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15.9.08

Triste cena carioca...

No caminho pra TV, cruzando a cidade partida, vi um comboio de urutus passar por mim. Pra quem não sabe, os urutus são aqueles veículos blindadões do exército. Pra quem também não sabe, o exército foi convocado para garantir a segurança de eleitores de comunidades da periferia do Rio, pressionados por 'forças ocultas' empenhadas em fazer voltar a época do famigerado 'voto de cabresto'.
Em cima dos carros, homens do exército empunhavam armas e, enquanto via a cena, bateu uma tristeza danada. Desculpa, mas não posso encarar como algo natural ver aqueles veículos de guerra ali, passando no meio de carros e ônibus, jogando na minha cara em plena manhã de segunda-feira o quão fomos - e temos sido - incompetentes em assegurar direitos básicos para os filhos dessa terra.
Sou de uma época em que a gente já achava demais que o exército fosse convocado para assegurar a paz em comunidades dominadas pelo tráfico. Ou ainda: para garantir a segurança de chefes de Estado em grandes eventos internacionais, como a Eco-92. Agora, ver o exército convocado para garantir que eleitores exerçam o direto ao voto com tranqüilidade, minha gente, pra mim é o fim dos tempos!!!
E não se indignar diante disso é o primeiro passo pra tornar essa realidade dura natural. E aceitável.
Eu não aceito!

16.7.08

De quantos erros se faz uma mudança?

Desde que resolvi criar o blog, tive a certeza de que não queria fazer desse um espaço monotemático. Daí o babel do nome. Tenho interesses variados, gosto de escrever sobre temas diversos e acho que é essa mistura que faz pessoas tão bacanas chegarem até aqui pra ler e comentar.
Não entendeu a razão do preâmbulo? Explico: a situação da segurança pública no Rio anda tão alarmante que não passa um único dia sem que um fato absurdo cause a indignação de todos nós - e acabe me motivando a postar sobre. Ontem, foi a vez de mais uma atabalhoada - pra não dizer vergonhosa - ação da Polícia Militar, que acabou tirando a vida do administrador Luiz Carlos Soares da Costa, de 36 anos. Vítima de uma ação criminosa, Luiz Carlos teve a vida ceifada pelos policiais que deviam protegê-lo.
As imagens do SBT - exclusivas - são chocantes! Mostram o descaso, o desrespeito e a frieza com que os policiais puxam o administrador, já ferido, para fora do carro alvejado. Fiquei realmente (mal) impressionado ao assistir as cenas. E me pergunto, desde a hora em que vi a notícia, até onde será preciso ir para que algo de concreto se faça em relação ao preparo dos homens que estão nas ruas para garantir a ordem e o cumprimento das leis.
Porque do jeito que está, não pode ficar!

4.6.08

Nós, os negligentes...

O inadmissível episódio do seqüestro de uma equipe do jornal O Dia por integrantes de uma milícia que atua numa favela da Zona Oeste do Rio foi tema de um acalorado debate na redação hoje. E, agora que a poeira baixou e os fatos já estão mais claros, resolvi escrever sobre o assunto.
Primeiro, acho muito infeliz a idéia de deixar uma equipe "morando" na favela, registrando as atividades de uma organização que, embora formada por policiais, é criminosa. O risco de operações como essa é enorme e vidas estão em jogo. E nunca há garantias de que o final será feliz. Como não foi dessa vez...
No debate, uma amiga me alertou que, uma vez paralizados diante dessa realidade - de assumirmos que não podemos cumprir pautas dessa natureza - estamos, todos, admitindo a falência do sistema de segurança pública. Admitindo, aliás, em caráter oficial, a partir do momento em que os gestores da segurança falam publicamente dos riscos envolvidos em coberturas dessa natureza, praticamente desaconselhando-as.
Concordo com ela.
Em parte.
Em parte porque faz tempo que nós, cidadãos e jornalistas, sabemos do quão arriscado é cobrir situações desse tipo. Essa falência da segurança pública do Rio de Janeiro vem de longa data, está longe de ser novidade. Basta olhar pra trás e ver que, há seis anos, Tim Lopes foi brutalmente assassinado ao tentar denunciar as barbaridades cometidas pelo tráfico de drogas numa outra favela da cidade.
Agora, no entanto, é diferente. Não se trata de tráfico. Trata-se das milícias, formadas por maus policiais, que exploram serviçoes e impõem "ordem" nas comunidades em que se infiltram. Uma realidade que não fazia parte do noticiário quando Tim foi morto.
Agora é diferente. É pior, mais grave! É vergonhoso notar que, em menos de uma década, esses grupos de bandidos fardados tomaram de assalto regiões que o Estado continuou a negligenciar. E é vergonhoso não apenas para o(s) governo(s), mas também para toda a sociedade. Porque esse novo estado de coisas nos mostra que nesses seis anos pressionamos menos do que devíamos ter pressionado para que essas comunidades recebessem a atenção e os investimentos que merecem. Pressionamos pouco porque só nos lembramos de fazê-lo quando nós, da classe média, acabamos vitimados. Quando a coisa é só com os "locais", ficamos chocados. Mas não tarda para que o reconfortante esquecimento bata e a gente siga na nossa vidinha "normal", de carros com película escura nos vidros, grades nas janelas e medo de errarmos caminhos e acabarmos dentro de uma favela numa noite qualquer dessas.
Assim, com essa mentalidade medíocre, deixamos a situação piorar tanto em apenas seis anos. Seis anos para "assumirmos oficialmente" uma realidade dura, triste e inaceitável, já velha conhecida por todos os que moram em periferias. E agora, além das três facções que brigam pelos pontos de venda de drogas, temos de enfrentar as milícias.
E agora? O que faremos para impedir que os próximos seis anos façam surgir mais um inimigo?

