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22.8.10

RESENHA: Quando o canto (de Roberta Sá) é reza...

Se fosse desafiado a usar apenas um adjetivo para descrever o novo CD de Roberta Sá, não vacilaria: brasileiro. Quando o canto é reza, lançado pela cantora nesse mês, é um disco que tem a proeza de traduzir a brasilidade da nossa música. Saudando as composições de Roque Ferreira, Roberta Sá coloca seu (cada vez mais) belo canto a serviço de um repertório irretocável.
Evocando orixás, louvando o vestido de chita ou cantando deliciosamente a cocada, Roberta - que tem a companhia do Trio Madeira Brasil no disco - usa sua voz afinada para nos conduzir a uma viagem por um Brasil que a gente chega a esquecer que existe. A simplicidade das letras contrasta com a suntuosidade dos arranjos - adornados por cordas e econômico com a percussão. O resultado: o CD não resvala na obviedade e soa original, sofisticado e, por mais que pareça contraditório, simples. Agrada já na primeira audição.
Canções como Zambiapungo, na qual um dos versos diz "Tempo me temperou com dendê", são tão melodiosas que se torna praticamente impossível não querer cantar junto. Em Cocada, Roque Ferreira faz um refrão ligeiro e divertido, que parece talhado para brilhar na voz de Roberta Sá: "Trepe no coqueiro / tire o coco e vá quebrar / Quebre o coco e tira a casca / Pegue o coco e vá ralar". Além da vontade de comer cocada, a faixa desperta o desejo de soltar a voz e cair no sambinha gostoso criado pelo baiano.
Água da minha sede, conhecida na gravação de Zeca Pagodinho, ganha novo registro. Surge como outra canção nesse disco, valorizada por um arranjo rico em harmonias. A letra ganha ainda mais força e a poesia de Roque Ferreira toma o primeiro plano. Irresistível como Orixá de Frente, outra pérola desse repertório valioso. Narrando a beleza da "preta", Roque Ferreira cria versos que parecem saídos de uma canção de Caymmi. "Venha ver como é lindo uma preta na roda / Toda se bulindo, Iaiá / O pano da costa do ouro / Cobrindo o colar". Dois mestres brasileiríssimos!
Poderia ficar aqui enaltecendo a qualidade dos versos, dos arranjos e a lindeza do canto de Roberta Sá. Mas acho que me tornaria repetitivo. O disco é belíssimo e imprescindível para quem é fã de MPB.
Preciso dizer que recomendo MUITO?
Que venha o show!!!

13.12.09

Sobre o Nove + 1 de Ana Carolina...

