12.4.13

Sobre a (eterna) polêmica da redução da maioridade penal...


Ontem eu li muitos posts revoltados com a história do menor que matou covardemente o estudante que era estagiário da Rede TV. Todo e qualquer assassinato é sempre algo que nos revira, que mexe com nossos instintos e que nos faz querer bradar para que os culpados sejam punidos.
No caso do menor, volta-se à discussão sobre a redução da maioridade penal. Eu acho que esse não é o caminho. Infelizmente, porque, se fosse, talvez até pudesse ser mais fácil. Explico minha discordância: a maioridade penal, estabelecida em 18 anos em nosso país, não vem impedindo que cidadãos com essa idade - ou mais velhos - cometam seus crimes. A lei que os pune - quando o faz - não traz o rigor que a sociedade busca; não está à altura do exemplo que se quer dar; da marca de correção que se quer imprimir a quem está à margem; a quem é marginal. 
Colocar gente mais nova em celas não vai reduzir nossos índices de criminalidade. Não vai nos trazer paz. Não nos deixará tranquilos. E não vai nos garantir que mais vidas sejam levadas pela violência. Creio que se faz necessária uma mudança mais profunda, de toda a sociedade. Uma mudança política, uma mudança na forma que nos portamos na vida, com os outros; na forma como enxergamos o mundo.
E só pra citar mais um exemplo: os Estados Unidos, que tanta gente tem por referência, tem vários estados em que menores de idade podem ser duramente punidos pela lei. E isso não fez com que eles deixassem de delinquir.
O buraco é (bem) mais embaixo...

9.4.13

Daniela Mercury: o "outing", a política e a mídia

No momento em que a Suprema Corte americana discute o casamento igualitário; no momento em que o Brasil discute a (im)propriedade da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias ter sido dada a um deputado que já deu declarações extremamente preconceituosas, um gesto que poderia ser prosaico ganhou repercussão semana passada: Daniela Mercury revelou que tem um novo amor. Uma mulher...
A cantora baiana anunciou, posteriormente, que comunicou o fato com a mesma naturalidade que já usou ao anunciar relacionamentos anteriores. A diferença: até então a artista, que ficou conhecida ao tornar popular a axé music, só havia assumido relacionamentos heterossexuais.
Desde o primeiro instante notei que a atitude de Daniela tinha um forte cunho político. São notórios seus compromissos com a diversidade e o combate a todas as formas de discriminação. Ao dizer-se apaixonada por uma mulher, a quem chama de esposa, a cantora deu mais uma demonstração do quanto é politizada. Mais tarde, voltou ao assunto ao criticar o deputado Marcos Feliciano, cuja eleição para a presidência da CNDHM colocou em cheque a própria comissão, além de demonstrar mais um litígio entre a sociedade civil e os rumos da política nacional.
Não é todo dia que uma artista do porte de Daniela Mercury se posiciona tão abertamente sobre um assunto que ainda é considerado tabu por boa parte da sociedade. O fato gerou grandes reportage
ns em jornais e sites. Foi notícia do Jornal Nacional, matéria do Fantástico e capa de Época e Veja. Todos perceberam a estreita relação entre o momento político - que não está restrito às fronteiras brasileiras - e a postura da cantora.
Ou quase todos...
Sim, quase, porque não tardou até que aparecessem aqueles que enxergaram no fato uma artimanha da cantora para voltar à mídia, para fazer sucesso. Achei estranho. Daniela Mercury é uma das cantoras brasileiras mais conhecidas no exterior atualmente. Estavam turnê em Portugal na semana passada, por exemplo. Já vendeu mais de 11 milhões de discos em todo o mundo. Foi a única artista brasileira convidada para a gravação do DVD de aniversário de 20 anos do Cirque de Soleil e parte da comemoração dos 25 anos do Festival de Jazz de Montreal. Nunca deixou de fazer shows e produzir seus próprios discos - forma de garantir sua independência artística. Muitas dessas produções, diga-se de passagem, receberam grandes elogios da crítica especializada. Destaco "Canibália", "Balé Mulato" e "Feijão com Arroz", entre os melhores CDs da cantora. Definitivamente, fracasso não é uma palavra que combine com Daniela Mercury. E, diante de tudo o que ela já conquistou e considerando o preconceito ainda tão forte em nossa sociedade, vejo que ela optou por correr riscos ao anunciar seu novo amor. Fez política, deu lição de humanidade e de coragem. Mas devo dizer que nada me surpreendeu: sou fã de Daniela há tempos e sei da inquietude da baiana que enxerga a arte como um grande poder transformador. Ao postar aquela bela montagem de fotos em p&b em que aparece com Malu, sua esposa, Daniela fez da vida real arte. E deu sua contribuição para transformar a todos nós...