18.10.07

Que jeito?

Ontem, os telejornais exibiram imagens que mais pareciam saídas de um daqueles filmes policiais. Bandidos num morro, helicóptero policial no encalço deles e...tome bala! As cenas foram realmente fortes e mostraram o exato momento em que os dois criminosos foram mortos pela polícia. O texto da reportagem que assisti não deixou nem margem para dúvidas: "os dois foram mortos".
Hoje, ouvi gente reclamando da ação policial na Favela da Coréia. Gente dizendo que aquela foi uma execução sumária exibida em rede nacional. Gente criticando as operações coordenadas pela Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro.
Que as cenas eram fortes e violentas, ninguém discute. Que elas não fazem parte do mundo ideal de todos nós, idem. Agora, sempre que ouço essas críticas, fico me perguntando se essas mesmas vozes iriam se levantar caso os tais bandidos tivessem acertado e derrubado o helicóptero da polícia. Fico me perguntando se haveria essa mesma reação caso os corpos metralhados no morro fossem de policiais.
É óbvio que as operações são violentas, que oferecem riscos (altíssimos) aos moradores das comunidades dominadas pelo tráfico de drogas. E, repito, é óbvio que elas não fazem parte do mundo ideal de nenhum de nós. Mas, quando vejo críticas, não vejo sugestões. Não vejo alternativas - e deixo claro aqui que adoraria ter uma opção; uma crença qualquer que fosse de que as coisas poderiam ser resolvidas de outro modo, sem violência, sem riscos para os inocentes.
Mas eu não tenho essa alternativa. E ninguém parece ter...
E aí fica um discurso vazio que acaba, muitas vezes, servindo apenas para defender bandido...

29.7.07

O Pan acabou. Que a Paz continue...

Franck Caldeira recebe medalha em encerramento do Pan. Maratonista foi o último brasileiro a ver o ouro brilhar em seu peito no Rio 2007

O Pan chega ao fim e já deixa um gostinho de saudade na boca de todos os cariocas. Cidadãos que vibraram com as conquistas de nossos atletas, que receberam milhares e milhares de turistas com a cordialidade e a hospitalidade de sempre, e que entraram de cabeça no clima de cooperação e harmonia que os eventos esportivos sempre trazem para a atmosfera de todos os envolvidos.
Nós, cariocas, que amamos essa Cidade Maravilhosa; e que a amamos mais ainda assim: bonita, alegre, em paz! Num clima de tranqüilidade que, há muito, não se via por aqui. Durante esses dias de Pan, abri os jornais e constatei - surpreso e feliz - que não havia ocupação de favelas em destaque. Não havia tiroteio, não havia bala perdida! Não havia falsa-blitz, espancamento de domésticas. Abri os jornais e vi, durante todo esse Pan, a tristeza que a violência carrega consigo ceder lugar à beleza e à leveza do esporte, da felicidade. Da vitória! Vitória que é de todos nós, cariocas, fluminenses, brasileiros!
Vitória que devemos lutar para ver repetida nos dias que virão. Porque o Pan acabou e não podemos fazer nada com relação a isso. Mas pela paz podemos fazer muito! A começar, cobrando para que toda a segurança que dominou o Rio durante a competição se torne rotineira. Para que o medo - que por tanto tempo foi nosso companheiro mais constante - dê lugar ao orgulho de viver no lugar mais bonito do mundo! E para que a violência, a maior vilã da história desse nosso lugar, seja vencida pela alegria de sermos cariocas. De vivermos no Rio. E de amarmos tanto e tanto essa cidade linda...