Ana Carolina tem um talento incontestável. E também não se pode negar a irregularidade de sua discografia. Autora de belas canções e baladas inesquecíveis, a mineira derrapa com certa frequência na gritaria e na produção de versos quase incompreensíveis, como os de Elevador e Rosas. Sem falar em sambinhas gostosos como Cabide, dado a Martinália...
Pra mim, o saldo de Ana é positivo, embora não tenha comprado os dois últimos lançamentos da artista.
Mas na sexta, ao entrar numa megastore, eu me deparei com um novo lançamento: Nove + 1, pelo selo Multishow Registro. Disponível em cd e dvd, a novidade de Ana Carolina vem para celebrar os 10 anos de carreira da artista. Não resisti e comprei! E fiz um bom negócio!
A produção do dvd é irretocável! Gravado num casarão do Alto da Boa Vista, no Rio, o vídeo tem fotografia, cenografia e iluminação belíssimas, que fogem da obviedade do registro no palco ou no estúdio - um desejo revelado pela cantora já no making of. Mas de nada vale uma bela embalagem se o conteúdo não for dos melhores e, também nesse quesito, Ana não deixou a desejar: recrutou um time de primeiríssima para dividir as canções do repertório: Bethânia, Gil, Roberta Sá, Angela Ro Ro, Luiz Melodia, Seu Jorge, Maria Gadú e Zizi Possi são os destaques.
Já na primeira audição do cd, ainda no carro, voltando pra casa, fui fisgado pelos sambinhas. Cabide Ana canta com Luiz Melodia. É um registro malemolente, malandro, bem no clima da letra. Gostoso de ouvir. Milhares de Sambas, de letra muito bonitinha, ganha muito charme com a presença luminosa de Roberta Sá - num dos melhores momentos do disco. Gilberto Gil canta seu Torpedo com Ana, numa gravação também alto-astral, embora o samba não me contagie muito.
Com Angela Ro Ro, Ana reafirma seu desejo por Homens e Mulheres com uma mistura de bolero e tango, em outro bom momento do projeto. Tá rindo é? marca a volta da parceria de sucesso da mineira com Seu Jorge, em mais um sambinha gostoso de ouvir, com letra que parece traçar uma crônica do cotidiano. Com Bethânia, Ana divide Eu que não sei quase nada do mar, composta para a baiana. O dueto é correto, mas não chega a envolver. Talvez pelo fato de ambas já terem cantado muito a canção em projetos recentes. Uma dose de frescor na escolha da canção a ser divida com Bethânia teria sido salutar...
E dois dos meus momentos preferidos do disco são as baladas. Zizi Possi é saudada por Ana Carolina no making of do dvd por ter feito o registro definitivo da bela Ruas de Outono, que ganha muito com a interpretação delicada e certeira de Zizi. O encontro das duas na canção é realmente muito sensível. Com a revelação Maria Gadú, Ana Carolina divide um blues, Mais que a mim, bem bonito e inspirado - com as duas cantando lindamente - embora, se eu pudesse escolher, teria optado por menos arroubos vocais nos refrões. Arroubos que não chegam a tirar a beleza do dueto e da música.
Nove + 1, na minha opinião, é um acerto na discografia de Ana Carolina. Até mesmo por representar uma fuga da obviedade que seria lançar um dvd com seus grandes sucessos gravados ao vivo.
Recomendo!

5.10.09

Sobre os novos discos de Maria Bethânia...

Baiana lança dois discos simultaneamente. E, mais uma vez, oferece ao público o melhor da música em dose dupla...

Antes de tudo, devo dizer que cada vez me admiro mais pela capacidade de produção de Maria Bethânia. De sua geração, ela é, de longe, a cantora mais comprometida com a renovação da MPB e, sem que isso soe paradoxal, em apresentar aos fãs mais jovens os grandes compositores da história da nossa música.
Hoje, chegaram às lojas os mais recentes trabalhos de Bethânia: Tua e Encanteria. Tua tem sonoridade mais urbana e temática romântica. Ainda preciso ouvir muito mais: na primeira audição, no carro, cansado depois de um dia de trabalho e compras, cheguei a achar o disco um pouco monótono na primeira metade. Mas, além da canção homônima, fiquei fascinado por "Você Perdeu". Belíssima!!!
Mas foi a outra novidade de Maria Bethânia que mais me cativou! Encanteria é um discaço! Traz a maior intérprete da MPB em sua melhor forma, com um repertório que parece burilado para a sua voz. As modinhas, a viola, a fé, a emoção e os festejos divinos tão recorrentes na discografia da baiana surgem nesse disco de forma alegre, adornados por melodias requintadas e cativantes. É disco de samba, é disco de samba de roda, é disco pra ouvir batendo palma, dançando e saudando a todas as forças da natureza evocadas por Bethânia em canções como "Linhas de Caboclo". Mas Encanteria me conquistou mesmo na faixa 5: acompanhada pelo irmão Caetano e por Gilberto Gil, Bethânia homenageia Edith do Prato com "Saudade dela". Um registro em que os três cantores estão perfeitos e que, por si só, já valeria todo o disco...
Enfim, Maria Bethânia, mais uma vez, presenteia o público com dois grandes trabalhos. E o próximo presente chega em breve, com a estreia da nova turnê da cantora, no Canecão.

