11.6.14

Pela leveza do amor...

Li ontem que ruiu parte da grade da Pont des Arts, onde os amantes prendem cadeados para segurar - ou assegurar ? - paixões. A ponte parisiense não suportou o peso dos milhares de objetos depositados no gradil por turistas do mundo todo...
Turistas do mundo todo querendo que seus amores durem para sempre. 
Amores presos?
Sempre?
Perguntei no Facebook se o romantismo também ruira, ou se o amor é pesado demais. Um amigo retrucou, dizendo que o amor não pode ser aprisionado. Quando o é, pesa.
Espertalhão esse amigo! Mas desconfio que o amor ande mesmo pesado. Por isso, talvez, esteja se arrastando por aí, desencontrado de tanta gente. Pesam sobre seus ombros as escolhas, as abdicações necessárias para que possa caminhar sereno, tranquilo. Pesam sobre suas costas o egocentrismo, a intolerância e a impaciência; que acabam por inviabilizar um mergulho mais profundo num olhar outro, num ser outro e num outro ser. Pesam atados às pernas do amor o imediatismo e o descarte fácil, que acabam por motivar os envolvidos a deitar fora o que lhes parece como algo - alguém ? - sem serventia...
Pesa, enfim, sobre a cabeça do amor um conflito entre o que aqueles que parecem buscá-lo dizem que fazem e a forma como de fato agem. 
Pobre amor esse do nosso tempo. Com todo esse peso, como vai poder lembrar a todos nós que bom é amar com leveza, sem cobranças, angústias, ansiedade? Como vai nos mostrar que amor não é mar de rosas full time; que requer investimento, dedicação, paciência, sinceridade? Como vai provar que amar é uma escolha diária, um compromisso que se reafirma cotidianamente, dentre muitas opções que a vida oferece? É renunciar a algo que até pode parecer encantador, por crer que muito mais encanto tem o que se pode construir juntos, com afeto, parceria e sinceridade.
Não tenho as respostas. Mas, assumo: torço pra ver o amor novamente leve, e andando de mãos dadas com um monte de gente boa que tá por aí, com as mãos enfiadas no bolso. Ou com a cara enterrada no celular, enquanto não encontra olhos que pareçam mais interessantes, encantadores, desafiadores, atraentes e divertidos que a tela do Facebook...

8.4.14

E Valesca caiu na prova...

Polêmica envolvendo questão que trazia versos de funk aponta para a necessidade de nossa sociedade dar tiro, porrada e bomba no preconceito...
Desde ontem só se fala nisso no Facebook. A prova de filosofia aplicada pelo professor Antonio Kubitscheck, do Centro de Ensino 3 de Taguatinga, em sua turma do 3º ano do Ensino Médio. Uma foto postada nas redes sociais trazia uma questão em que os alunos precisavam escolher a alternativa que completasse os versos do sucesso "Beijinho no Ombro", da funkeira carioca Valesca Popozuda. Pronto! Foi o bastante!
Li muito sobre o assunto, fiz alguns posts sobre o caso, mas o Facebook não serviu para extravasar tudo o que penso sobre o caso. Não é de hoje que entrevisto professores e pesquisadores que relatam um fenômeno: nossas escolas - e não falo apenas das brasileiras, muito menos só das públicas - parecem instituições do século XVIII. Paradas, imutáveis, as escolas não têm conseguido despertar o interesse de jovens extremamente conectados, capazes de desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo, cada vez mais autônomos nos seus processos de desenvolvimento de habilidades múltiplas. Parece bobagem? Não é! Essa realidade implica numa longa, séria e necessária discussão sobre o papel da escola do nosso tempo; sobre a atuação do professor e sobre que tipo de cidadãos queremos formar. 
Pois bem, muitos desses mesmos especialistas assinalam para a importância de que o professor esteja sensível à realidade do aluno. Onde vive? Como vive? Quais são seus gostos? O que consome em termos de cultura? Que cultura produz/reproduz? Para esses pesquisadores, somente por meio do real entendimento do aluno e da realidade em que ele está inserido será possível que o professor estabeleça um diálogo, capte o interesse de crianças e jovens e possa, enfim, desempenhar seu papel educativo. O professor, entende-se, não é mais um transmissor de informações. Ele é mediador! Ele está entre o aluno e o conhecimento. E não há mediação sem troca, sem partilha. Trata-se de um processo permanente em que os sujeitos dão e recebem; dividem saberes para somar conhecimentos. 
Portanto, minha gente, o que o professor Antonio Kubitscheck fez de errado? Ao julgar seu trabalho por um recorte descontextualizado de um teste, erramos todos nós. O professor pode estar brincando? Pode! Aquela pode ter sido uma espécie de "pegadinha"? Sim! Mas também pode ser parte de uma ampla discussão travada em sala de aula. Sobre cultura, sobre a banalização da violência - já que os versos falam sobre "tiro, porrada e bomba", sobre...o que os alunos ouvem. Ou seja: pode haver ali uma discussão muito mais ampla e rica do que essa rasa argumentação de quem acha que "escola não é lugar de ouvir ou de falar de Valesca Popozuda".
A própria cantora se defendeu nas redes sociais. Sagaz, apontou o dedo para a ferida: há muito preconceito envolvido nessa discussão. Se fosse qualquer outra letra, de qualquer outro estilo musical, muito provavelmente a repercussão não seria essa. Acrescento: certamente não seria lançado sobre o trabalho do professor esse olhar pejorativo que paira desde que a notícia ganhou espaço nas redes e nos grandes portais noticiosos. Quem nunca fez uma prova em que um trecho de música tenha sido parte de uma questão que atire a primeira pedra! Ou que dê o primeiro tiro, porrada...ou jogue a primeira bomba!
"Ah, mas isso não é música que preste", dirão alguns. "Isso não é música", afirmarão outros. "Valesca Popozuda é ruim demais, não é cultura", sentenciará outra parte. Aí é que mora o perigo. Tratar o popular e o erudito segundo uma lógica hierarquizada é um equívoco histórico, que traz mais prejuízos que ganhos. A escola pode - e, a meu ver, deve - discutir Valesca Popozuda, Anitta e o que mais vier para dentro do seu cotidiano. É essa a realidade em que muitos dos alunos estão inseridos. Conhecer essa realidade, respeitá-la e, a partir dela, abrir um canal para apresentar outras manifestações da cultura é o caminho para que o professor consiga ter êxito em seu diálogo com os alunos. Mostrar que as expressões da cultura popular são reconhecidas na escola pode contribuir para que a sintonia com os estudantes seja, pouco a pouco, reconquistada. Ninguém gosta de se sentir menos, de se sentir menor. Imaginem como se sentem os alunos que percebem que seus gostos, suas músicas, suas preferências e seus hábitos são considerados "de um nível inferior" no cotidiano escolar...
Por fim, um alerta: essa história toda mostrou muitos críticos, muitos juízes, muitos dedos apontados, ávidos por condenar o professor e por definir o que é cultura. Vi gente que, como eu, também veio das classes populares, de família simples, virar as costas para essas origens e descer o sarrafo no que vem do povo. Turma, se preconceito já é terrível quando parte de quem não conhece a realidade em questão, pra mim, torna-se ainda pior quando vem de iguais. E mais: torna-se ainda mais cruel quando quem condena não tem elementos, conhecimento e informações suficientes para opinar. Educação é coisa séria! O professor é um profissional sério, merece respeito. Estudou para estar ali. Condenar esse profissional e seu trabalho sem sequer ter elementos para tanto é, esse sim, um enorme sinal de falta de preparo, falta de cultura e falta de educação. Sinal de que a escola em que vocês estudaram pode até não ter utilizado versos da Valesca Popozuda em provas, mas, certamente, pecou na construção de alguns valores fundamentais.