28.3.13

E Xuxa fez 50 anos...

Blogueiro revê apresentação da loira e viaja no tempo


Xuxa fez 50 anos ontem. Muitos sites falando do assunto, muita gente comentando no Twitter e, por conta disso, acabo de ver um vídeo de uma chegada de Papai Noel, realizada no Maracanã, no fim dos anos 80. Caramba, eu tava lá!!!
Não entrei na nave da loira mas viajei no tempo! Lembrei do Maracanã lotado, balançando, da criançada louca com Xuxa, então, no auge do sucesso. Um perrengue inesquecível. E delicioso!
Xuxa nunca foi um ídolo pra mim. Via seus programas, gostava dos desenhos e das brincadeiras. De certa forma, fui um "baixinho". Até crescer e enxergar tudo aquilo com o olhar crítico que o tempo, a distância e, mais tarde, a profissão exigiram. Mas há pouco, vendo o vídeo e revivendo aquele momento, lembrei que a bunda de fora da loira nem parecia algo erótico. Xuxa era bobona, como uma prima maluca e mais velha que todo mundo tem. Lembrei que ela foi a primeira a falar - e mostrar - crianças com síndrome de Down na TV. Também foi ela a primeira a falar em LIBRAS e a bater na tecla de que era bacana cuidar dos bichos e respeitar a natureza.
Vendeu muito disco e boneca? Vendeu, claro! Mas também aproveitou todas as chances de deixar gravada uma mensagem bacana pros seus fãs pequenos. No fim do vídeo, por exemplo, deseja que todos tenham "fé e esperança em dias melhores". Pediu que todos tivessem "respeito"...
Depois, ficou cult tacar pedra na Xuxa. Também taquei as minhas. Mas, revendo o vídeo, lembrei que aquela moça loira tem seu valor na história da televisão. Achei bonito. E até lamentei por ver que, por exemplo, hoje em dia, em tempos de tanta intolerância, nossas crianças não têm alguém pregando o respeito na televisão todas as manhãs.
Eu tive.
Parabéns, Xuxa! 

17.3.13

RESENHA: "Amour"

Num dia, à mesa, em meio a uma conversa trivial, instala-se a ameaça derradeira. Silêncio, ausência e inércia se apoderam daquela companhia de toda uma vida, anunciando que nem sempre os finais são felizes...
Esse é o início do conflito que testemunhamos em "Amour", longa francês que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013. Na tela, acompanhamos a história de um casal de aposentados, Anne e Georges, que têm suas vidas transformadas depois que ela sofre uma complicação numa cirurgia e acaba com um lado de seu corpo paralisado. Em casa, sob os cuidados do companheiro, Anne exige que Georges prometa nunca mais levá-la de volta ao hospital. O que ninguém poderia imaginar é que, pouco tempo depois, ela passaria a sofrer as consequências de uma severa doença degenerativa...
A história é dura e o filme é cru, seco. Apesar do drama, não há sentimentalismo, não há trilha incidental para sublinhar a tragédia vivida pelos personagens. Há poucas lágrimas. O que se impõe é a história, os diálogos e todas as sutilezas usadas pelo diretor para nos levar para dentro do apartamento do casal. Confinados com Anne e Georges, sentimos suas dores, testemunhamos seu sofrimento e nos colocamos diante do que buscamos sempre enxergar como uma perspectiva longínqua: a finitude.
Emmanuelle Riva oferece ao espectador, aos fãs de cinema e aos admiradores de grandes representações uma primorosa construção (ou desconstrução?) de sua Anne. É comovente ver como, com o avançar da narrativa, ela consegue nos tocar apenas com um olhar perdido, com um grunhido lancinante ou com a contorção dos lábios, desfigurados na tentativa de pronunciar os versos de uma inocente canção infantil. Que grande atriz! E que patacoada saber que ela perdeu o Oscar para uma pretensa nova namoradeira de Hollywood. Ah, as premiações e suas históricas injustiças...
"Amour" é má bela história. De vida, de companheirismo. Uma istória de amor como não estamos mais habituados a ter por aí.
Recomendo!