Vambora?

10.5.09

Dica sonora...

Comprei hoje e tô ouvindo bastante a trilha sonora de Slumdog Milionaire.
Como é bom ver que a música não tem limites, não tem barreiras e que, seja lá em que língua for, pode nos envolver e nos emocionar...
Não foi à toa que ganhou o Oscar desse ano!
Recomendo!

2.3.09

Dicas para ouvir e ler...

Esse post poderia fazer parte de uma série nova, algo como "antes tarde do que nunca". Mas o que importa é que, enfim, chegou a hora de falar de um belíssimo Cd e de um ótimo livro. Mas vamos por partes...
Quando Clara Nunes morreu, eu tinha menos de três anos. E nos vinte e cinco seguintes, ouvi e vi pouquíssima coisa dela, embora tenha em minha memória canções como Conto de Areia, O mar serenou e Morena de Angola. Semana passada, depois de gravar uma entrevista numa megastore, dei uma fuçada na prateleira de discos e encontrei um duplo dedicado à obra dessa grande cantora. Clara Nunes Guerreira é um discaço! Pra fãs novos - como eu - e também para os de longa data! Cheio de sambas de primeiríssima categoria, esse é, de cara, um dos melhores discos da minha coleção. A remasterização foi primorosa e o resultado deixa a impressão de que Clara gravou nos mais modernos estúdios da atualidade. A edição só não é mais perfeita porque não traz o encarte com as letras das músicas.
Aliás, vale o registro: Clara Nunes foi a primeira cantora brasileira a superar a marca de 100.000 discos vendidos, quebrando a primasia dos homens na indústria fonográfica brazuca. Não é à toa que ela ficou conhecida como guerreira...
A outra dica é literária: dei um tempo na biografia rame-rame do Paulo Coelho - na verdade, deixei essa leitura em segundo plano - e estou me deliciando com o 1808, de Laurentino Gomes. Sim, é outra descoberta tardia, uma vez que a obra foi lançada no embalo das comemorações do bicentenário da vinda da Família Real pra essa terrinha, celebrado no ano passado. Mas o que vale é que descobri o livro e a leitura é gostosa demais! Laurentino, cascudo jornalista que, com a obra, ganhou status de pesquisador, traz novos fatos sobre a conturbada fuga da corte portuguesa para a então colônia e, de quebra, mostra empenho em escrever numa linguagem atual e sedutora - tudo que falta à academia. Em suma: 1808 é um prato cheio para os amantes de bons livros e da História do Brasil - como eu!
É isso! Se possível, curtam as dicas! E contem o que vocês estão lendo e ouvindo, ok? Bora fazer a informação circular...

23.11.08

Love is a Losing Game...

Estou completamente apaixonado por essa música! Aliás, por todo o excelente Back to Black, o segundo álbum da carreira de Amy Winehouse. Comprei o disco semana passada, só pra fazer piada com uma amiga que não é muito fã da cantora britânica; e acabei rendido ao talento dessa artista.
Aos que ainda não conhecem o álbum, recomendo! E recomendo, também, que torçam pra que essa artista tão talentosa retome logo as rédeas de sua vida, a tempo de preservar um talento tão grandioso...
Viva Amy!!!

7.10.08

O discão de Michael Bublé...

Quase sempre apontado como o novo Sinatra, Bublé grava com maestria standards americanos e fez um Cd irretocável - e que o blogueiro aqui elogia com um atraso considerável...