PS.: Beijinho no ombro.

6.4.14

Alianças

Em que fração de segundo foi determinado que seguiríamos estradas distintas? E as promessas? E os sonhos, para onde foram todos? E nossas mãos dadas, os filhos que geramos em nossas mentes? E a planta baixa de nossa casa, os passeios de domingo, as noites em claro pra cuidar das crianças que não teremos mais? E o seu sorriso encantador me dizendo o "sim" mais lindo que já ouvi na vida? E nosso beijo coreografado? E o calor dos nossos corpos se amando, e o frescor do teu olhar todas as manhãs? E tuas pernas entrelaçadas nas minhas sob o cobertor? E o teu perfume de flan, sua gargalhada esquisita e seus milhares de pares de sapatos? 
Nossa! Quantas lembranças! Aprendi com a vida que, nesse pra sempre que sempre acaba, algumas memórias ficam eternizadas...

9.3.14

Mais um ano de blog...

No início de março de 2006, quando decidi criar o B@belturbo, a internet era outra coisa. Não havia Twitter, o Facebook ainda não era um fenômeno e o Orkut - bem, nem vale a pena lembrar, quem se importa? Sim, também não vou citar o Google Plus, afinal tem gente que até hoje não sabe do que se trata... 
Enfim, naquele longínquo mês de março, criei esse espaço pra dar um destino às ideias que surgiam e não conseguia aproveitar. Passei a depositá-las aqui, compartilhá-las com os visitantes e dialogar com gente nova. Estreitei laços, conheci gente nova, ganhei admiradores, fui plagiado, um post foi selecionado para fazer parte de um livro, dei autógrafos. Postei, postei, postei...
Aí vieram todas as redes sociais. Aos poucos, as ideias que vinham pro blog foram se dividindo. Parte pro twitter, parte pro Facebook. Mas sempre que algo maior me mobilizava, era aqui que botava as ideias em ordem. 
Oito anos. Se o ritmo das atualizações não é o mesmo de antes, o carinho pelo blog é maior que nunca. Sou viciado na palavra, escrever é minha terapia, minha paixão. E tem sido um prazer visitar o arquivo e descobrir textos que ainda dizem muito de mim, do que sou e de como vejo o mundo. Há outros momentos, igualmente divertidos, em que me noto diferente do autor de outros tempos. Dores que se extinguiram, prazeres que mudaram, opiniões revistas. Novos valores, novos conceitos. Se dizem que a única constância da vida é a impermanência, o blog me mostra vivo: impermanente, em constante (re)construção. Que siga assim! Um canto meu e de quem mais quiser. Em transformação constante. Cheio de ideias. Vivo, como eu e você!

26.2.14

Acorda, Brasil!

Meus amigos me definem como um otimista. Acho que estão certos. Entre tantas formas de ver o mundo, tendo a enxergar sempre a que oferece possibilidades de avanço, crescimento. Creio na melhoria, o que não faz de mim um alienado, claro. Mas é muito difícil pensar dessa forma quando a gente se depara com uma vida real muito, muito diferente do que se acredita ser o melhor. Agora, lendo um post de um amigo, vi um comentário - de um amigo do meu amigo - celebrando a condenação de homossexuais a pena de morte em Gana. 

Sim, celebrando! 

Pode ser uma brincadeira idiota apenas, mas não me engano: muita gente pensa assim. Muita gente acha que as diferenças devem ser eliminadas sempre - como se isso resolvesse problemas criados por ideologias, não pelas pessoas. É gente que quer ver gay morto, pobre exilado em favelas cada vez mais distantes e inóspitas, beneficiários do Bolsa Família voltando a passar fome sem o benefício e menores infratores sendo linchados em praça pública - como voltou a ocorrer hoje. Isso só pra citar alguns exemplos. Gente que coloca o próprio umbigo acima de qualquer valor humanista e que afasta, de pronto, qualquer possibilidade de diálogo e de entendimento com o que lhe parece diverso. Essa gente desorientada que  não vê incoerência entre vaiar o prefeito e celebrar o carnaval atrás do bloco que a prefeitura patrocina - achando o máximo o fato de a folia ter crescido tanto aqui no Rio nós últimos cinco anos. Uma gente de quinta que briga por tudo, que destrata, maltrata e não se retrata. 

Acorda, Brasil. Se o país é essa merda toda, é porque sobra esterco no DNA de todos nós. E não precisa de laboratório nenhum pra constatar: e só sair na rua pra ver. Ou navegar um pouco nas redes sociais...