16.3.13

RESENHA: "O quarteto"

Um filme sobre um grupo de músicos e cantores, idosos, moradores de uma casa de repouso, que têm a convivência alterada a partir da chegada de uma nova habitante, outrora grande estrela do canto lírico. Em linhas gerais, é assim que "O quarteto" vem sendo vendido pelas sinopses de cadernos de cultura e sites especializados em cinema. Um resumo exageradamente reducionista...
O filme marca a estreia de Dustin Hoffman na direção e oferece ao público um delicado olhar sobre o envelhecimento. É possível lidar bem com o fato de sermos podados pelo tempo? Como suportar o fato de não conseguir mais fazer o que antes parecia tão natural? Dá pra conviver com a ideia de que a cada dia passaremos a brilhar um pouco menos?
Todas essas perguntas fazem parte de reflexões universais. No longa, são potencializadas pelas trajetórias dos velhinhos artistas, donos de passados gloriosos, futuros abreviados e de um presente marcado por subtrações...
Parece amargo, deprimente? Não é! Longe disso: o filme tem momentos de boa comédia inglesa, alternados com sequências que são muito felizes ao retratar a velhice como uma fase em que, sim, é possível ser produtivo, criativo, divertido...vivo! E, sim, que enquanto estamos vivos, temos tempo de rever posturas, mágoas e sentimentos...
Deixei o cinema feliz da vida! Me vi na tela daqui a uns quarenta anos. Vi alguns amigos também. E torço pra que a gente seja, em 2053, uma turma tão animada quanto a que o filme mostra...
Recomendo!

14.3.13

Habemus Franciscum!!!

O cardeal argentino é o primeiro papa da América Latina, o primeiro jesuíta a assumir a liderança da Igreja e o primeiro a escolher o nome Francisco
Apesar de ser batizado, não me considero católico. Aliás, não me identifico com nenhuma religião especialmente. Tenho pontos de convergência com várias delas, como também guardo minhas divergências. Meu lado católico se manifesta quando rezo a Ave-Maria para me acalmar ou quando converso com Nossa Senhora de Aparecida, a quem costumo chamar de Nêga. Portanto, não sou o mais fervoroso seguidor da Igreja Católica.
Mas sou jornalista e, nesta terça, acompanhei a fumaça preta saindo da chaminé da Capela Sistina, por volta das sete e meia da manhã. Horas depois, no meio da redação, parei tudo para conhecer o rosto do mais novo ocupante do trono de Pedro...
Acho belíssimos os rituais envolvidos na escolha do papa. Há algo de fascinante numa ritualística secular. Algo que me captura, que me encanta. Para mim, testemunhar o surgimento de um novo papa é perceber a história acontecendo, é ver uma instituição milenar buscando corrigir os rumos do seu barco, ora navegando em tão revoltas águas. Por isso, vi com entusiasmo um sorridente Papa Francisco surgir na sacada da Basílica de São Pedro. Em pouco tempo, notei que o novo líder dos católicos é possuidor de um carisma muito superior ao de Joseph Ratzinger. Fui conquistado por um certo ar bonachão, que fez as moças da redação suspirarem ao constatar o teor de "fofura" do recém-eleito Bispo de Roma. E também achei bonito o gesto de humildade do papa ao pedir aos fiéis que rezassem por ele.
Mas eis que os tempos são outros, nada fica muito por baixo do pano e, minutos depois, quando o Papa Francisco já devia se preparar para dar seu longo e movimentado dia por encerrado, Twitter e facebook viraram celeiros de vaticanistas! As notícias sobre sua cumplicidade com a ditadura da Argentina e sobre posturas contrárias ao aborto e à união de pessoas do mesmo sexo pipocaram na internet.
Eu achei graça...
O que isso revela? Que o papa é conservador? Talvez! Mas também revela que nós estamos cada vez mais instantâneos. Cada vez mais reproduzimos histórias sobre as quais sequer tivemos tempo de refletir. E isso não faz de nós mais politizados ou bem informados.
A Igreja deve refletir a sociedade? Não sei. A Igreja precisa mudar? Sim, muito. Seus líderes sabem disso e, não por acaso, não elegeram papa o candidato da situação. Mas não dá pra esperar por um papa que pire na batatinha e saia concordando com todos os clamores do nosso tempo. Não é o caso! Da minha parte, se ele se mostrar favorável ao uso dos contraceptivos, combater duramente a pedofilia e a corrupção que corroem a Igreja pelas entranhas e se vier a defender suas crenças sem propagar preconceitos, já terá feito uma bela passagem pela história. Mas, acima de tudo, que ele possa ser um exemplo de que, mais do que a religião, é a fé que deve nos unir. Que possa mostrar a todos nós, a cada dia, que podemos ser melhores. Que podemos construir um mundo melhor e mais justo, em que todos possamos ser iguais. E que demonstre que quando um de nós é desrespeitado, todos saem perdendo.
Boa sorte, Papa Francisco. A luta é grande e está apenas começando...