Sei que os tempos são de crise para a indústria fonográfica e que, hoje em dia, poucos são os que ainda compram Cds. Mas, ainda assim, acho que coisa boa tem que ser divulgada! E é o caso do excelente Call me Irresponsible, do Michael Bublé. Eu já tinha ouvido o disco, logo assim que foi lançado - e já faz um certo tempo. Mas hoje eu baixei o álbum e fiquei maravilhado! O cara é um excelente cantor e fez uma gravação antológica da (já clássica) Always on my mind. Também ficou muito bonito o dueto com o brasileiríssimo Ivan Lins em Wonderful tonight - com direito a clima bossa-novista e Bublé arriscando palavras em português.
Sem falar na canção que me apresentou ao álbum: Me and Mrs. Jones, que já elogiei - e postei - aqui.
Enfim, aos admiradores da boa música, eis um bom prato! E Bublé vem ao Brasil em novembro! Bora pro show???

22.7.08

Da série: "a pergunta que não quer calar..." 16

É destaque da home do UOL nesse momento:
Cismado, eu vos pergunto: O que leva um editor a pensar que nós merecemos isso?

13.7.08

Mais um paradoxo baiano...


Diferenças e semelhanças entre as cantoras mais populares do Axé Music são igualmente grandes. E se tornam ainda mais acentuadas agora que Cláudia Leitte põe o pé na estrada com sua carreira solo...

Como duas artistas podem ser tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão parecidas? Enquanto uma é loira, outra é morena. Enquanto a morena troca de namorados, fala abertamente da vida pessoal e nunca deixa de exibir um ar sacana no trato com fãs e mídia, a loira é casada e discreta quando o assunto é a intimidade. Em comum: a trajetória iniciada em bandas baianas; o gênero em que suas carreiras decolaram; o timbre de voz, meio grave, meio rouco; e o fato de terem legiões de fãs apaixonados e a seus pés.
Sim, Claudia Leitte e Ivete Sangalo têm muito em comum. Mas são muito diferentes! A indústria sabe disso, a imprensa alimenta a rivalidade só pra se dar bem e as duas fingem que não há uma disputa em curso. Mas que deve haver, minha gente, isso deve!
Quando Claudia Leitte fez seu show em Copacabana, uma curiosidade se abateu sobre mim e fui conferir o que a "baiana" tinha a oferecer.Vi, não gostei e disse aqui.
Agora, com o disco espalhado pelas prateleiras das "boas casas do ramo", o trabalho da ex-vocalista mereceu uma (dura) crítica de Mauro Ferreira. Dura e lúcida, que joga luz, mais uma vez, sobre a inegável vontade que Claudia Leitte e/ou sua gravadora tem/têm de fazer dela uma nova Ivete Sangalo.
Já fui acusado por alguns amigos de implicar com a loira por preferir a (versão) orginal, morena. Não escondo minha admiração pela Ivetuda e isso é notório. Mas, independe disso o fato de achar Claudia Leitte uma artista ainda em processo de amadurecimento, ainda sem identidade musical e ainda sem provas de que irá desenvolvê-la um dia. E que, apesar disso, tem por trás de si uma multinacional da indústria fonográfica.
Acho que fica claro que a Universal Music vai trabalhar duro pra fazer esse disco de Claudia Leitte bombar no Brasil, ocupando as brechas deixadas por Ivete Sangalo, sabidamente interessada em investir (pesado) numa carreira internacional a partir do ano que vem.
Resta saber se a loira - que, ainda por cima, acaba de engravidar - vai ter o carisma que a morena tem de sobra. E se o público terá disposição (no meu caso, paciência) para o sucesso de uma artista que sai em carreira solo gravando disco com sucessos do ex-grupo e atirando pra tudo quanto é canto na hora de escolher os convidados para a gravação...

7.3.08

Sobre Bethânia & Omara...

Projeto que une as vozes das duas grandes cantoras rende belos momentos, mas peca por excesso de repetecos no repertório...