13.2.14

A política na era das redes sociais x o caos da informação e das opiniões

Se um amigo turista, capaz de entende português, abrisse o Facebook e fosse ler os meus feeds teria imensa dificuldade para fazer uma leitura racional dos últimos acontecimentos. Isso porque as redes sociais se converteram numa miscelânea de leituras - todas pretensamente politizadas - do momento atual. Um post, compartilhado por uma famosa colunista de O Globo, atribui a Dilma, Cabral e Eduardo Paes a "infiltração de baderneiros nas manifestações". Outro, lança dúvidas sobre a isenção de Marcelo Freixo, do PSOL, e aponta para uma suposta leniência da legenda em relação aos "black blocks". Muitos se arvoram no papel de peritos e duvidam da identidade do rapaz de camisa cinza, divulgando - sem parcimônia - fotos de um outro rapaz, como se fosse esse - até então desconhecido - o responsável pelo lançamento do rojão que atingiu e matou Santiago. E por aí vai...
Entendo a avidez pela "verdade". Mas acho que esse furor, potencializado pelo poder e pela velocidade da informação compartilhada em tempo real pode causar muito ruído. O rapaz da camisa cinza, por exemplo, postou um longo desabafo no próprio Facebook, reclamando do compartilhamento de sua foto e alertando para o fato de ter sido acusado sem provas. "Virei bandido?", pergunta. Se quisesse, poderia processar todos os que compartilharam suas imagens e lhe atribuíram a responsabilidade por algo de que se alega inocente.
Quanto ao uso político das manifestações, nitroglicerina pura. Mas supor que, em ano eleitoral, a presidenta da república esteja por trás das ações violentas desses manifestantes me parece uma hipótese fantasiosa - para dizer o mínimo. Será que os defensores desse argumento não imaginam que Dilma será questionada pelos oponentes exatamente pela inda de protestos violentos que tomaram o país? Esqueceram como o governo se mostrou surpreendido pela violência das mesmas manifestações, o que provocou, inclusive, um pronunciamento em cadeia nacional? Isso tudo é desgaste, gente. Desgaste que a presidenta enfrentou ao se posicionar publicamente sobre o tema - o que, aliás, ela tem feito muitas vezes desde então.
Cabral, que parece ter desistido de governar há tempos, sinceramente não me parece em vantagem ao orquestrar um plano como esse. Toda a sua impopularidade só tem crescido desde o início das passeatas. Adicionar à essa mistura um punhado de violência arruinaria ainda mais sua imagem. Seria a pá de cal sobre toda e qualquer pretensão política futura. 
Eduardo Paes tem a simpatia de boa parte do eleitorado. Pode mudar, mas ainda é assim - sobretudo nas comunidades e no subúrbio. O aumento das passagens de ônibus, definido por ele, está na origem das manifestações cariocas. Mas a impressão que se tem é a de que, apesar de tudo isso, o prefeito atravessa esse momento conturbado sem grandes prejuízos em sua imagem. E isso se deve ao caos vivido pelo carioca por conta das obras para as olimpíadas, às constantes mudanças no trânsito e a outras ações que transmitem à boa parte da população a ideia de que o prefeito está fazendo o seu trabalho. 
Freixo, cujo nome apareceu no noticiário numa manchete que envergonha qualquer jornalista sério, parece realmente correto demais para usar recursos tão odiosos em nome de uma eventual chegada ao poder. Se tem um pecado - e, na minha opinião, talvez seja esse seu calcanhar de Aquiles - foi não deixar claro para a opinião pública que seu apoio se limitava aos manifestantes que foram vítimas de ações violentas da polícia, e que, portanto, não se estendia a black blocks saqueadores de loja, depredadores de agências bancárias e afins. Por boa vontade e, talvez, por uma certa inocência política, acaba tendo o nome vinculado a ações que desagradam o eleitorado que poderia migrar para sua candidatura nas próximas eleições. Resta saber como vai virar esse jogo...
Mas há outros importantes atores políticos em jogo. Gente que quer sepultar Cabral, desestabilizar Paes e inviabilizar Freixo. Há de tudo. A coisa é sempre mais complexa do que parece. Por isso, a meu ver, é preciso ter muita cautela antes de sair compartilhando qualquer coisa por aí. Sem querer,  podemos estar cumprindo exatamente um script elaborado por gente da pior espécie, com as piores intenções. 
Mas essa é apenas a minha opinião...

1.2.14

Sobre aquele beijo de Niko e Félix...

