda carecemos de valores humanos.

8.10.10

Silas Malafaia e a "liberdade de expressão"...


Religião a serviço da intolerância: campanha que está nas ruas do Rio de Janeiro desrespeita as diferenças

Essa é a foto de um dos outdoors que estão espalhados pela cidade do Rio de Janeiro. A mensagem clara é uma crítica (?!?!?) a padrões afetivos que rompam com a ideia da heteronormatividade. Ou seja: é uma campanha contra a homossexualidade e, consequentemente, contra os homossexuais.
É claro que nada disso é dito assim, de forma direta. Afinal, dizem que "Deus condena o pecado, mas ama o pecador". Fato é que, em nome de Deus, muita gente estimula crimes de ódio. Insulflando a ideia de que "o normal é ser hetero, pois Deus fez macho e fêmea", setores religiosos mais radicais agem preconceituosamente, incentivando a homofobia e implantando na mentalidade de alguns dos mais vulneráveis grupos da sociedade o desrespeito ao que é diverso.
Por que resolvi escrever sobre isso? Porque acho a hipocrisia é deplorável! Porque acho o preconceito - qualquer que seja ele - algo detestável! E porque um país que pretende ser grandioso - e não apenas grande - não pode seguir em frente dando espaço a discursos que maquiam suas verdadeiras intenções. Manipulando as massas, lideranças pra lá de contestáveis escondem suas reais pretensões. Criticam gays, lésbicas, transexuais e transgêneros sob o argumento de que devem ter garantida a liberdade de expressão. E dizem que isso nada tem a ver com preconceito.
Ora, que argumento mais falho! Então, seguindo a cartilha de Silas Malafaia & afins, em nome dessa tal "liberdade de expressão", poderemos, no futuro, tecer críticas aos negros? Ou aos judeus? Ou aos deficientes? Poderemos dizer que não concordamos com os rituais indígenas? Com os preceitos espíritas? Com o estilo de vida pregado em algumas ramificações do cristianismo? Em nome dessa louca "liberdade de expressão" poderemos voltar a chutar santas?
É isso?
E qual seria o próximo passo? Apedrejar mulheres que não usam saias até as canelas?
Porque, partindo desse princípio, os arianos poderiam voltar a agir. Hitler teria todo o direito de empreender nova caçada aos judeus e, consequentemente, a propagar a ideia de que a "raça ariana é superior". E todos deveríamos respeitar sua "liberdade de expressão".
Os racistas poderiam ganhar força. Poderiam seguir xingando e destratando negros. Afinal, a "liberdade de expressão" estaria garantida.
Já pensaram nisso?
A sociedade brasileira precisa discutir seriamente essas questões. Precisa discutir a presença das lideranças religiosas na política, na televisão, nas nossas vidas! E não me refiro apenas ao infeliz outdoor espalhado pela igreja do Malafaia - que até outro dia pedia dinheiro para manter um canal de televisão. Falo, também, do espaço que as questões de fé têm ocupado, por exemplo, na campanha presidencial. Quando um país como o Brasil - com todos os problemas que enfrenta em áreas como Educação, Saúde e Segurança Pública - deixa de lado essas questões para falar de dogmas religiosos, é sinal de que o alerta vermelho deve estar aceso. Aceso nas consciências de todos que queremos um país mais justo, mais ético e, sobretudo, mais correto no tratamento com seus cidadãos. De todos e todas os brasileiros e brasileiras!
Se chegarmos a esse ideal, não tenho dúvidas de que Deus - seja lá como ele for ou que nome tenha - terá a certeza de que estaremos no caminho certo.
O que vocês pensam sobre essa história, turma? Taí um debate que realmente importa. E não importa apenas aos gays e aos cristãos. Creiam: um debate como esse pode dizer muito sobre os rumos do país que iremos construir para nossos filhos e netos.
Comentaê!!!