Hoje, enfim, ouvi o disco das duas grandes cantoras. Um pouco melancólico, o álbum traz belos arranjos e revela uma "dona" Omara - como diz Bethânia - em plena forma vocal. Do lado brasileiro, a filha da centenária dona Canô também corresponde com belas interpretações - em português e espanhol.
O repertório, com duetos e solos intercalados, me pareceu um bocadinho irregular. A deliciosa "Só vendo que beleza (Marambaia)" é momento raro de alto astral e apresenta ao público o melhor dueto de todo o disco.
Mas vamos aos pontos positivos...
Omara ataca com belos boleros: "Nana para um suspiro" é a minha preferida, mas "Sempre em mi corazón", "Mil Congojas" e "Mariposa de Primavera", à primeira audição, também me chamaram atenção.
Bethânia rende bons momentos e, em "Menino Grande", canta em tom confessional, meio sussurrado, e enche de doçura a letra de amor. "Arrependimento" é um convite à fossa ampla, geral e irrestrita, e um convite da baiana é inegável! Como inegáveis também são as raízes de Bethânia, assumidas com delicadeza, belíssimo arranjo de viola e o auxílio de Dona Omara em "Caipira de fato", uma das minhas preferidas no disco.
Agora, o grande ponto de interrogação - porque não chega a ser negativo, dada a qualidade do trabalho - é a quantidade de músicas já fartamente gravadas por Maria Bethânia - algumas, muito recentemente - e que figuram na lista. "Sábado em Copacana", por exemplo, esteve em "Maricotinha Ao vivo" e no recentíssimo "Dentro do Mar tem Rio". Trazê-la de volta nesse projeto me pareceu um pouco impertinente. O mesmo digo de "Você", gravada em espanhol sob o título de "Tú", e "Palavras" - agora, "Palabras"; ambas de Roberto Carlos e igualmente já gravadas em projetos anteriores da artista brasileira.
Em suma: é um bom disco, que poderia ser ótimo não fosse a falta de frescor de parte do repertório escolhido...

6.12.07

O novo disco da Abelha Rainha...

Disco novo de Maria Bethânia é bom, mas destoa um bocado da grandiosidade do espetáculo que lhe serviu de matriz...

Um disco de Maria Bethânia é sempre um disco de Maria Bethânia. E isso quer dizer requinte na produção, repertório bem escolhido, belos arranjos e interpretações marcantes para canções e textos. "Dentro do mar tem rio - ao vivo" não foge à regra. Mas, ainda que seja fã da cantora, não posso deixar de notar que há algo estranho nesse disco. Pareceu-me um pouco frio para um disco ao vivo, registrado num show tão arrebatador quanto o que origina este álbum. Digo isso porque assisti ao espetáculo em duas ocasiões e, em ambas, notei uma platéia muito mais efervescente do que a que aparece nas faixas desse cd duplo. E mesmo quando o coro se empolga, surge num volume baixo, como se nota em "Das maravilhas do mar fez-se o esplendor de uma noite".
Também não dá pra não notar que a voz de Bethânia parece não ter sido "retocada" digitalmente. O que está no disco é a alma da intérprete, inclusive com pontuais falhas e com a total supressão dos agudos tão festejados nas gravações originais de músicas como "A dona do Raio e do Vento".
Ponto positivo: a inclusão do festivo bis que agrega "A-la-la-ô", "Chiquita Bacana", "Chuva, suor e cerveja", "Água lava tudo" e "Frevo Molhado". Divertido! Sem falar na já antológica interpretação do texto "Ultimatum", sempre arrancando efusivos aplausos da platéia.
Agora é esperar o Dvd, que deve ser gravado no próximo final de semana, em São Paulo. Tomara que o vídeo retrate melhor todo o esplendor desse grande espetáculo. E que a platéia da Terra da Garoa se anime mais...

14.9.07

A pedida é...o samba dela!

O samba é dela, mas quem se deleita é a gente: "Samba Meu", terceiro disco da carreira de Maria Rita, tem produção caprichada, belas canções e mostra que a moça veio pra ficar...