RESENHA: "O impossível"

Em 26 de dezembro de 2004, às 7h59, a terra tremeu no fundo do mar, nas proximidades de Aceh, no norte da Indonésia. O terremoto de 9 graus na escala Richter causou o maior tsunami que o mundo havia visto em 40 anos - o primeiro de que muita gente, inclusive eu, ouviu falar. A onda avassaladora matou mais de 220 mil pessoas em 13 países. Aproximadamente 1,5 milhão de pessoas ficaram desabrigadas.
Lendo essas informações - e vendo vídeos da época - dá pra imaginar o gigantesco poder de devastação do tsunami. Mas, confesso, só vendo "O impossível", de Juan Antonio Bayona, consegui me aproximar da tragédia vivida por aqueles que estavam na área tomada pelas águas. Estrelado por Naomi Watts e Ewan McGregor - que jamais desperdiçam as boas cenas reunidas no roteiro - o filme conta a história real de uma família que, como tantas outras, estava passando férias na região e se depara com o imprevisto. Ou com o impossível...
Não darei detalhes do roteiro pra não estragar surpresas. Mas fiquei muito impressionado com a preciosa reconstituição do cenário arrasado pelas águas do tsunami. Todas as cenas relacionadas ao drama dos que foram atingidos pela onda gigante são muito bem feitas; desde a própria sequência da invasão das águas até as cenas que mostram hospitais abarrotados. Tudo muito bem cuidado, feito na medida certa para traduzir a angústia de quem viveu a dor de estar na Indonésia naquela manhã de dezembro.
"O impossível" me fez mergulhar na dor de toda aquela gente. Em vários momentos, eu me emocionei com tanta dor. Em outros, gestos de solidariedade igualmente me fizeram emocionar. Em suma: um filme tocante, que nos transporta para aquela manhã fatídica, nos faz imaginar a dor dos tantos que passaram por toda aquela tragédia e, mais que isso, nos faz pensar que, às vezes, o impossível acontece.
Eu recomendo!

10.3.13

Leme indomável

A gente acha que controla tudo. Que bobagem! Uma hora, quando menos se espera, vem a vida e dá uma pernada. Bagunça nossos dias, revira nossos sentimentos, desperta novos amores e ódios, faz mágoas antigas darem lugar a novas...reorganiza tudo e nos mostra quem é que está no comando do leme...

8.3.13

Sete de março: um dia vergonhoso para a política nacional!

É estarrecedor ver o autor de declarações racistas e homofóbicas eleito para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. É constrangedor perceber que a reação calorosa da sociedade - sobretudo dos movimentos sociais - sequer foi considerada por aqueles que ocupam cargos de representação.
Pergunto: a que esses senhores representam?
Não me sinto representado por quem cala diante de um fato tão sério. Não me sinto representado por quem impede que manifestantes se posicionem na casa do povo. Não me sinto representado por quem compactua com uma eleição que tem como marca inicial uma total ruptura com os ideais propostos por uma comissão tão importante: o respeito aos direitos humanos, sobretudo das minorias historicamente subjugadas por um país tão excludente.
Pergunto: que direitos defenderá uma comissão presidida por um senhor que se referiu aos negros como "amaldiçoados"?
Não me sinto representado por alguém que aparece, em vídeo, cobrando que um fiel passe a senha do cartão de débito para que o milagre desejado seja efetivado por Deus. Não me sinto representado por quem aceita motos como donativos em cultos religiosos. Não me sinto representado por quem faz varejão da fé alheia!
Pergunto: como não sentir vergonha de ser brasileiro nesta quinta-feira, sete de março de 2013???

6.3.13

Doutora Flávia...