Sinal dos tempos: dois homens se beijaram em horário nobre pela primeira vez no Brasil ontem
Walcyr Carrasco é um grande autor. Em seu currículo estão sucessos como "Xica da Silva", "O Cravo e a Rosa", "Chocolate com Pimenta", "Alma Gêmea" e "Caras e Bocas". Êxitos que o credenciaram a entrar no rol seleto dos autores que escrevem para o principal horário de novelas da Globo. A estreia foi morna. Não fosse pelo absoluto acerto na construção de Félix e pelo estupendo desempenho de Mateus Solano na defesa do personagem, talvez a novela tivesse se perdido num mar de tramas um tanto quanto frágeis. Mateus Solano levou a novela e deixou na história da TV brasileira um grande tipo, uma criação que será lembrada por muito tempo.
Com 221 episódios, depois de esticada em quase dois meses - o usual é que as novelas das nove tenham 180 capítulos - "Amor à Vida" conseguiu o improvável: promover a conversão de um vilão em protagonista! Detestável ao longo de 80, 85% da trama, Félix se arrependeu dos seus pecados e se tornou ainda mais querido pelo público. Ganhou um amor e, outrora conservadora, a audiência comprou a ideia e passou a torcer pelo happy end do ex-vilão. A pergunta que pairava no ar, no entanto, era: haverá beijo gay?
Horas antes da exibição do último capítulo de "Amor à Vida", ontem, críticos de televisão já especulavam sobre a exibição da cena envolvendo os personagens de Mateus Solano e Thiago Fragoso. Mais que isso: alguns apontavam que a direção da TV Globo estava decidida a romper esse paradigma, derrubando o tabu que ganhou força desde 2005, quando uma cena de beijo da novela "América", entre os personagens de Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro foi surprimida por ordens dos executivos do canal horas antes da transmissão do episódio, frustrando a autora, Gloria Perez, e os demais envolvidos na produção.
Ontem, o Brasil viu um beijo gay em horário nobre. De casa, ouvi gritos de uma torcida anônima, da qual sequer poderia imaginar a existência. Postei isso no twitter e recebi mensagens relatando episódios idênticos em várias partes do Rio, do Brasil. Por telefone, minha mãe contou que foi assim também perto da casa dela. Vejam vocês! Em tempos de tanto preconceito, em tempos cheios de crimes de ódio, há um Brasil que torce pelo amor! E que não se importa se ele une pessoas do mesmo sexo ou não.
Mais do que um desfecho coerente para uma história bem construída entre dois personagens carismáticos, o beijo tem um relevante papel social: ele naturaliza a expressão de uma outra forma de amor, de uma outra possibilidade de ser, de existir e de amar. Há um Brasil que já sabia de tudo isso. Há um Brasil que fingia não ver isso. E há um Brasil que quer negar isso. Ontem, simultaneamente, esses três Brasis viram isso. Hoje, crianças não amanheceram gays. Maridos não largaram suas esposas para ficar com outros homens. Não houve registros de episódios de depravação em locais públicos. Houve, sim, muita gente enaltecendo a beleza do amor, do respeito e da aceitação. Gente impactada pelo beijo sim, mas também - e talvez ainda mais fortemente, pela linda cena final de "Amor à Vida", quando César, o pai homofóbico, aceita e declara seu amor pelo filho gay, fazendo Félix chorar copiosamente. Uma cena antológica, das mais delicadas que a teledramaturgia brasileira já conseguiu produzir. Aliás, vale dizer que quando Walcyr Carrasco apresentou à direção da TV Globo a sinopse de "Amor à Vida" a trama se chamava "Em nome do Pai". Ontem, terminada a exibição do desfecho da novela, percebi que o título original fazia muito mais sentido que o definido para substituí-lo. 
Depois da exibição da cena entre Félix e Niko a Central Globo de Comunicação divulgou uma nota afirmando que a cena acompanha o momento histórico que vivemos. Taí uma verdade: com atraso, sobretudo em relação ao que já vemos nos canais fechados, o beijo de ontem retrata outros tempos, de maior entendimento sobre a diversidade. Um entendimento que está relacionado aos avanços das políticas de Estado, às recentes decisões judiciais e à luta árdua dos militantes sociais, abnegados defensores dos direitos humanos e do respeito à pluralidade. 
O Brasil de 2014 é muito, muito melhor que o de 2005! E quero crer que o Brasil do futuro, daqui a 10, 20, 30 anos, será infinitamente superior ao país que temos hoje. 

23.1.14

Eles riem de nós...

Em foto estampada na capa do Extra de hoje, o secretário de transportes dá uma gargalhada ao conversar com o presidente da SuperVia, empresa responsável pelo nó ferroviário que parou o Rio ontem...


O que acontece no sistema de transportes do Rio de Janeiro é uma temeridade. Talvez seja essa a área mais vergonhosa, a mancha mais difícil de apagar, encravada na alma de cariocas e fluminenses ao longo desses oito anos de governo do Cabral. Desde o bondinho de Santa Teresa, que viveu uma tarde de trem fantasma, matou gente e jamais foi recuperado - ao ônibus que desabou de um viaduto - também deixando vítimas fatais; passando pelas sucessivas falhas operacionais da SuperVia e do Metrô Rio, o que se vê, cotidianamente, nas ruas, avenidas, trilhos e túneis é a mais perfeita tradução do descaso... 
Por isso, confesso: não fiquei chocado ao ver, na capa do Extra de hoje, a gargalhada do secretário Júlio Lopes, flagrada ontem, horas depois do apagão que paralisou a circulação dos trens. A gargalhada desse senhor, logo substituída por aquela cara de puta arrependida que tantos políticos sabem fazer para tentar nos convencer de sua dor; aquela gargalhada, meus amigos, apenas deixou ver o que pode parecer, para muitos, apenas suspeita: eles riem. Eles não se importam com a gente. Eles tratam o contribuinte - que paga as contas dessa porcaria toda - como idiota. E acham graça! Acham graça de nos entulhar de impostos para dar desconto aos donos do monopólio de ônibus, presenteados com 50% a menos nos IPVAs da decrépita frota que circula por aí, caindo aos pedaços, emporcalhando o ar com aquela fumaça imunda, matando de calor a todos e jamais cumprindo horários ou oferecendo a menor qualidade que seja. 
Eles acham graça. Eu acho detestável! Como disse um dos heterônimos de Fernando Pessoa: "homens altos: passai por baixo do meu desprezo!"

14.1.14

A cara do preconceito!

Âncora do SBT Brasil faz comentário sobre os "rolezinhos" e desfila todo o seu rosário de conservadorismo e preconceito
Soube de um comentário de Rachel Sheherazade sobre o fenômeno dos "rolezinhos" em shoppings e me obriguei a assisti-lo. Comprovei o que já havia percebido em outras ocasiões: essa senhora me envergonha! Não é de hoje que percebo o tom conservador, quase reacionário dos seus comentários demagógicos. Rachel Sheherazade não sabe sequer para qual público fala. Afinal, as pesquisas do Ibope comprovam que a audiência do SBT está muito mais para "rolezinho" do que para os frequentadores dos "shoppings de luxo", cuja ordem e "segurança" ela parece tão empenhada em defender. Notem bem: ela se mostra incomodada com a possibilidade de que os "arruaceiros" cheguem aos centros de consumo das elites. Ou seja: considerando que há baderna, que ela fique restrita às periferias. Que vergonha! 
Que vergonha de uma justiça que permite que shoppings se voltem contra pobres - porque é isso o que esses centros comerciais farão - e, assim, justifiquem seus preconceitos. Não vai tardar para que pretos e pobres sejam barrados nesses locais apenas por essas condições. Ou por estarem de havaianas. Ou por estarem de bermudas. Ou por qualquer subjetividade que o preconceito de um idiota qualquer julgue cabível. Assim, meus caros, o que se solidifica é a realidade que todos nós já sabemos: há lugares em que os ricos não querem que os pobres cheguem! Porque não querem olhar a realidade, não querem se sentir parte dela. Querem fingir, em seus templos do artificialismo, que a diversidade não existe, e que seu mundo perfeito não inclui nada que lhes pareça diferente. Uma vergonha! 
Mas ricos escrotos não me surpreendem. O que me surpreende é que um dos poderes da nossa república enfatize essa lógica elitista, excludente e preconceituosa. Como se não houvesse outras prioridades para a Justiça do país. Ou como se não existissem outras (verdadeiras) ameaças aos direitos básicos dos cidadãos por aí - não só nos shoppings de luxo, mas no Brasil da vida real. 
Vergonha, muita vergonha!!!