Hoje chega às lojas de todo o Brasil "Samba Meu", o terceiro disco de Maria Rita. O álbum vem cercado de curiosidade, já que, dessa vez, a cantora dedicou todo o repertório ao mais brasileiro dos ritmos: o samba. Dois belos - e recentes - discos de sambas lançados por outras duas grandes cantoras (Marisa Monte e Roberta Sá) aumentaram ainda mais a atmosfera de suspense para a leitura que Maria Rita dará ao ritmo.
O blogueiro aqui teve o privilégio de conferir, no site montado para a coletiva-virtual de lançamento do CD, o primoroso novo disco da cantora. "Samba Meu", produzido por Leandro Sapucahy é imperdível! Produção caprichada, repertório de primeiríssima "catiguria" e uma sonoridade que se mostra diferente das alcançadas nos discos de Marisa e Roberta. Sim, Maria Rita encontrou o seu samba. Um samba que é popular sem perder a elegância. Samba que realça a beleza do canto dessa grande artista.
Arlindo Cruz destrona Marcelo Camelo e dá as cartas no repertório do CD! Com seis belas composições, o sambista é a prova de que Maria Rita foi beber na melhor das fontes antes de se aventurar no território do samba. Piano, baixo acústico e bateria - marcas dos arranjos dos discos anteriores da artista - foram mantidos, realçando um estilo que vem sendo desenhado por Rita desde seu primeiro e aclamado trabalho: "Maria Rita", de 2003. Em "Samba meu", a produção acrescentou ingredientes do bom e velho samba à base e incrementou ainda mais o som da cantora.
O disco começa a capela, com a faixa-título, composta por Rodrigo Bittencourt. A cantora logo ganha a companhia de uma chorosa cuíca e entoa belos versos. Com a adesão da Velha Guarda da Mangueira, Maria Rita faz de "O homem falou", sambão da melhor safra de Gonzaguinha, um dos melhores momentos do álbum (e estamos apenas na segunda canção!). "Maltratar, não é direito" é mais uma pérola de Arlindo Cruz e Franco, cantada com graça. “Num corpo só”, de Arlindo Cruz e Picolé, é samba cheio de sensualidade. Com charme e elegância, Rita se derrete na interpretação: "É só beijar tua boca que eu me arrepio, arrepio". “Cria” é assinada por Serginho Meriti e Cesar Belieny e começa com as vozes do filho de Maria Rita, numa brincadeira com o filho de Tom Capone, produtor de seu disco de estréia. Mais um bom momento do Cd...
Quando chega a vez de "Tá perdoado", a gente entende os motivos que fizeram o single do disco se transformar, quase que instantaneamente, num hit nas rádios do país. Também composto pela dupla Franco/Arlindo Cruz, esse é um belo samba, com alto astral e cantado por uma Maria Rita totalmente entregue ao mais carioca dos ritmos. Pelo conjunto, é das minhas preferidas no disco. Já dá pra imaginar as morenaças cantando e sambando nas rodas de samba na próxima primavera: "Seja do jeito que for / eu te juro meu amor / se quiser voltar / tá perdoado".
“Pra declarar minha saudade”, de Jr. Dom e Arlindo Cruz, é a faixa mais curta do disco e deixa um gostinho de quero mais no ar. Maria Rita aparece mais contida na interpretação desse samba romântico. Seu canto é mais grave, suave e sentimental. Igualmente bela é "O que é o amor", assinada por Arlindo Cruz, Maurição e Fred Camacho. Bonita letra, belíssimo arranjo. "Quando a gente ama é o clarão do luar / que vem abençoar / o nosso amor". A faixa transita de um jeito gostoso entre o sambão e aquele samba de boate da moda. Mas pode apreciar sem moderação: o resultado é uma mistura saborosa!
Para os amantes dos sambas-de-fim-de-amor, a pedida é “Trajetória”(Arlindo Cruz/Serginho Meriti/Franco). Tom mais agudo na voz da cantora, piano em destaque no arranjo da primeira parte da canção. "Recebe menos quem mais tem pra dar", diz um dos versos mais belos da letra assinada pela trinca de compositores ."Não há no mundo lei que possa condenar alguém que a outro alguém deixou de amar", continuam os sambistas, cheios de amor pra dar...
“Mente ao meu coração” (F. Malfitano) e “Novo amor” (Edu Krieger) me fizeram lembrar de gravações antigas de grandes cantoras da era de ouro do rádio. Maria Rita mostra toda a sua forma vocal e arrebenta. Com relação à canção composta por Krieger, vale lembrar que ela também foi registrada por Roberta Sá em seu último Cd. Na leitura de Rita, o samba ganha um arranjo num compasso mais rápido. Novamente sente-se a força desse ritmo tão brasileiro, e pode-se notar um quê de Chiquinha Gonzaga no ar...
Edu Krieger volta na faixa seguinte, "Maria do Socorro". A cuíca chora no início da música, mas esse samba é alegre e realça a versatilidade do compositor. Trata-se da história de uma dessas muitas tchutchucas que povoam o imaginário e as comunidades cariocas. “Corpitcho”, de Picolé e Ronaldo Barcellos, faz várias referências ao carioca way of life. "Oportunidade não cruza o Rebouças", "Madureira", "Império Serrano", "Copacabana", "Nikiti", "Paquetá" são algumas das citações ao Rio, nessa bela e alegre homenagem à cidade do samba. E a cantora mostra que conhece bem o universo, cantando a parte final da letra cheia de malandragem...
"Casa de Noca" fecha o disco. É um samba maneiro, de Serginho Meriti, Nei Jota Carlos e Elson do Pagode. E o CD termina do mesmo jeito que começou, com Maria Rita mandando ver a capela.
Em suma, "Samba Meu" é um discão para amantes de samba e da boa música. Maria Rita mostra que, a despeito de críticas, polêmicas, estratégias de marketing esquisitas, veio, sim, para ficar.
Que bom! E que venha logo o show, pro samba dela se tornar, também, o nosso samba...