Ao contrário do que diz o clássico sertanejo, eu aprendi a dizer adeus. Ainda é doloroso, ainda é difícil, mas sei que essa hora existe e - infelizmente - sempre chega...
Duro é quando não há tempo para esse adeus. Quando não dá pra dar o último abraço, um beijo, pra rir junto das bobagens da vida, ou pra oferecer o ombro nas horas de lamento. Duro é ver a vida nos negar essa oportunidade de dizer um até breve...
Há pouco, soube que uma amiga querida se foi. Estávamos distantes, mas o carinho por ela e sua família sempre foi grande. Não lembro de nosso último encontro. Não lembro de quando a vi sorrir pela última vez. Não lembro de muita coisa e isso é triste. É triste e faz pensar que, deixando o barco da vida correr, a gente também deixa mais frouxos os laços; deixa passar as oportunidades de estar perto. Deixa irem embora momentos que jamais poderemos viver de novo...
O que conforta é saber que, no nosso tempo, do nosso modo, naquele convívio tão intenso, festivo e feliz, a gente se curtiu muito! A gente se divertiu muito! E a gente riu muito! São essas as memórias que quero carregar comigo; agora somadas ao carinho e às saudades...
Fique bem, Flávia. Um dia a gente se encontra de novo...

1.3.13

Non habemus Papam!

Sou de uma geração que viu um papa carismático e midiático permanecer no trono de Pedro até o fim da vida, quando seu sacrifício era mais que evidente. João Paulo II, fragilizado pelo Mal de Parkinson, foi até o fim no papel de sucessor de Pedro.
Hoje, ver o helicóptero da república italiana sobrevoando Roma e levando o Papa para longe do Vaticano, foi uma imagem forte. Há algo de dramático nessa desistência, algo que permanece insondável para quem está fora dos salões onde são decididos os rumos da igreja. Há, também, algo de fascinante na renúncia de Bento XVI - ineditismo, provavelmente - que fez, como tem noticiado a mídia italiana, o agora Papa Emérito se tornar popular como nunca havia sido entre os romanos.
Abatido, com a voz enfraquecida e o rosto afinado pelos quilos perdidos nos últimos tempos, Joseph Ratzinger adquiriu as feições de avó que seu antecessor sempre ostentou. Parece mais humano, mais próximo. A feições, antes tão duras, soam dóceis. As palavras, mais carinhosas.
Entre as milhares de pessoas que resolveram se despedir do papa, também foi possível notar reações mais calorosas. Se esse foi um pontificado morno, teve um fim mais apaixonado. Sim, ao que parece, Bento XVI só conseguiu se aproximar verdadeiramente dos seus fiéis no momento em que resolveu deixar vago o posto de líder dos católicos...

27.2.13

O dia em que ouvi as histórias e canções de Bibi Ferreira...

No espetáculo, Bibi Ferreira canta em cinco idiomas, emociona e diverte a plateia
Quando surge no palco caminhando vagarosamente ao som de "Malandragem" - canção eternizada na voz de Cássia Eller, na qual ela questiona se ainda é uma garotinha - Bibi Ferreira bota a plateia no bolso. Ovacionada, dona da cena, a atriz, do alto de seus noventa anos, demonstra, desde o primeiro instante que olha para a vida - e para si mesma - com humor.
Humor acido, quando diz que no século dezessete tinha "treze ou catorze anos". Humor ácido utilizado novamente quando uma espectadora grita o ano em que uma de suas peças esteve em cartaz e, de primeira, Bibi devolve: "Você sabe a data? Mas essa coisa de data compromete a gente...", para risadaria geral.
Em "Bibi, Histórias & Canções", o público é conduzido por um passeio pela carreira dessa que é uma das maiores estrelas do teatro nacional. Se não for a maior, Bibi é a mais versátil: atua, canta, dirige; tudo com maestria exemplar! Nesse espetáculo em que passeia por épocas, países e gêneros diferentes, a atriz/cantora também navega por cinco idiomas: canta em inglês, espanhol, italiano e francês, além do português, língua materna. Forjada na escola dos palcos, a estrela tem pleno domínio de cena e demonstra que o tempo não lhe roubou o frescor. Nem no canto e nem no humor. Graciosa, canta temas de musicais americanos que despertaram seu encanto por Hollywood. Emociona ao unir canções de Elizeth Cardoso num medley que remete aos anos de ouro do rádio brasileiro. Seduz ao som dos tangos argentinos, apontados como herança musical da família. E arranca gargalhadas ao cantar árias consagradas com letras de clássicos da MPB. Tudo para voltar a emocionar logo em seguida, interpretando trecho de um de seus maiores sucessos, "Gota d'água". Outra ovação. Sem falar em Piaff, trunfo estrategicamente alocado no fim do roteiro.
Saí do teatro contente, leve. Que bom ver Bibi em cena! Que bom rir e me emocionar com as histórias e canções dessa estrela primeira da nossa arte! Bibi é o teatro brasileiro em sua melhor expressão, é o Brasil de que mais podemos nos orgulhar, é a vitória do talento, do dom, do saber ser e fazer. Ela não parece atriz: é. Das maiores! Não parece cantora: é, das mais hábeis ao interpretar. Não parece jovem, mas brinca em cena. Dá até pra pensar que, de algum jeito, Bibi Ferreira tem mesmo treze ou catorze anos...