8.1.14

Saga nossa

Sinto seu peito arfante, suas mãos geladas e os olhos me convidando para que possamos viver uma vez mais o que tantas outras vezes já vivemos.
Cheiro seu pescoço, mordo sua orelha e não demoro até calar sua boca num beijo. 
Mistura-mo-nos num emaranhado de braços, pernas e línguas. 
Somos só nós. 
Só nossos!
Invado você cheio de saudade, carinho...amor. Sou feliz em você. E posso sentir que também é feliz quando estou em ti. De um jeito que só nós experimentamos. Que o mundo desconhece. E que a gente jamais conseguiu explicar ou entender.
A aventura dura pouco. Mais um episódio dessa louca saga nossa. Estamos leves, livres de tudo o que de ruim poderia ainda resistir. 
Agora é só brincadeira. 
Não sei se só bagunça.
Mas só o que restou...

14.12.13

E eu vi, enfim, uma palestra do Lula...

Aproveitei uma tarde livre no meio dessa semana agitada aqui em Brasília e dei um pulo no Fórum Mundial de Direitos Humanos. Estava cansado, arrumado demais pra ocasião e com muito sono, depois de uma noite em que havia dormido apenas por duas horas e meia. Mas a missão merecia o esforço: queria aproveitar a oportunidade de ver, ao vivo, uma palestra do ex-presidente Lula.
Sempre achei Lula um grande comunicador, capaz de conquistar plateias de todos os tipos com suas falas inflamadas, emocionantes e divertidas. Por isso, não hesitei em esperar, apesar do atraso de uma hora no início da mesa que teria a presença do metalúrgico mais famoso da história do Brasil...
E Lula veio em sua melhor forma. De cara, disparou: "Tenho aqui um discurso preparado para essa ocasião mas, de cara, vou abandoná-lo". Aplausos. Lula não tardou a dirigir sua fala aos manifestantes que faziam barulho e erguiam faixas, os mesmos que, pouco antes, haviam vaiado muito o discurso da presidenta Dilma. "Não tenho medo de cara feia, se tivesse, nem teria nascido! E teria morrido assim que me vi no espelho". Em meio às gargalhadas da plateia - que sufocaram e logo puseram fim aos protestos, o ex-presidente se pôs ao lado dos manifestantes: "É natural que se queira mais! O governante tem que saber ouvir críticas, porque muitas vezes está cercado de gente que só faz elogios". E prosseguiu: "Mas não se pode esquecer do quanto esse país avançou nós últimos anos."
O auditório, atento, passou a prestar atenção. Lula citou os mais de 20 milhões de brasileiros retirados de uma situação de extrema pobreza nos dois governos do PT. Lembrou que foi o presidente que mais construiu escolas técnicas na história do Brasil. E disse: "Fui candidato à presidência por três vezes e perdi. Poderia ter desistido, mas não desisti porque eu sabia que eu, um operário sem diploma universitário, poderia entrar para a história como o presidente que mais fez pela diversidade nesse país". Foi ovacionado e o auditório se rendeu a essas inegáveis conquistas.
"Vocês acham que eu não sei que sou odiado por muita gente?" - prosseguiu - "Eu sei! E como sei! Sou odiado por quem acha absurdo o pobre estar na universidade! O Brasil nunca teve tanto pobre estudando ora doutor, minha gente! Sou odiado pela madame que vê sua empregada chegar pra trabalhar na segunda usando o mesmo perfume que a patroa colocava nas noite de sexta pra ir jantar fora! E sou odiadopor aqueles que adorava viajar de avião com a poltrona do meio vazia, mas agora não podem mais fazer isso porque o pobre também tá andando de avião!"
Voltou-se para os jovens manifestantes e disse: "Vocês têm razão de querer mais saúde, mais educação, de quererem o fim da corrupção! Eu já levantei todas essas bandeiras! Tenho bursite de tanta bandeira que carreguei! Mas a desgraça do jovem é negar a política! Se você quer uma política diferente, entre você para a política e faça a diferença! Porque, acreditem: a desgraça de quem não gosta da política é ser governado por quem gosta dela!".
Saí do auditório como quem acaba de ver um show memorável. Aliás: vi mesmo um grande show! Lula é um orador carismático, tem alto poder de comunicação e uma oratória que toca diretamente no coração de todos que estão comprometidos com esse Brasil mais plural, diverso e inclusivo que brota em todos os cantos. Sou um desses. E agora posso dizer que, um dia, numa tarde abafada de Brasília, vi bem de perto o cara que começou a mudar essa história...

6.12.13

Tudo ou nada?

E de tantas promessas que fizeram, de todas as juras de amor, de todos os olhares ternos, de todos os beijos intermináveis, de tudo aquilo a que costumavam chamar de "nós" restou pouco, quase nada. E esse quase nada ainda era mais puro, mais verdadeiro e mais forte que o tudo que muita gente sonha experimentar ao longo da vida...

8.11.13

Vem?

Reviro na cama que não é minha. Estranho o quarto que também não é meu. Estranho os sons que desconheço, as luzes que teimam em entrar pelas frestas das cortinas, o ligar e desligar constante do ar condicionado. Estranho o som das passadas vindas do andar de cima. Estranho tudo...
E te extraño...
Falta-me você. Faltam seu sorriso, falta o brilho dos seus olhos, falta o som da tua voz que ainda desconheço. Faltam as brincadeiras tolas, só nossas, que criaremos para rir juntos. Falta a nossa música, falta o nosso filme preferido, falta te aquecer numa noite fria e pegar fogo quando encostar em você. Faltam o sabor do beijo que ainda não provei, a jura de amor que jamais ouvi e o abraço - cúmplice e igualmente inédito.
Tenho tanto.
Quase tudo...
E ainda falta você. 
Vem?