26.8.07

Sobre o 'fim' de Sandy e Junior...

Passeando ontem pelo shopping, me deparei com essa peça promocional do novo disco de Sandy e Junior - o último disco de uma carreira de 17 anos, como todos já devem saber, tamanho o esforço de marketing que a gravadora tem feito para vender a idéia do fim da dupla.
Achei a foto linda. Mas, cá entre nós, o texto é oportunista até dizer chega! Completamente dispensável. O abraço dos irmãos é o tipo de imagem que, como diz o ditado, já valia "mais que mil palavras".
Aliás, falando neles, digo aqui que não tenho absolutamente nada contra os dois. Não tenho o menor preconceito com música pop (desde que possa ser considerada música, claro). E acho que são dois jovens muito talentosos mesmo.
Exatamente por isso, ouvi o tal "último cd", o 'Acústico MTV'. E tenho uma impressão: com o fim da dupla, é provável que a Sandy tenha mais barreiras a superar que seu irmão. Porque Junior, um dos produtores do álbum, já é notadamente reconhecido como um bom músico, bom arranjador e sensível na hora de produzir suas canções.
Bom, e você deve estar se perguntando sobre Sandy. Pois é...na minha modesta opinião, a filha do Xororó tem um grande obstáculo a superar: a voz. Se anos atrás, quando era uma mocinha capaz de representar o ideal de "a filha que todos nós queremos ter", Sandy soava uma grande cantora; hoje me parece uma mulher carregando uma voz de menina. De 15, 16 anos. Uma voz bonita, agradável de se ouvir (em alguns momentos), é verdade; mas uma vez sem o viço de mulher que pode fazer toda a diferença na hora da anunciada "carreira solo".
Em alguns momentos do Cd, parecemos ouvir a gravação original das canções, tal o grau de imutabilidade da voz de Sandy. Sem contar que o grave ali passou longe...
Torço para estar errado porque não há, de minha parte, o menor motivo para ansiar por um fracasso na carreira dessa jovem cantora. Torço para que escolha um repertório grandioso, que deixe em segundo plano as limitações de sua voz (afinal, todos temos limitações). Mas acho, honestamente, que a batalha será árdua. Porque num país tradicionalmente marcado por grandes cantoras, a concorrência vai ser fortíssima...
Ah...e tomara que, quando resolver lançar seu álbum solo, Sandy dê um chega pra lá nesse tipo de marketing que acabou por gerar esse post. Do contrário, já posso até imaginar uma foto dela em preto e branco, um pouco desfocada, olhos fechados, e a frase: "Começar de novo..."
Não precisa, né não?