26.2.13

Mudança infinita


Tenho calma. Em 32 anos, a vida me ensinou que tudo é transitório. Se é ruim saber que não tardará até que o riso dê lugar a um novo pranto qualquer, é fonte de alívio estar certo de que também as futuras lágrimas já brotarão condenadas ao fim. 
As coisas mudam. As alegrias mudam. As dores mudam. Os desafios mudam. As sensações mudam. 
Nós mudamos. 


Toda hora, todo tempo.
Tenha calma. Viver é um transformar-se sem fim. E, com fé, a mudança sempre há de ser pra melhor...

Salve nós!

Novela das nove tem a menor audiência dos últimos 12 anos
Li no UOL que a autora da novela das nove anunciou que vai reparar, num dos próximos capítulos, mais um furo de sua narrativa, prontamente captado pelos telespectadores. 
Glória Perez já fez belos trabalhos na TV. São parte da história da teledramaturgia obras como "Desejo", "Hilda Furacão", "Carmen" (da extinta TV Manchete); e mesmo trabalhos mais recentes, que não têm minha predileção, mas tiveram grande repercussão e audiência, como "O Clone" e "Caminho das Índias". Em "Salve Jorge", a autora demonstra estar numa baita entressafra. A trama não é das mais inspiradas, os personagens, pouco carismáticos e tudo parece inverossímil demais. Gloria desaprendeu a escrever novelas? Claro que não! Mas acho que o público aprendeu a acompanhar esses folhetins de outros modos... 
Com a internet, um furo numa cena, que antes poderia jamais ser notado, fica eternizado com um print screen. Com tudo online, é fácil dar uma busca e ver se o milionário já conhecia a protagonista ou não. E, sobretudo, em tempos de vida real tão inacreditável, algo que fuja do razoável soa como uma agressão ao espectador, que gosta de se sentir "malandro", caçando furos. "Avenida Brasil", de tom tão realista, também não escapou dessa armadilha: todos ficamos indignados com a ausência de um pendrive para que Nina armazenasse as fotos comprometedoras de Carminha e Max. A diferença é que foi um fato isolado. Um deslize. "Salve Jorge", ao menos até aqui, tem parecido um amontoado deles...

15.2.13

O encontro...


É quando os olhos se miram e se reconhecem. É quando o som da voz parece diferente de todos os outros, mais gostoso de ouvir que todos os outros. É quando o abraço é mais que abraço, é nó, é amarra, é laço! É quando a conversa inebria, flui solta, como as águas do rio em busca do mar. É quando, uma vez unidas, duas bocas parecem de volta ao porto inicial, como se fossem uma extensão da outra e, por conta disso, só unidas tivessem razão de ser...
É quando tudo isso acontece. Quando tudo é assim, gostoso assim, que se pode ter a certeza de ter havido um verdadeiro encontro...

13.2.13

Um carnaval inesquecível...

Se havia alguém mais feliz que eu na avenida o espelho meu não disse. Tomei muitos porres de felicidade, naveguei, naveguei e, mesmo longe do nordeste, fui cabra da peste. Sempre soube que sonhar não custa nada e, nesses dias mágicos, sonhei muito! Vivi uma overdose de alegria, um dilúvio de felicidade; afinal o rei mandou cair dentro da folia...
E lá fui eu...
Fui de Lapa, de Lagoa, de Gamboa. Fui de Aterro, fui de Praça XV, de Ipanema, de Avenida Rio Branco. Fui pelo Largo de São Francisco. Fui muitos! Fui mágico, turista! Voltei no tempo e brinquei de Faraó na lendária Rua do Ouvidor. Tirei onda de Nerd e peguei emprestado o Coalhada do mestre Chico Anysio. Fui esses todos. E fui alguns outros...
Fui atrás da folia onde ela estivesse e onde meus pés aguentaram me levar. E eles foram bravos companheiros! Com eles eu trilhei caminhos de samba, de frevo, de axé. A trilha de um carnaval plural, com funk, Beatles, Mamonas, Roberto, Raul e até sertanejo! Voltei no tempo com as marchinhas que não deixam ninguém parar e parei, na chuva, pra ver a alegria do nascimento de um bloco gigante: o Bloco do Chá, que trouxe um pouco de Salvador aqui pro Rio. Uma mistura perfeita para cariocas que, como eu, têm um bocado de dendê no sangue.
Usei lentes verdes pra me fantasiar de turista. Lentes de contato que me deixaram com os olhos de meu pai. Tive grandes companhias, senti falta de gente querida, e fiz a farra valer a pena nesses dias em que a única preocupação foi me divertir.
E como eu me diverti! É por essas e outras que eu também queria que essa fantasia fosse eterna...
Te vejo em 2014, carnaval!