27.10.13

Ivete Sangalo e Silvio Santos: encontro de gigantes no Teleton 2013




Noite de sábado, em casa, sozinho. Troco de canal e me deparo com o Teleton. Parei pra ver na hora, claro. Como disse no Twitter, acho que essa campanha é um dos maiores acertos do SBT. O programa é um formato importado, criado por emissoras latinas - o que torna ainda maior sua identificação com a emissora de Silvio Santos. Aqui a causa é pra lá de nobre: o dinheiro das doações vai para a AACD,  mantenedora de centros de reabilitação para o tratamento de pessoas com deficiência.
A madrinha do projeto foi Hebe Camargo, como Silvio sempre faz questão de lembrar. Contratada do SBT, ela convenceu o patrão a embarcar na iniciativa. Hebe e Silvio acreditaram na solidariedade do povo brasileiro e, hoje, o tempo mostra que estavam certos...
Nesta noite, no entanto, o show foi de uma outra dupla. Se tradicionalmente Silvio Santos e Hebe encerravam a maratona televisiva juntos, desta vez o previsto era um desfecho em família: ao lado do dono do SBT estavam a filha, Patrícia, e o neto, Tiago Abravanel. E a atração musical era Ivete Sangalo. Mas bastaram poucos minutos em cena para Ivete e Silvio tomarem conta palco. Num bate-bola afiadíssimo, fizeram o auditório e o público de casa gargalhar. O carisma dos dois é incontestável, e resultou num espetáculo que deixou Tiago e Patrícia relegados à figuração. Teve de tudo: Silvio pisando no pé de Ivete durante uma dança, a cantora segurando dálias para o eterno Homem do Baú ler seus textos, poses para fotos do Instagram e muitos momentos hilários. Ao autografar as sandálias doadas para o leilão da campanha, Ivete ouviu Silvio criticar sua assinatura. "Não me venha cobrar caligrafia bonita que eu sou cantora, não preciso!". Ele também fez graça: "Ivete, até que você ainda tá bem...", brincou, pra logo elogiar a forma da baiana.
Mas o momento mais engraçado da noite - além da hora em que Silvio confundiu a marca de cosméticos Nívea com uma suposta convidada, perguntando: "Quem é Nívea? Cadê a Nívea?" - foi quando Ivete, num número digno dos melhores espetáculos de stand up comedy, imitou vários quadros de programas eternizados por Silvio Santos. Às gargalhadas, o dono do SBT não fez questão de esconder o quanto estava gostando da farra. Em um determinado momento, chegou a dizer: "Ivete, além de cantar você pode ser apresentadora".  Ela logo devolveu: "É só você me dar um programa aqui..."
Foi um programa memorável. Ivete Sangalo, goste-se ou não de suas músicas, é uma das personalidades mais carismáticas e versáteis do showbizz brasileiro. Hoje, na minha opinião, ela fez uma de suas melhores apresentações na televisão - e lá se vão 20 anos de carreira. Deixou o maior apresentador do país sem palavras, convertido ao papel de espectador. E comandou a festa da solidariedade com irreverência e alegria, suas marcas registradas. Antológico!
Em tempo: com Ivete no palco, o Teleton permaneceu na liderança da audiência. Por volta de uma da manhã, o SBT marcava 11 pontos. Sinal de que o público entendeu que o momento era mesmo único...  

18.10.13

O que é o amor?

Amor? Dizem que é paz, que é tranquilidade. Que é deitar do lado de quem se ama e ter vontade de sentir o tempo ir congelando até parar. Dizem que é encontrar refúgio em outra alma, aconchego em outros braços, confiança em outro olhar. Também dizem que amor é sintonia, encontro. Destino? Talvez...
Amor também é verdade. É respeito. É parceria. É crer, em dupla, que aquilo que se está construindo a quatro mãos pode se tornar uma das principais certezas da vida - essa sempre tão incerta. Amor é ter saudade, querer sempre mais. É contar segundos até estar novamente perto. Do lado. Dentro de quem se ama...
Amor é tanta coisa. Tem tantos sentidos, tão plurais significados. Dá até pena notar que tanta gente fala dele sem sequer roçar a superfície doce e grandiosa do sentimento traduzido pela bela união dessas quatro letras... 

1.10.13

Passa tão rápido...