22.8.07

Um Cd belo e nada estranho...

Grandes cantoras gravando discos de samba. Essa parece a mais nova tendência da MPB. Marisa Monte e Maria Rita são duas das estrelas a enveredar pelo caminho (Marisa, em 'Universo ao meu redor'; e Maria Rita em seu terceiro disco, ainda por lançar).
Mas ontem, depois de muitas recomendações de um novo grande amigo, comprei o melhor disco de samba da minha discoteca. 'Que belo estranho dia pra se ter alegria', de Roberta Sá, é uma obra-prima. Desde o projeto gráfico, sutil até dizer chega, ao cuidado com os arranjos de cada uma das 13 faixas. Tudo muito bom!
Lembro de Roberta na época do 'Fama', aquele pretensioso programa de calouros que nunca fez seus vencedores viraram, de fato, sucesso. Vai ver o caminho é não vencer, como se deu com essa grande cantora. Eliminada do reality-show, Roberta enveredou por um caminho muito mais seu, e sem as pretensões megalômanas de quem se pretende um grande ídolo. E é esse caminho, todo dela, que a gente pode trilhar junto, ouvindo esse belo trabalho. Dessa que é uma das maiores revelações da boa música popular brasileira...
Recomendo muitíssimo!

4.7.07

Eu e Paula, Paula e eu...

"Só Nós" é o nome do disco bacana que a Paula Toller tá colocando na praça essa semana. Pop dos melhores, como há tempos eu não ouvia.
Comprei por impulso: estava numa loja e ouvi "À noite sonhei contigo". Gostei do arranjo, da pegada gostosa da canção, da voz da cantora. E, depois, me peguei enrolando dentro da loja pra ouvir a outra música, e mais uma...três canções depois, já estava no caixa digitando a senha do cartão de débito...
A voz da loira tá bonitinha, afinada, bem correta e gostosa de se ouvir. Resultado? Desde ontem estamos só nós, Paula e eu, num clima de love total. Gamei pelo disco, gamei por uma Paula Toller lindíssima na capa e nas fotos do encarte, e por um cd leve e muito saboroso de curtir...
Recomendadíssimo!!!

4.6.07

Muito bem bordado...

Rodrigo Maranhão é um compositor que conheci através dos discos e shows de Maria Rita. São da autoria dele "Caminho das águas", o primeiro single do segundo disco da moça, e "Recado", do mesmo álbum. Eis que, agora, o rapaz resolveu dar a cara pra bater num cd próprio: "Bordado", que tem belíssimo projeto gráfico assinado por Cássia D'Elia.
São 11 faixas. Maranhão canta, toca violão, ganzá, cria efeitos e bate palmas. A sonoridade é bem bacana: regional e global. A voz do Rodrigo cai como uma luva para interpretar suas belas canções, cheias de referências a uma brasilidade que anda em falta nas prateleiras das lojas de discos.
Além das duas canções gravadas por Maria Rita - no disco, em leitura do próprio autor - destaco a bela "Noites do Irã" (me diz quem ditou essa moda / e quem vai julgar o juiz / e quem vai viver de mentira o sonho de outro país).
Em suma: comprei hoje e não parei de ouvir ainda. Tá mais do que recomendado!