5.2.13

Sobre Marília Gabriela e Silas Malafaia...

Só no fim da noite de ontem vi a entrevista de Silas Malafaia no De Frente com Gabi, exibida domingo, no SBT. Conhecedor das polêmicas que envolvem o líder religioso, não quis perder a oportunidade de ver seu encontro com a melhor entrevistadora da televisão brasileira.
Gabi perguntou de tudo: dos números envolvendo a suposta fortuna de Malafaia, recentemente divulgados pela Forbes, aos porquês envolvendo toda a eloquência com que ele tem se dedicado a combater a PEC de criminalização da homofobia. Foi uma grande entrevista, portanto, na qual o convidado se viu desafiado a explicar quais os fundamentos da dal Teologia da Prosperidade: "você tem até avião", pontuou Marília Gabriela, num dos momentos de grande tensão do programa.
Malafaia se comparou a Pelé ao dizer que os novos pastores não devem ter a ambição de repetir a sua trajetória. Vangloriou-se do trabalho desenvolvido junto a famílias precarizadas pelo álcool e por outras drogas, "sem dinheiro público", sem considerar que utiliza, para isso, dinheiro do público que lota seus cultos, compra seus livros e DVDs.
Quando o assunto foi a homossexualidade, tratada pelo religioso como "homossexualismo", apesar da tentativa de correção feita por Marília Gabriela, o que se viu foi um show de intolerância. De frente com Gabi, Malafaia berrava como se estivesse num púlpito, fazendo ecoar nos ares seu discurso repleto de contradições e interpretações rasteiras. Reduziu a proposta de lei que quer combater os crimes de ódio contra os homossexuais a uma tentativa de privilégio do Movimento Gay, desconsiderando as milhares de mortes violentas que vitimam cidadãos homossexuais ano a ano. Condenou a adoção de crianças por casais homossexuais ("tem muito casal hetero na fila querendo adotar") e profetizou sobre os casais que já conseguiram o direito à adoção, insinuando que (os problemas) "aparecerão daqui a 50, 60 anos". Gabi não resistiu e exclamou: "Você já tá julgando, você é Deus!"
Sim, é assim que Silas Malafaia se apresenta. E não só ele: muitos outros líderes religiosos também se colocam acima dos interesses humanistas para defender dogmas e preservar nichos de mercado. Um mercado da fé, bilionário, onde os homens que arrebanham multidões dormem em berço de ouro enquanto falta a cama para muitos de seus fiéis. Um mercado em que discursos radicais e extremos alimentam a violência, num caminho completamente impensável para os que acreditam na fé como uma forma de alcançar o bem estar individual e coletivo, o respeito ao próximo e, sobretudo, um convívio harmônico e pacífico. Se Jesus nos mandou amar ao próximo como a nós mesmos, duvido que aprovaria o tom raivoso empregado por tantos desses que falam em seu nome. Fé não combina com tanto ódio. Fé é aquilo que nos devia unir em torno de um bem comum, e não nos segregar.
Terminei de ver o vídeo e fiquei pensando muito. Como Marília Gabriela, também tenho dúvidas se o meu Deus é o mesmo de Silas Malafaia. A diferença é que não espero que o meu Deus o perdoe: quero mais é que lhe pesem sobre os ombros, na alma e onde mais lhe puder pesar todo o peso do ódio e do preconceito que tem ajudado a propagar nessa Terra. Amém!

28.1.13

Santa Maria...