Dia desses eu estava enfrentando naves alienígenas jogando Megamania no meu Atari. Ou lançando bombas sobre navios no River Raid. Isso foi pouco depois de ganhar meu primeiro Ferrorama, que, de tão grande, não cabia na sala da casa em que morava...
Foi nessa época em que ganhei um microfone e uma caixa amplificadora, pra brincar de apresentar o Jornal Nacional e o Globo de Ouro - aquele programa musical que os mais jovens descobriram agora, na reprise do Viva...
Meu Deus! Foi outro dia em que minha mãe me ensinou que o R minúsculo era um "caixotinho" e que o E, também minúsculo, parecia uma bailarina em movimento. Pouco depois eu fiz minhas primeiras redações, li os primeiros gibi da Mônica - dentre as centenas de outros que leria em seguida.
Terá sido ontem que aprendi a pintar? A colorir os mapas com bolinhas de papel crepom? A colocar um grão de feijão pra germinar no algodão? A achar o valor do quadradinho?
Ou foi na véspera que aprendi que uma notícia deve dizer sempre como, onde, quando, o quê e o porquê? Talvez tenha sido no mesmo dia em que aprendi a olhar pra lente da câmera como quem olha nos olhos de um querido interlocutor.
Não sei quando foi. Mas troquei de brinquedos e de brincadeiras. Tudo de um dia pro outro, de modo tão veloz que não me parece exagero algum dizer que transcorreu num piscar de olhos.
Cresci, namorei. Conheci o amor. O prazer. E a desilusão. Pedi uma moça em casamento e fiz dela minha esposa. Desenhamos juntos um futuro hipotético e foi lindo até acabar sem que tivéssemos podido ser felizes para sempre. E aprendi que levantar depois de cada tombo é fundamental pra que os passos se tornem cada vez mais firmes e certeiros. Como quando aprendi a andar....
Parece que foi algumas horas atrás que descobri a paixão pelo jornalismo, por contar histórias. Lembro da primeira reportagem. Lembro da sensação, da adrenalina. Da alegria ao ver o fruto do trabalho se materializar na tela da TV. Sensações que carrego comigo e que experimento ainda hoje, talvez até de modo mais intenso...
Nossa! Fecho os olhos e vejo os amigos que fiz por esses tantos dias (anos?!?!), as risadas que demos, as gargalhadas que nos marcaram tão fundo. Também de olhos fechados revivo as perdas que vivi até chegar aqui. E sinto a saudade tão viva como era semana passada. Ou mês passado. Ou há vinte anos.
Minto. A saudade cresceu muito de lá pra cá...
Parece que foi ontem. Semana passada. Talvez um ano atrás. Mas a verdade é que passou tão rápido que nem sei como, quando, o quê, onde e nem o porquê. Só sei que estou aqui, prestes a fazer 33 anos, e diante de uma descoberta devastadora: o tempo do calendário não é o nosso tempo! Fora das folhas de papel ele passa mais rápido! Ele me faz sentir jovem demais para a idade que tenho. E velho demais para a idade que sinto ter. Ardiloso esse tal tempo! Tempo parceiro, abranda dores e angústias. Oferece novas perspectivas conforme vai voando. E, mais que tudo, mostra que, dia após dia, temos sempre a chance de uma nova estreia...

9.9.13

Sobre a morte de Champignon...

Sempre passo pelo Twitter antes de dormir. Geralmente, para ler amenidades da @diImabolada ou a coluna de TV do @flavioricco. Mais ou menos um hora atrás, cumpri meu ritual e me deparei, de cara, com um tuíte do @fefito, jornalista de São Paulo, citando uma notícia - então ainda não confirmada - sobre o suposto suicídio do músico. Choque!
O @fefito sugeriu que os interessados acompanhassem o facebook do Gui Toledo, que fazia um live feed sobre o assunto. Fiz isso e, infelizmenfe, a notícia foi se confirmando. Em poucos minutos. CBN, Folha de São Paulo, R7 e G1 soltavam a confirmação.
Conheço muito pouco sobre o Charlie Brown Jr. Mas sei o suficiente para imaginar que muita gente deve estar arrasada - ou ficará arrasada pela manhã, quando souber de mais essa morte. Que Deus possa confortá-los, assim como aos familiares e amigos do Champignon.
Do meu canto, fico pensando que a internet mudou radicalmente nossas formas de buscar os fatos. Mudou caminhos, estratégias, fontes. Mudou tudo! Só não mudou, em mim, essa sensação de espanto diante de uma notícia como essa.
Tristeza...

1.8.13

Sobre Glee, Cory Monteith, o sempre e as amizades...

Acho que devo ter visto apenas um episódio completo de Glee, influenciado por um amigo que, então, estava encantado com a série americana. Vi e, embora achando muito avançada a abordagem de temas ligados à inclusão e à valorização das diferenças, não fui "roubado" pela produção. Sou bastante resistente aos musicais e achei a estética similar a dos (piores) programas de calouros, com canções gritadas demais - embora tenha ouvido, posteriormente, boas versões de clássicos do pop interpretados pelos atores-cantores do elenco. Dito isto, e deixando claro que não sou, portanto, um aficionado pela série, resolvi escrever depois de ver, esta madrugada, a homenagem a Cory Monteith exibida pela Fox.
Lamentei desde que soube da morte do ator. Aos 31 anos, popular entre adolescentes de todo o mundo e recém-saído de uma clínica de reabilitação, o ator parecia dono de um futuro promissor. Futuro que não haverá. Esta noite, revendo clipes estrelados por Cory, eu me transportei para o lugar de seus colegas de elenco. Pensei em seus familiares e em sua namorada - na vida e na arte. Vendo essas imagens, todos devem experimentar a dor pelos sonhos que não serão realizados, pelos sorrisos que só existirão nas recordações e por todos os planos que precisarão ser deixados de lado. Que tristeza...
Perder um amigo deve ser uma das piores trapaças que o destino nos pode reservar. Porque amigos nós elegemos, cultivamos, protegemos...tudo para tê-los por perto. Por perto sempre - embora cada dia mostre que pouco ou quase nada nessa vida combina com esse "sempre" que a gente adora distribuir nas frases, nas juras de amor e nas projeções de futuro.
Terminei a noite pensando nessas coisas e meio melancólico...
O especial da Fox foi uma bobagem oportunista. Teria sido mais tocante e sincero se alguém o tivesse resumido à última canção apresentada: Without you, que se tornou conhecida em todo o mundo na voz de Usher e remirada por David Guetta. No clipe de Glee, a música ganha a voz de Lea Michele - justo a namorada de Cory Monteith. E numa demonstração clara de como a arte também imita - e antecipa - a vida, a atriz, cantando para o namorado, diz:
"Eu estou perdida, eu sou inútil
Eu nunca vou ser a mesma
Sem você"
Queira Deus que quando eu vier a me sentir perdido ou inútil, tenha todos os meus loucos, sãos e fiéis amigos por perto. Porque without, pra mim, seria uma barra muito pesada...