Acordei com um alerta no celular. Era uma mensagem no whatsapp. Um amigo dizia que só se falava disso. Liguei a TV e levei um choque: 231 jovens, mortos num incêndio em Santa Maria. Uma noite que seria de diversão, de azaração, deu lugar a um domingo de imensa dor. Dor das famílias, dos amigos. Dor de todos nós.
É difícil buscar explicações para tantos sonhos impedidos, pra tantas vidas interrompidas. Destino? Vontade de Deus?
Creio em Deus e tenho muita fé. Isso me impede de crer que seja fruto do desejo Dele uma tragédia dessas proporções. Atribuo essa nossa dor à irresponsabilidade de alguns, ao descaso de outros. Gente que não imagina que suas atitudes - ou que a falta delas - possa resultar numa pilha de corpos espremidos, empilhados num banheiro qualquer, exalando tristeza por todos os lados. Gente que não pensa que é dolorido saber que os celulares das vítimas seguiriam tocando, horas depois do resgate dos corpos. Chamadas das mães, amputadas depois da morte de seus jovens filhos. Gente que, diante dos próprios interesses, não hesita em cortar custos pequenos, sem perceber que o ônus de uma pequena economia pode ser uma grande tragédia.
Enorme tragédia essa nossa...
Como disse, tenho fé. E peço que a Santa Maria cuide de cada um desses 231 pedaços do nosso povo. Que cubra-os com seu manto e os ajude a entender tudo. Que guie seus caminhos por estradas cheias de luz. E que olhe pelos familiares dilacerados por essa dor tão violenta.
Amém!

23.1.13

Rio Hudson

As fotos traduzem momentos em imagens. Mas eu, que tiro tantas e tão diversas fotografias, tenho pensado que há muito de "não dito" nessas traduções. O que escapa à imagem, o sentimento por trás do clique. Tudo vira uma paisagem, às vezes, um sorriso. E acaba se igualando a tantas outras fotos, de tantas outras paisagens e sorrisos. É essa memória que quero preservar com essa série de posts. Se todos são autobiográficos? Pouco importa. O que importa é que todos são, pra mim, a mais perfeita tradução do que escapou a esses instantes memoráveis que, até hoje, guardava apenas em imagens...



Ali, à margem do rio, vi que água e céu se encontravam num cinza que parecia não ter fim. No meio, a fina linha do horizonte - igualmente acinzentada - mostrava que o que separa coisas tão semelhantes, certas vezes, é apenas a sutileza de uma linha. Uma linha de raciocínio, um traço de personalidade, um risco que se resolve correr e que, só depois, percebe-se que não era nada compensador...
Olhando aquela paisagem de chumbo, notei que também era cinza o meu céu. Era carregado, pesado. Embora a maior tempestade já tivesse ficado pra trás, a calmaria ainda tardaria a vir. É preciso ter sabedoria para enfrentar a revolta dos dias cinzentos, pensava. Buscava na calma daquelas águas a inspiração para saber que mesmo quando a cor se faz ausente - e por mais que não seja possível entender isso - todos os tons continuam a existir em nós. Guardados, talvez. Mas estão ali, num canto qualquer. E mesmo quando tudo parece monótono como naquela paisagem, com muito mais que apenas cinquenta tons de cinza, as águas continuam a correr. A Terra segue a girar e nós, mesmo anestesiados, seguimos a caminhar. Afinal, o movimento é sempre constante...
Hoje, tantas léguas distante daquele rio pálido, sou outro. Cá no meu cais, já não enxergo mais o cinza como tom predominante. Tudo voltou a ter cor e o sol voltou a brilhar, intenso, no meu firmamento. Sim, sinto o céu aberto sobre mim, seus raios iluminam novamente minha existência e seu calor me lembra, a cada instante, que os dias nublados ficaram pra trás, ficaram pra longe. E cá do meu cantinho, mais perto das águas salgadas do que das doces e cinzentas águas daquele rio, posso dizer, finalmente,  que voltei a nadar a favor da correnteza...


21.1.13

Aquele beijo...

Tinha sido só um beijo. Nada de conversa, nada de carinho. Apenas olhares e um beijo. Um beijo intenso e rápido, como as chuvas que costumam cair no verão. Terminado, separaram-se e voltaram à solitária multidão de antes.
Mas quem disse que há regras? Quem disse que há um roteiro a ser seguido? Não há! Quando o assunto é o encontro, quem governa é o imprevisto! O desafio é abrir mão da falsa sensação de que temos algum controle sobre a vida, respirar fundo e se entregar...