19.6.13

Manifesto meu sobre o #vemprarua

1. Sou Dilma, já disse aqui antes. Portanto, acho que as vaias à presidenta em nada nos engrandeceram como nação. Quem estava no estádio - e pagou caro para estar lá - embora tenha todo o direito de se expressar, não traduz os anseios da maioria. E, além das questões ideológicas, acho que as vaias sempre são uma demonstração de covardia e falta de educação;

2. Votei em Eduardo Paes. Acho que a cidade experimentou avanços interessantes, investimentos relevantes em áreas como a saúde (clínicas da família) e a conservação (asfalto liso) em seu primeiro mandato. Porém, acho que o fato de ter votado no prefeito não tira de mim o direito de cobrar para que sua administração avance em outras áreas. Pelo contrário: eu me sinto ainda mais forte para fiscalizar, criticar e exigir para o Rio as melhorias que a cidade merece. E não para mim apenas, para todos os cariocas;

3. Sou favorável às manifestações populares. Creio que elas trazem vigor para a nossa democracia e seduzem jovens a discutirem política. Não a política partidária, que já deixou de nos representar há tempos, mas a política cotidiana, que nos toca diretamente no dia a dia;

4. Sou e serei sempre contrário a qualquer forma de violência e vandalismo. Mas entendo que esses são ônus envolvidos em circunstâncias como essa em qualquer parte do mundo. O que nos cabe é condenar, coibir e reforçar que esses atos criminosos não traduzem as convicções e os desejos da maioria;

5. Sou um democrata. Por isso, fico particularmente incomodado ao ler nas redes sociais mensagens de pessoas que culpabilizam os manifestantes por suas escolhas políticas. Também acho pobres os argumentos de quem diz que o Brasil "é uma merda" e sinto nojo ao ver vídeos como o que via dia desses, de um cara, nos Estados Unidos, dirigindo um carro e lamentando o fato de precisar voltar ao Brasil. Brasileiro de quinta, ele critica o fato de o povo só gostar de carnaval. Deve estar com a língua enfiada no rabo depois de ver o que tem acontecido nos últimos dias;

6. Sou jornalista e amo a minha profissão. Nos últimos dias tenho estado elétrico, acompanhando o desenrolar dos fatos o tempo todo, buscando entender melhor o que está nos dizendo o tal gigante desperto. E é como jornalista que alerto: os meios de comunicação terão, sempre, interesses. Terão seus conteúdos perpassados por suas ideologias, banhados por seus acordos comerciais e/ou institucionais. Todos os meios são assim; não apenas esta ou aquela emissora de TV, este ou aquele jornal. Por isso as redes sociais têm contribuído tanto para dar vazão à pluralidade de vozes, relatos, sons e imagens que chegam dos quatro cantos do país. Os tempos são outros, não há uma única lente a nos mostrar como a realidade é ou deveria ser. Nós somos autores dessa história. Protagonista da maior superprodução da história recente do Brasil. E se não lideramos a audiência na TV, somos trending topic nas redes sociais. Who care?

7. Tenho medo de boatos. E se as redes sociais oferecem diversas perspectivas do que tem acontecido no Brasil, também podem colaborar muito para propagar mentiras. Cuidado com o que compartilham! Não houve rádio retirada do ar e muito menos pode passar pela cabeça da presidenta a loucura de retirar do ar a internet. Ah! O juiz que queria deixar o Facebook inoperante teve essa ideia há quase um ano! É preciso ter critério para ler e interpretar o que os posts nos trazem;

8. Não participo de campanha de dia sem TV Globo ou sem qualquer outra rede. Acho uma bobagem! Respeito os profissionais que trabalham lá - alguns, amigos queridos - e acho que, embora haja equívocos na cobertura, tem havido, também, um interesse em corrigir o rumo da prosa. E se ainda há pontos questionáveis - e sei que os há - prefiro assistir para poder me posicionar;

9. Não concordo com os que condenam a realização da Copa e das Olimpíadas! Em absoluto! São eventos que podem trazer dividendos e prestígio para o país. Acho que todos devíamos questionar os fatores que contribuem para que os custos se desviem tanto dos orçamentos iniciais. E aí, meus caros, não falaremos apenas de obras de estádios. Infelizmente! O mal vai muito além das tais "arenas" da FIFA. E talvez venha desde antes da primeira copa brazuca, realizada em 1950;

10. Por fim: a luta por um Brasil melhor não me opõe à seleção brasileira. Sigo torcendo, achando que Neymar fez pouco ou quase nada com a amarelinha. E sigo sem grandes esperanças com o grupo. Confesso: no momento, tenho mais esperança na promessa de um país melhor que essas manifestações anunciam.

12.6.13

Sobre hoje...

Com o tempo, a gente se acostuma com a espera. Naturaliza o "estar só", administra as crises de abstinência causadas pela falta de um alguém que não se sabe onde está - ou se existe - e se vira como pode pra seguir em frente provando ao mundo - e à própria consciência - que o poeta estava errado ao dizer que é impossível ser feliz sozinho...
E o tempo passa.
De repente, quando ninguém mais espera, as coisas mudam. A gente troca a vida na primeira pessoa do singular por aquela outra, do plural. Somamos à nossa rotina novos hábitos, novos horários. O celular ganha um novo número favorito e o volume de mensagens no whatsapp e todas as que ficam inbox, no facebook, não deixam dúvidas: não é mais preciso esperar! É quando a gente nota que simplesmente aconteceu...
Isso não se planeja, não se idealiza - ao menos, não acho que se deva idealizar - e não convém impedir: quando é pra ser, tudo se estabelece! Aos poucos, dúvidas, angústias e inseguranças vão dando lugar a uma realidade. Um cotidiano novo e deliciosamente imperfeito, como tudo que há na vida. Como acontece em todas as histórias.
Aí, o que nos cabe é seguir. Seguir nessa viagem deliciosa que é conhecer um outro alguém e, dia após dia, se pegar com cara de bobo pensando nesse outro ser que tá lá longe. Fazer loucuras e rir juntos quando o mundo inteiro estaria se descabelando! É cruzar a cidade pra dar um oi; é dormir nas posições mais desconfortáveis e achar incrível o torcicolo do dia seguinte; consequência daquele braço-intruso sob seu travesseiro. É mandar um smile com um beijo no meio da tarde e rir feito um idiota quando, em vez de enviar, é nossa vez de receber a sorridente carinha amarela. É dirigir, na madrugada, com o som irritante de um defeituoso alarme do carro e, ainda assim, encontrar motivos para rir e se sentir calmo. É, enfim, ter, dia após dia, a ideia de que, sim, é possível achar alguém bacana pra dividir a caminhada. E não importa se ela vai ser longa: importa que os passos sejam firmes, verdadeiros e que, se um dia cessarem, tenham deixado um rastro de felicidade e boas memórias.
Que assim seja!

Feliz dia dos namorados...